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Outros Pensadores do Século XVII
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Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
HISTÓRIA DA FILOSOFIA MODERNA

Primeira Unidade - SÉCULO XVII:

  • Outros Autores do Período;
Por Antônio Rogério da Silva

O ceticismo que René Descartes procurou levar ao extremo como um ardil para encontrar uma certeza que ninguém pudesse refutar, teve em Michel de Montaigne (1533 - 1592) seu principal representante na França da passagem do cinquecento para o século XVII. Nascido em Bordeaux, Montaigne seguiu a carreira política até sua aposentadoria em 1571, o que não o impediu de assumir o cargo de presidente da câmara de sua cidade dez anos depois, logo em seguida ao lançamento dos Ensaios, em 1580, obra que lhe garantiu reputação fora de seu país e na geração de Descartes. Essa coletânea de textos inaugurou uma nova forma filosófica de apresentação das idéias, o ensaio. O estilo ensaista em pouco tempo irá substituir, sobretudo na Inglaterra, as extensas discussões postas nos tratados, gênero que predominou até o século XVIII.

Dos ensaios de Montaigne, destaca-se a longa Apologia de Raymond Sebond, onde é feita a defesa dos argumentos teológicos deste médico espanhol sob a objeção de que a razão, em última instância, na investigação de assuntos religiosos, deve ser restringida e ceder espaço à fé. Nessa apologia, há o desdobramento de uma série de observações céticas sobre o poder da razão. Montaigne adota explicitamente o ponto de vista pirrônico - foi Pirro de Élida (365-275 a.C.) o fundador da escola cética -, da suspensão do do juízo (epoche) sintetizado na expressão "que sei, eu?" (1).

O homem não pode impedir que os sentidos não sejam os soberanos mestres dos conhecimentos que possui; mas estes não oferecem certeza e sempre podem induzi-lo em erro. (...)
(...) [N]ós mesmos e os objetos não temos existência constante. Nós, nosso julgamento, e todas as coisas mortais, seguimos uma corrente que nos leva sem cessar de volta ao ponto inicial. De sorte que nada de certo se pode estabelecer entre nós mesmos e o que se situa fora de nós, estando tanto o juiz como o julgado em perpétua transformação e movimento.
Nada conheceremos de nosso ser, porque tudo o que participa da natureza humana está sempre nascendo ou morrendo, em condições que só dão de nós uma aparência mal definida e obscura; e se procuramos saber o que somos na realidade, é como se quiséssemos segurar a água; quanto mais apertamos o que é fluido, tanto mais deixamos escapar o que pegamos. Por isso, pelo fato de toda coisa estar sujeita à transformação, a razão nada pode apreender na sua busca do que realmente subsiste, pois tudo, ou nasce para a existência e não está inteiramente formado, ou começa a morrer antes de nascer (MONTAIGNE, M. E. Ensaios, liv. II, cap. XII, pp. 277 e 281-282).

Além da influência de Pirro, percebe-se claramente a leitura de Heráclito de Éfeso (cc. 480 a.C.). Contudo, embora Montaigne tenha parecido ser muito convincente aos ouvidos dos contemporâneos de Descartes - Mersenne e Gassendi, são céticos notáveis -, não conseguiu convencer a este em sua obstinada busca pela certeza. Blaise Pascal (1623-1662), matemático e físico, cujo porte de sua obra era capaz de rivalizar com a obra de seu contemporâneo e conterrâneo Descartes, foi outro autor importante a aderir à crítica aos extremos da razão e do ceticismo, sem, no entanto, deixar de ter uma forte dedicação à religião cristã.

