Doa-se
um coração, ou mesmo troca-se por outro que tenha um
pouco mais de juízo. Que seja fiel ao seu utente. Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser
que o abriga. Um coração que não seja tão
inconseqüente, tão reacionário, tão pueril. Doa-se
um coração cego, surdo e mudo, mas que incomoda um
bocado, principalmente a maridos, noivos, namorados ou
amantes possessivos, furiosos, incompetentes e inseguros.
Doa-se um verdadeiro
caçador de aventuras que ainda não foi adotado,
provavelmente, por se recusar a cultivar ares selvagens, fantasias
virtuais extremadas ou realidades racionais; por não querer perder o estilo, por viver
apegado aos olhos oblíquos e sobrancelhas bem-feitas, da Angel que se
foi, como bruma do passado ao vento sussurrante.
Doa-se
um velho coração excêntrico e inconveniente, que convence seu
usuário a publicar seus segredos, tendo, ainda, a petulância
de se aventurar como poeta, arriscando-se ao vilipêndio por ser,
quase sempre, protervo e malcriado.