As
bases da arte japonesa
Uma série de princípios estéticos como o do miyabi (elegância refinada),
mono no aware (pathos da natureza), wabi (prazer da tranqüilidade)
e sabi (simplicidade elegante), às vezes de difícil compreensão no
Ocidente, constituem as bases da arte japonesa, cuja característica
essencial, desde os tempos mais remotos, é configurar um mundo de
perfeita harmonia e serenidade.
Período
pré-budista
Não se dispõem de muitas informações sobre a primitiva história cultural
do Japão, mas os raros exemplos de arte pré-budista (ou seja, anteriores
ao Século 6º) já exibem certas características especificamente nipônicas,
expressadas na haniwa, figuras fúnebres de argila, e nos dotaku, sinos
de bronze cobertos de inscrições.
O período pré-budista costuma ser dividido em três culturas distintas:
a Jomon, de 2.500 a.C. até o Século 3º a.C.; a Yayoi, do Século 3º
a.C. ao Século 3º da era cristã; e a Tumular ou Kofun, que medeia
aproximadamente do ano 250 ao 500.
A cultura Jomon atingiu praticamente todo o arquipélago japonês. Os
objetos artísticos eram principalmente peças cerâmicas (vasos e pequenas
figuras), com decorações estriadas (jomon).
A cerâmica Yayoi é avermelhada e mais fina que a Jomon. Junto com
a cerâmica, foram encontrados também dotaku e espelhos, armas, objetos
de vidro e jade.
Como a nação japonesa se formou mediante sucessivas vagas de imigração
oriundas da Indochina, Indonésia, ilhas do Pacífico e, a partir da
era cristã, da Coréia, entre os Séculos 3º e 6º da era cristã estabeleceu-se
a cultura eneolítica coreano-japonesa e nos dois países acham-se idênticos
objetos de bronze (espadas, punhais, espelhos circulares etc.).
Na época Tumular ou Kofun, construíram-se grandes túmulos para nobres
e príncipes, como a tumba de Nintoku Teano, com 2.718m de diâmetro
e 21m de altura, que data provavelmente do ano 399 e tem as paredes
cobertas de pinturas policrômicas rudimentares que representam sóis,
triângulos e espirais. Várias haniwa foram encontradas perto de túmulos
das cercanias de Yamoto.
Período
Asuka (552-710)
A introdução do budismo no Japão, a partir do Século 6º, durante o
chamado período Asuka (em que esta cidade foi a capital do país),
deu grande impulso à arte em geral.
A escultura foi influenciada pelas artes chinesas Wei, Sui e Tang;
no final do período, porém, tornou-se mais sensível e graciosa, adquirindo
peculiaridades próprias.
Período
Nara (710-794)
No Século 8º, a capital foi transferida para Nara, que se tornou o
maior centro cultural, tão magnífico quanto Changan, a capital chinesa
cujo modelo seguira.
A escultura floresceu, e a decoração dos principais edifícios foi
feita em tons nuançados (ungen). As estátuas de meados do Século 8º,
imponentes e agradáveis à vista, dão a sensação de movimento real.
Os materiais mais empregados são madeira pintada, laca, papier mâché,
bronze e argila. Estátuas realistas e máscaras grotescas, usadas nas
danças cômicas do gigaku, completam a produção escultórica.
Período
Heian (794-1185)
Heianjo ou Hioto, cidade já construída sob a influência da família
Fujiwara, tornou-se a capital a partir de 794.
O estilo japonês começou a libertar-se da influência chinesa, à medida
que, na China, a dinastia Tang se enfraquecia.
Também a seita shigon inspirou importantes obras de arte, quase todas
destruídas séculos depois.
A partir de 897 a família Fujiwara impôs ao país seu domínio e, paralelamente,
um modelo estético que marcou todas as obras de arte: estas ganharam
mais leveza e elegância, a policromia prevalece e as figuras humanas
mostram-se de uma finura aristocrática, de linhas predominantemente
femininas.
O maior pintor do Século 9º foi Kose Kanaoka, criador do estilo Kose.
A ilustração de poemas e contos tornou-se então um gênero artístico
muito apreciado. Esse tipo de pintura, em rolos de papel que se desdobravam,
criava a sensação de movimento no espaço e sucessão no tempo.
Sob a hegemonia dos Fujiwaras, as artes floresceram. A planta em T
do pavilhão do Fênix no templo Byodoin, entre Quioto e Nara, reproduz
os palácios místicos do céu e ostenta um Amida de Jocho, escultor
do Século 9º cuja concepção do Buda marcou a escultura religiosa do
século XIX.
A prática de incrustar os olhos das estátuas começou no Século 12.
As cores intensas da pintura Fujiwara são realçadas por folhas de
ouro recortadas (kirikane).
Com a escola de Kasuga, começou a yamoto-e, pintura narrativa puramente
japonesa que, segundo a tradição, foi inventada pelo pintor Tosa.