Máquina Aritmética de PascalTal como Descartes, Pascal tinha uma saúde debilitada, sofrendo constantemente de dores de cabeça, insônia, e indigestão. Apesar disso, foi capaz de em sua breve existência apresentar uma contribuição significativa à matemática e à física, bem como à filosofia, de um modo geral. Aos 16 anos escreveu um livro sobre as secções cônicas, desenvolvendo o assunto muito além do estado em que se encontrava, desde quando o matemático grego Apolônio (cc. 261-190 a.C.) publicara seu tratado sobre o assunto. Já nessa época, começou a frequentar as conferências semanais promovidas por Mersenne, onde se reuniam Descartes, Hobbes e Pierre de Fermat, entre outros. Ao tomar conhecimento do texto de Pascal, Descartes duvidou que pudesse ter sido escrito por um adolescente. Três anos depois esse jovem surpreenderia mais ainda seus contemporâneos ao inventar a máquina aritmética, capaz de somar e subtrair. Em 1646, Pascal repete as experiências com o vácuo e a pressão atmosférica que permitiram a invenção do barômetro pelo físico italiano Evangelista Torrecelli (1608-1647), três anos antes. Nessa época também se converte ao jansenismo, movimento criado, em 1640, pelo holandês Cornélio Oto Jansênio (1585-1638) que pregava ser a graça da salvação uma predestinação divina e a incompatibilidade entre a vida cristã e a vida política e social. O jansenismo já havia sido condenado como heresia por bula papal de 1643 que foi confirmada duas vezes em 1656. Nesse ínterim, estabelece Pascal correspondência com Fermat, a fim de encontra uma solução para o problema dos pontos apresentado pelo Cavaleiro de Méré (Antoine Gombaud, 1607-1684), um inveterado jogador. O problema dos pontos surge quando um jogo de dados é interrompido antes do final, e cujo dinheiro das apostas tem de ser dividido justamente entre os jogadores. Pascal e Fermat propuseram que o montante apostado deveria ser repartido de acordo com as probabilidades iguais de ganho de cada jogador, caso o jogo tivesse continuado até o final e com isso lançaram as bases da Teoria das Probabilidades, em 1654.

A condenação definitiva do jansenismo assusta Pascal, que já havia renunciado à vida em sociedade e agora se via obrigado a deixar a militância religiosa depois que suas As Provinciais (1655 e 1657) - uma defesa de seu amigo jansenista Antoine Arnauld (1612-1694) que tivera seu doutoramento condenado em Sorbonne - terem sido incluídas no index de livros proibidos da Igreja. No restante de sua vida Pascal dedicou-se a algumas experiências científicas e a escrever seus Pensamentos (publicação póstuma de 1670), onde combate o ceticismo religioso de Montaigne e o racionalismo científico de Descartes(2), enquanto defende os fundamentos filosóficos e teológicos do cristianismo.

Essa guerra interior da razão contra as paixões fez que os que quiseram ter a paz se dividissem em duas seitas: uns quiseram renunciar às paixões e tornar-se deuses; outros quiseram renunciar à razão e tornar-se brutos (...) Nem uns nem outros, porém, o conseguiram; e a razão subsiste e acusa a baixeza e a injustiça das paixões e perturba o repouso dos que a elas se abandonam; e as paixões estão sempre vivas nos que querem renunciar a elas.
(...)Todas essas contrariedades, que pareciam afastar-me do conhecimento da religião, foram o que mais depressa me conduziu à verdadeira religião. (PASCAL, Bl. Pensamentos, art. VI, §§ 413 e 424.

No último ano de sua existência, Pascal lançou um serviço de transporte coletivo por carruagens, oferecendo os lucros obtidos às instituições de caridade.

Racionalismo e Empirismo, na Ética e na Política

O receio de Descartes em aprofundar as consequências morais e políticas do racionalismo que inaugurara não eram apenas fruto de uma excessiva precaução. Benedito de Espinosa, ainda que fosse judeu, teve de enfrentar a ira de seus correligionários, mesmo tendo nascido em uma ilustre família judaica. Entretanto, a formação religiosa livre que a cidade de Amsterdam - onde os Espinosa se refugiaram da perseguição sofrida na península ibérica - permitia às pessoas se aproximarem de movimentos dissidentes e de correntes científicas e filosóficas modernas. Logo Espinosa afastou-se da ortodoxia religiosa e se interessou pelo racionalismo de Descartes. Por conta disso, em 1656, foi ex-comungado da sinagoga e amaldiçoado por defender heresias. Tudo isso antes de ter iniciado sua carreira de escritor.

