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Efeitos do aquecimento da
Terra são irreversíveis nos próximos 100
anos
Relatório conclui que o homem é responsável
pelo efeito estufa e prevê conseqüências
rápidas e violentas. Veja
especial
Cristina Amorim e Andrei Netto
O aquecimento global e as mudanças climáticas
chegaram a uma velocidade e com uma violência
muito maiores do que cientistas e
governantes esperavam. A situação só vai
piorar, mesmo com medidas de contenção
tomadas imediatamente. Hoje, uma variação
fracionária na temperatura é suficiente
para desencadear uma série de eventos climáticos
extremos, como tempestades, furacões,
inundações e secas - até 2100 a Terra
pode esquentar 3°C. E a culpa é do homem,
de maneira inequívoca.
Essa seqüência de observações está no
novo relatório do Painel Intergovernamental
de Mudanças Climáticas (IPCC), o mais
respeitado documento sobre o tema no mundo.
As conclusões, um endosso aos alertas mais
impactantes feitos por ambientalistas nos últimos
30 anos, são produto de estudos de 2,5 mil
cientistas de 130 países com os dados mais
precisos disponíveis.
O relatório foi lançado ontem, em Paris,
após cientistas e delegados nacionais
definirem o texto final. A expectativa é
que a opinião pública pressione todas as
nações a adotarem o Protocolo de Kyoto e a
não ficarem dependentes de um modelo econômico
que promova o efeito estufa. O fenômeno é
marcado pela concentração de gases na
atmosfera que impedem a fuga do calor para o
espaço. O planeta esquenta, e o delicado
sistema climático terrestre se
desequilibra.
O IPCC mostra claramente que o aquecimento
atual não é parte do ciclo natural do
planeta, mas conseqüência de um estilo de
vida iniciado na Revolução Industrial e
ainda praticado pelos 6,5 bilhões de
habitantes. Por estilo, entendam-se dependência
de combustíveis fósseis para gerar
energia, em especial petróleo e carvão, e
desmatamento em larga escala.
A concentração dos três principais
gases-estufa - dióxido de carbono (CO2),
metano (CH4) e óxido nítrico (N2O) - só
cresceu desde o fim do século 18. Em 2005,
havia mais CO2 no ar (379 partes por milhão)
do que a média dos últimos 650 mil anos. O
mesmo vale para os outros dois.
Pior: entre 1995 e 2005, o índice de
concentração de CO2, gás responsável por
75% do efeito estufa, cresceu a 1,9 ppm por
ano, média superior ao aumento de 1,4 ppm
verificado entre 1960 e 2005. Por ano, são
lançados no ar 7,2 bilhões de toneladas de
carbono. Os países continuaram a emitir CO2
mesmo após o problema ser detectado e
criado o Protocolo de Kyoto. Se antes o
acordo para reduzir a emissão de
gases-estufa parecia inócuo frente à
grandeza da questão, agora não passa de
carta de intenções.
DO KATRINA AO CATARINA
O efeito prático mais imediato é o
aquecimento global. A temperatura do ar e
dos oceanos vem subindo. Onze dos últimos
12 anos estão entre os mais quentes desde
1850, quando a temperatura passou a ser
medida. Em 100 anos, a elevação foi de
0,74°C - num passo acelerado nos últimos
50 anos.
Não é pouco. Menos de 1°C foi suficiente
para desequilibrar o sistema climático:
Katrina, que arrasou Nova Orleans; Catarina,
o primeiro furacão brasileiro; ondas de
calor no Hemisfério Norte; secas
prolongadas na Ásia; monções
enfraquecidas; mais pestes; plantas que
entendem ser primavera no inverno e
florescem. Tudo isso influenciado, em algum
grau, pelo aquecimento.
A elevação da temperatura trouxe também o
degelo de lençóis glaciais e a redução
da cobertura de neve. Com isso, o nível dos
oceanos subiu 3,3 milímetros por ano entre
1993 e 2006. No século 20, a elevação foi
de 0,17 metro.
PONTO SEM RETORNO
Mesmo que a emissão dos gases-estufa
pudesse ser controlada hoje, as alterações
continuariam por centenas de anos. Isso
porque o carbono tem um ciclo de permanência
na atmosfera de 100 anos. O efeito é mais
devastador do que o próprio IPCC imaginava.
O gelo diminuirá no Ártico e talvez na Antártida,
alterará a salinidade da água e aumentará
o volume de precipitações. A conjunção
de fatores vai reordenar ventos e ondas.
Haverá chuvas torrenciais, furacões mais
agressivos, ondas de calor mais longas. Em
alguns anos, o extremo será comum.
A questão é como e quanto a humanidade
conseguirá minimizar os danos. Em cenários
futuros, o grau de investimento em
tecnologias limpas e redução de uso de
combustíveis fósseis têm impacto direto
no nível do problema. As projeções do
IPCC se baseiam em seis modelos complexos,
programas de computador alimentados com
dados coletados por anos.
O painel prevê que, até 2100, as
temperaturas subam 0,2°C por década, mais
do que nos anos passados. A melhor
estimativa é de 1,8°C a 4°C até 2100,
com 3°C a mais considerado provável. Os
oceanos subirão entre 18 e 58 cm, ameaçando
ilhas e cidades costeiras. Alguns dizem que
o perigo é maior: elevação de até 1,4
metro no fim do século.
O IPCC prepara para os próximos meses
outros dois volumes deste mesmo relatório -
sobre adaptação e sobre mitigação. Até
o fim do ano, quando ocorre a próxima
conferência da ONU sobre clima, os países
terão de apresentar propostas mais efetivas
de controle do efeito estufa do que Kyoto.
“O dia 2 de fevereiro de 2007 será
lembrado como o dia em que o ponto de
interrogação sobre a responsabilidade do
homem foi removido”, disse o diretor do
Programa da ONU para Meio Ambiente, Achim
Steiner.
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