Período
Kamakura (1192-1333)
Com a derrubada da família Fujiwara, Minamoto Yoritomo estabeleceu
o xogunato e fixou-se em Kamakura.
O espírito vigoroso dessas gerações de guerreiros, que governaram
o Japão nos 700 anos seguintes, traduziu-se no modo simples e desafetado
de observar e expressar a natureza, o que transparece nas esculturas
de Unkei (Os patriarcas da seita Hosso,
Os 12 acólitos de Fudo, A trovoada e o vento) e seus seguidores, nas
pinturas em rolo (embaki), ainda próximas da arte chinesa do período
Sung, e nas máscaras do bugaku, dança que veio substituir o gigaku.
O reatamento das relações com a China e a introdução do zen-budismo
reforçaram então a influência chinesa (sobretudo Sung e Yüan), especialmente
na pintura monocrômica de paisagens.
As maiores obras-primas da pintura narrativa -- Ban-Dainagon, Shigizan-engi,
Taemamandara no engi --, foram produzidas em rolos de cerca de cinqüenta
centímetros por 9 a 12m, de efeito quase fotográfico.
O Yamoto-e, do Século 13, superou mesmo os rolos chineses e narra
acontecimentos históricos, biográficos e religiosos. Também a arte
do retrato espelhou o novo realismo.
Período
Muromachi (1338-1573)
Sob a hegemonia da família guerreira Ashikaga, Quioto, que fica no
distrito de Muromachi, voltou a ser a capital do país.
A simplicidade do modo de vida dos samurais caiu em desuso, embora
aumentasse o prestígio do zen-budismo, a cuja sombra as artes muito
se desenvolveram.
A porcelana experimentou rápida evolução, em correlação com a cerimônia
do chá (cha-no-yu). As porcelanas Imari e Satsuma, cujas formas se
destinavam a ser apreciadas com os olhos e as mãos, denotam a influência
chinesa.
Por essa época surgiu o Suiboku, estilo de pintura intimamente ligado
ao zen-budismo e que apreciava as aguadas de nanquim em preto e branco.
O primeiro grande pintor dessa técnica foi Shubun. Destacou-se também
Sesshu, "o pintor da chapada de tinta", que desenvolveu estilo mais
pessoal.
A escola Kano de pintura surgiu pelas mãos de Kano Motonobu, no final
de um período marcado pelo esvaziamento da pintura budista, e deu
sabor japonês a um estilo essencialmente chinês.
Período
Momoyama (1574- 1603)
A arte deste período, extraordinariamente vívida e brilhante, foi
uma reação à severidade do estilo Ashikaga.
Os artistas da segunda e terceira geração da escola Kano inventaram
os painéis desdobráveis de sete faces (conhecidos no Ocidente como
biombos), que representavam cenas populares, mulheres, samurais e
paisagens. Destinavam-se a ornamentar palácios e castelos, como o
de Momoyama, que deu nome à fase.
O cristianismo, levado no Século 16 pelos portugueses, teve repercussões
profundas na arte nacional. Os temas cristãos, copiados por artistas
japoneses ocidentalizados, começaram a aparecer na pintura.
Embora a maior parte das obras desse período tenha sido destruída
com a perseguição iniciada em 1638, dois exemplos do Século 17 sobreviveram:
o Retrato de São Francisco Xavier (Museu de Kobe) e Os
15 mistérios do rosário (coleção Azuma). Tais obras, ao lado
de cenas em estilo europeu, foram chamadas pinturas namban, ou seja,
"dos bárbaros sulinos".
Entre os pintores japoneses impermeáveis à influência ocidental figuram
os muralistas Eitoku, Chockuan, Sanraku e outros.
Honami Koetsu, pintor, gravador, calígrafo insuperável, ceramista
e poeta, fundou com Sotatsu uma escola essencialmente nipônica.
A influência da escola Tosa fez-se sentir no tipo de pintura que ilustrou
o começo do teatro profano (tagasode).
Período
Edo (Ukiyo-e)
(1603 a 1868)
O período Edo foi dominado pela família guerreira dos Tokugawas, que
escolheu a cidade de Edo (mais tarde Tóquio) como
capital e impôs seu jugo ao país por mais de 250 anos.
No início da década de 1630, os cristãos foram perseguidos e expulsos,
e o Japão cerrou as portas a todos os estrangeiros. Esse isolacionismo
empobreceu as artes.
Ainda assim, os pintores Ogata Korin e Ogata Kenzan procuraram revitalizar
a pintura Yamato-e e sobretudo Ike Yosa Buson, Uragami Gyokudo Taiga
foram os melhores representantes da escola sulina Nanga.
Ike Yosa Buson, Uragami Gyokudo Taiga e Rosetsu, pintores das escolas
Maruyama, conhecida também como Shijo, pregaram o estudo da natureza.
Os artistas da quarta geração Kano, com ateliês em Quioto, e os Tosa,
em Sakai, aproximaram seus estilos. O mestre da época foi Tosa Mitsuoki,
que se inspirou em lembranças da Idade Média e assuntos chineses.