No período em que esteve exilado de sua cidade natal - durante cinco anos esteve hospedado no sótão de uma pensão, à beira da estrada que leva a Outerdek, fora de Amsterdam -, lançou um Pequeno Tratado sobre Deus, o Homem e o seu Bem-Estar. Depois de retornar a Amsterdam, resolve morar no interior da Holanda, em 1660, quando começa a sistematizar o Renati Descartes Principiorum Philosophiae (1663) com a exposição geométrica do cartesianismo. Novos problemas surgem após a publicação do Tractatus Theologicum-Politicus, de 1670, que por defender a paz e a tolerância, sofre a condenação da Igreja. Espinosa chegou mesmo a ser suspeito de espionagem depois de ter participado de uma missão diplomática junto ao exército francês, em 1672. Decide então afastar-se das atividades públicas, preferindo viver do ofício de polidor de lentes, enquanto escrevia a sua Ética (1677). Entretanto, mesmo depois de concluída, prefere deixar que a publicação seja póstuma, a fim de evitar mais encrencas. Sua última obra completa publicada em vida foi Tractatus de Intellectus Emendatione, também de 1677. Um outro Tratado Político ficou inacabado.

Embora Espinosa tenha procurado seguir as indicações de Descartes para construir um sistema de proposições claras e distintas, sua Ética traz um importante desvio conceitual. Ao invés de manter a separação entre corpo e alma (dualismo cartesiano), Espinosa imagina Deus como única substância infinita possível de existir na natureza, sendo a coisa pensante e a extensa atributos ou afecções dessa mesma essência (concepção monista do mundo).

Como Deus é o ente absolutamente infinito do qual não pode ser negado qualquer atributo que exprima uma essência da substância, segue-se que existe necessariamente. Se existisse qualquer substância fora de Deus, deveria ser explicada por algum atributo de Deus, e assim existiriam duas substâncias do mesmo atributo, o que é absurdo; por conseguinte, não pode ser dada, nem, consequentemente, tampouco concebida qualquer substância fora de Deus. Com efeito, se pudesse ser concebida, ela deveria necessariamente sê-lo como existente; ora, isto é absurdo; por consequência, fora de Deus não pode ser dada nem concebida qualquer substância.
Daqui resulta clarissimamente: 1 - Que Deus é único, isto é que na Natureza somente existe uma única substância, e que ela é absolutamente infinita (...).
Resulta em segundo lugar: Que a coisa extensa e a coisa pensante são ou atributos de Deus, ou afecções dos atributos de Deus (ESPINOSA, B. Ética, parte I, prop. XIV, pp. 24-25).

Criatura e criador confundem-se em uma mesma substância. Ainda assim, há espaço para a liberdade da criatura potencialmente racional, entendida apenas como inteligência capaz de remediar as afecções. Tais remédios são aprendidos pelo conhecimento de si que leva à dedução da beatitude e da liberdade ou felicidade pelo amor a Deus, uma vez que só este é livre por existir necessariamente e determinar suas próprias ações (3). Desse rígido sistema racionalista, Espinosa extraiu a teoria política que considerava adequada e que fora exposta no final de sua vida.

Por direito natural, Espinosa entendia a capacidade a qual cada um poderia alcançar. Entre os homens, o direito seria determinado pela capacidade da razão. Um homem livre não pode, portanto, deixar de usar a razão para seguir o bem. Porém, como essa capacidade nem sempre é usada plenamente, o juízo pode então ser submetido e enganado pela vontade de outro. Para evitar essa subordinação ao outro em particular, o homem busca a regra de vida em comum, no Estado civil. Na cidade, ninguém depende de si mesmo, nem "tem o direito de decidir o que é justo, o que é injusto, o que é moral ou imoral, mas pelo contrário, visto que o corpo do Estado deve ser conduzido (...) por um pensamento único e que, consequentemente, a vontade da Cidade deve ser tida como a vontade de todos, é o que a Cidade decreta ser justo e bom, o que cada um deve aceitar como tal" (4). Seja no estado natural, seja na Cidade, a razão determinará o poder e a independência. O pensamento único só pode ser atingindo, então, se todos exercerem o que lhe é ensinado com sendo útil, pela própria razão. Não obstante, em relação à religião, ao fazer uso da razão, a alma só depende de si mesma e não do soberano, já que o conhecimento de Deus não está submetido a ninguém.

(...) Cada um portanto, esteja onde estiver, pode honrar Deus com uma verdadeira religião e procurar a sua própria salvação, o que é função do simples particular. Quanto ao cuidado de propagar a Religião, é preciso entregá-lo a Deus, ou ao soberano, a quem unicamente cabe ocupar-se da coisa pública (ESPINOSA, B. Tratado Político, cap. III, § 10, p. 37).

Ao contrário de Hobbes, onde a função da razão é buscar na cidade um refúgio seguro do estado de natureza, em Espinosa a deficiência da capacidade racional poder encontrar por si mesma os meios de subsistência é que obriga os homens a viver em sociedade, a fim de que possam desenvolvê-la em tranquilidade. Diferente do primeiro, neste caso os homens não são iguais, nem livres. Quem tivesse a capacidade de exercer plenamente a razão não teria necessidade do convívio social, por ser auto-suficiente e verdadeiramente livre. Em suma, essa era a concepção racionalista que Espinosa tinha da religião e vida em sociedade. Morreu de tuberculose, em 1677, aos 45 anos de idade.

Uma concepção empirista e anti-racionalista do Estado, mas diferente do materialismo de Hobbes será apresentada pelo inglês John Locke (1632-1704). Locke nasceu no dia 29 de agosto, em Wrington, de uma família de comerciantes da cidade de Bristol. Durante a Revolução Puritana, seu pai se alistara ao lado dos puritanos, no exército comandado por Cromwell, no final da infância do pequeno Locke. Em 1652, este termina a educação básica e ingressa no College de Oxford, onde estuda medicina. É mais um a decepcionar-se com Aristóteles e a Escolástica. Encanta-se, então, por Descartes que o livra do obscurantismo medieval. Em 1666, encontra-se com Anthony Asheley Cooper (1621-1683), de quem viria a ser médico particular. Dois anos depois, Locke dirigiu uma operação em Cooper, futuro conde de Shaftesbury (1672), para extração de um tumor do fígado e implantação de um tubo de prata que o ligaria ao estômago. O sucesso da operação rendeu-lhe o reconhecimento definitivo do conde que, além do ofício de médico o contrata para funções de assessor. Por conta disso, Locke participou da elaboração de uma constituição para a colônia de Carolina, na América. Entra em contato com os principais intelectuais e políticos da Inglaterra. Começa a escrever nessa época seu trabalho mais importante, o Ensaio sobre o Entendimento Humano, que será publicado duas décadas depois. Em 1675, Carlos II tenta assumir poderes absolutos e destitui Lorde Shaftesbury, que representava os interesses do Parlamento. Nos próximos três anos, Locke vive na França, onde frequenta as palestras de intelecutais, em Paris e Montpellier. De volta à Inglaterra, em 1679, Locke será obrigado a fugir para Holanda em 1683, depois que seu patrono fora acusado de chefiar uma revolta contra os Stuart, em 1681. Locke só voltaria a seu país quando a Revolução Gloriosa de 1688 dá a vitória definitiva ao Parlamento que implanta a monarquia parlamentarista, sob a coroa de Guilherme de Orange (1650-1702), que tem seus poderes limitados. Publica, então, suas principais obras: Carta sobre a Tolerância (1689), Dois Ensaios sobre o Governo Civil (1689-1690) e Ensaios sobre o Entendimento Humano (1690).

A admiração que Locke tinha por Descartes não lhe impediu de propor uma teoria sobre o conhecimento onde não havia lugar para as idéias inatas. Todo conhecimento humano seria adquirido pela observação e experiência através dos sentidos, a partir do instante em que se começa a ter percepção. A mente seria, portanto, um papel em branco, cujas impressões adquiridas como idéias particulares vão sendo gradualmente transformadas em gerais por meio da abstração. Até mesmo a idéia de Deus não seria possível sem que a noção de lei e obediência fosse desenvolvida pela cultura, disciplina e aperfeiçoamento das artes e ciências (5).

Para chegar a essas conclusões, Locke utilizou como método três etapas de investigação. Primeiro buscou a origem de cada idéia - objeto de pensamento - e como foi obtida; depois, aferiu o grau de conhecimento que se tem dessas idéias, sua certeza e alcance; por fim, as razões que são fornecidas para que se aceite algo como verdadeiro ou não. Destarte, além de defender um empirirismo epistemológico, pôde também aplicar seu método à política e propor uma fundação para sociedade que permitisse a constituição de um governo liberal, contra as teses absolutistas de Sir Robert Filmer (1588-1653), que, no livro Patriarca (1680) fundamentava a submissão ao soberano com base na autoridade concedida por Deus a Adão!