A mais importante manifestação artística do período, porém, foi o
estilo Ukiyo-e, cujo nome tem origem num provérbio
japonês do Século 18 ("o mundo inspira desgosto").
Criado por Iwasa Matabei no final do Século 17 e imortalizado sobretudo
através da estampa, o Ukiyo-e tornou-se muito popular no Ocidente
e teve profunda influência sobre os impressionistas franceses.
O Ukiyo-e não foi uma escola como Tosa ou Kano, mas um movimento artístico
que veio da época Momoyama e representou para a nova burguesia festas,
cenas galantes e do teatro profano. Seu tema principal, porém, é a
bijin-ga (mulher bonita).
Inicialmente limitada ao contraste entre preto e branco, a técnica
foi aperfeiçoada e recebeu, a princípio, uma tonalidade alaranjada
(tan-e), depois efeitos de vermelho, laranja, amarelo e púrpura (urushi-e).
Mais tarde, desenvolveram-se os processos benizuri-e (vermelho e verde)
e nishiki-e (dez e mais tonalidades).
Entre os maiores artistas no gênero sobressaíram Kyionobu, Suzuki
Harunobu, Koriyusai, Kiyonaga, Sunsho e Sharaku (os dois últimos famosos
por seus relatos de atores), Kitagawa Utamaro (figuras femininas),
Katsushika Hokusai e Ando Hiroshige (paisagens) e Igusa Kuniyoshi
(figuras humanas).
Período
Meiji (1868-1912)
A partir da dinastia Meiji, o Japão abriu suas portas ao Ocidente
e passou a assimilar outras culturas contemporâneas, em processo contínuo
que gerou uma simbiose muito particular entre tradição e modernidade.
No começo do período Meiji houve até mesmo repressão às artes tradicionais:
a ação de Ernest Fenollosa, erudito americano, e os esforços do crítico
de arte Okakura Kakuzo (ou Tenshin), conseguiram que governo e artistas
tomassem providências para revitalizar o espírito da criação e preservar
o patrimônio cultural do país.
Já no Século 20, sob a liderança de Yamamoto Kanae, um grupo de jovens
gravadores treinados no Ocidente revigorou as artes gráficas japonesas.
O abstracionismo informal de Kosaka Gajin influenciou decisivamente
a pintura ocidental, através dos Estados Unidos.
Entre os primeiros grandes inovadores, que neste século deram a pinturas
japonesas fama internacional, estão artistas como Yukey Tejima e Yuchi
Inuie. Artistas japoneses obtiveram prêmios internacionais, como Maeda,
Yoshisighe Saito e Tadamaro Nogami.
Outras
artes
A cerâmica, que já existia desde a época de Nara, teve seu apogeu
entre os séculos 17 e 19.
Quanto aos metais, no fim do período Muromachi, já havia bules de
ferro do ateliê Ashiya para a cerimônia do chá. No Século 17, foram
criadas peças rebuscadas de bronze dourado ou esmaltado para os palácios
Momoyama e para os mausoléus dos Tokugawa.
O uso da laca foi estritamente subordinado à utilidade do objeto.
Do período Muromachi existem caixas de remédio em lacre preto e ouro
fosco. As máscaras de laca para o teatro nô, muito populares no início
do Século 15, praticamente desapareceram.
Fonte: Encyclopaedia Britannica
do Brasil.
Periodo
Edo (Ukiyo-e)
(1600-circa a 1867)
Ukiyo-e (pronuncia-se «ukioei») foi um estilo popular de arte no Japão
durante o período Edo, barata e trazendo cenas da vida cotidiana (Edo,
a nova capital do Japão, mais tarde passou a chamar-se Tóquio).
Esse nome (Ukiyo-e) pode ser traduzido como «mundo flutuante», um
nome irônico dado ao planeta terra, que os budistas chamavam de «mundo
do desgosto».
Ukiyo, em verdade, era o nome dado ao estilo de vida japonês nos centros
urbanos, com seus figurinos, a alta sociedade e os prazeres da carte.
O Ukiyo-e documenta essa era.
A arte Ukiyo-e é especialmente conhecida por impressões em blocos
de madeira. Na medida em que o Japão começou a se abrir para o ocidente,
após 1867, essas gravuras passaram a ser conhecidas, exercendo sua
influência na arte européia, especialmente na França.
A essa releitura da arte japonesa, deu-se o nome de «japonismo». Entre
os pintores influenciados pelo japonismo, pode-se citar Toulouse-Lautrec,
Edgar Degas, Vincent van Gogh, James McNeill Whistler, bem como os
artistas gráficos conhecidos por «Les Nabis».
Considera-se como formador da escola Ukiyo-e o artista do Século 17
Hishikawa Moronobu. Entre outros nomes que se tornaram famosos, pode-se
citar Hiroshige, Hokusai, Utamaro e Sharaku.
Fonte: Artcyclopedia.