Tal como Hobbes, Locke parte da imagem de um estado da natureza onde todos são livres e iguais, mas não há um juiz com autoridade comum a todos. Nesta situação original todos têm direito comum às coisas de que necessitam, exceto à pessoa do outro que é uma propriedade particular. Todo produto do trabalho do corpo de um indivíduo passa também a ser sua propriedade, tirada do estado comum de natureza. Não obstante, o consequente aumento da população e a escassez de recursos levam à limitação dos territórios e das propriedades particulares por meio de pactos e acordos que reconheçam essa posse. A função principal da comunidade, portanto, seria a preservação da propriedade, evitando as disputas sobre os bens conquistados pelo trabalho. Assim, nem mesmo o poder supremo poderia tirar a propriedade de alguém sem o seu consentimento. Para tanto, o poder legislativo limitaria suas ações executivas baseando-se nas seguintes restrições da capacidade de propor leis:

Tais são as obrigações que os encargos a eles conferidos pela sociedade e pela lei de Deus e da natureza atribuíram ao poder legislativo de qualquer comunidade, em todas as formas de governo:

  1. Têm de governar por meio de leis estabelecidas e promulgadas, que não poderão variar em casos particulares, instituindo a mesma regra para ricos e pobres, para favoritos na corte ou camponeses no arado;
  2. Tais leis não devem ser destinadas a qualquer outro fim senão o bem do povo;
  3. Não devem lançar impostos sobre a propriedade sem o consentimento deste, dado diretamente ou por intermédio dos seus deputados (...);
  4. O legislativo não deve nem pode transferir o poder de elaborar leis a quem quer que seja, ou colocá-lo em qualquer outro lugar que não o indicado pelo povo (LOCKE, J. Segundo Tratado sobre o Governo, cap. XI, § 142, p. 90).

Enquanto, Hobbes fundou sua cidade com os atributos mínimos de mantenção da paz e cumprimento dos contratos, com o artifício do direito à propriedade gerado pelo trabalho de uma homem dono de si, Locke sobrecarregou o Estado liberal com deveres e limitações que esbarravam nos domínios do indivíduo. Embora sua resposta à forma de absolutismo pregado por Filmer tenha sido eficaz, ao negar origem divina à formação da sociedade, o poder absoluto do Leviatã hobbesiano continuava firme, pois ainda cabia à Cidade manter os contrato e a paz entre os cidadãos, ao livrar o homem do estado de natureza. Só que enquanto para Hobbes todo poder estaria concentrado na mão de um soberano, em Locke este poder seria repartido entre o executivo e o parlamento, que no final era responsável pelas leis que regeriam a vida em sociedade. Não obstante, os interesses emergentes da burguesia estavam do lado de Locke, e os fundamentos do Estado liberal foram aceitos de pronto, apesar de sua fragilidade argumentativa, uma vez que o governo misto que propunha, de fato, concentrava a soberania em uma assembléia democrática.

Isaac Newton

Locke viveu a última década de sua vida na residência do casal Francis e Damaris Masham (1658-1708), que era muito sua amiga, em Essex. Lá, eles recebiam a visita constante de amigos, dos quais se destaca Isaac Newton (1642-1727). Poucos autores de fora da filosofia influenciaram tanto os filósofos quanto Sir Isaac Newton. Só indiretamente pode-se dizer que prestou alguma contribuição à metafísica, à lógica ou à ética. No entanto, sua grande contribuição filosófica, de fato, foi mostrar o longo alcance que o conhecimento sistemático pode ter quando une experiência e matemática. Nesse sentido foi Newton um paradigma para as ciências modernas, assim como foi Aristóteles para os medievais e como é Albert Einstein (1879-1955) para os contemporâneos.

Para as ciências, de um modo geral, e para a física, em particular, ou filosofia da natureza como se dizia até o positivismo propor a especialização de cada área do conhecimento, no século XIX, Newton contribuiu decisivamente inventando o cálculo diferencial, descobrindo as leis da mecânica e formulando toda uma teoria sobre a gravitação universal que prevaleceria até Einstein. Newton nasceu em 1642, em Woolsthorpe, na região de Lincolshire, Inglaterra. Aos sete anos teve de largar a escola para ajudar sua mãe a cuidar de sua propriedade rural, em Woolsthorpe. Aos 18 anos, por insistência de um tio, ingressa no Trinity College, em Cambridge. Cinco anos mais tarde, obtém o bacharelado, no momento em que a peste atinge Londres, fechando a universidade. Durante o período de 1665 a 1666, refugia-se na propriedade rural da família. Nessa época faz suas primeiras descobertas matemáticas e tem a primeira intuição sobre a força gravitacional ao observar a queda de uma maça da macieira; também faz experimentos óticos sobre a refração da luz em um prisma. Em 1667, volta a Cambridge, onde consegue seu doutorado no ano seguinte. Em 1669, torna-se catedrático em matemática, permanecendo na universidade pelos próximos 30 anos. Entra para a Royal Society, em 1672, onde relata sua experiência com a luz, e se envolve em uma polêmica com Robert Hooke (1635-1703), secretário sda sociedade, que já havia feito descobertas semelhantes. No ano seguinte, outra troca de acusações sobre plágio ocorre com a descoberta do cálculo, dessa vez com Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716). Newton admite ter desenvolvido seu cálculo a partir do método para estabelecer tangentes de Fermat. Mas logo fica demonstrado que tanto Leibniz, como Newton trabalharam de modo independente. Sua principal obra, os revolucionários Philosophiae Naturalis Principia Mathematica tem sua primeira edição lançada em 1687. Nela estão sistematizadas todas suas descobertas passadas, em torno das leis da mecânica e da gravitação universal, sustentados sobre a noção de tempo e espaço absolutos.

(...) Com efeito, a dificuldade precípua da filosofia parece consistir em que se investiguem, a partir dos fenômenos dos movimentos, as forças da natureza, demonstrando-se a seguir, por meio dessas forças, os outros fenômenos. A isso se destinam as proposições gerais do primeiro e segundo livros. No terceiro, porém, dou um exemplo disso por meio da explicação do sistema mundano. Aí, de fato, pelas proposições matemáticas demonstradas nos livros anteriores, derivam-se dos fenômenos celestes as forças de gravidade pelas quais os corpos tendem para o sol e os vários planetas. Depois deduzo dessas forças, por proposições também matemáticas, o movimento dos planetas, dos cometas, da lua e do mar. Oxalá pudéssemos também derivar os outros fenômenos da natureza dos princípios mecânicos, por meio do mesmo gênero de argumentos, porque muitas razões me levam a suspeitar que todos esses fenômenos podem depender de certas forças pelas quais as partículas dos corpos, por causas ainda desconhecidas, ou se impelem mutuamente, juntando-se segundo figuras regulares, ou são repelidas e retrocedem umas em relação às outras. Ignorando essas forças, os filósofos tentaram em vão até agora a pesquisa da natureza. Espero, no entanto, que os princípios aqui estabelecidos tragam alguma luz sobre esse ponto ou sobre algum método melhor de filosofar (NEWTON, I Princípios Matemáticos da Filosofia Natural, prefácio, p. 4).

Em 1704, publica na Óptica uma explicação clara sobre a maneira que aliou o método dedutivo do racionalismo cartesiano e da matemática ao método indutivo baconiano de observação empírica.

Como na matemática, assim também na filosofia natural, a investigação de coisas difíceis pelo método de análise deve sempre preceder o método de composição. Esta análise consiste em fazer experimentos e observações, e em traçar conclusões gerais deles por indução, não se admitindo nenhuma objeção às conclusões, senão aquelas que são tomadas dos experimentos, ou certas outras verdades. Pois as hipóteses não devem ser levadas em conta em filosofia experimental. E apesar de que a argumentação de experimentos e observações por indução não seja nenhuma demonstração de conclusões gerais, ainda assim, é a melhor maneira de argumentação que a natureza das coisas admite, e pode ser considerada mais forte dependendo da maior generalidade da indução. E se nenhuma exceção decorre dos fenômenos, geralmente a conclusão pode ser formulada. Mas se em qualquer tempo posterior, qualquer exceção decorrer dos experimentos, a conclusão pode então ser formulada com tais exceções que decorrem deles. Por essa maneira de análise podemos proceder de compostos a ingredientes, de movimentos à força que os produzem; e, em geral, dos efeitos a suas causas, e de causas particulares a causas mais gerais, até que o argumento termine no mais geral. Este é o método de análise; e a síntese consiste em assumir as causas descobertas e estabelecidas como princípios, e por elas explicar os fenômenos que procedem delas, e provar as explicações (NEWTON, I Óptica, liv. III, parte I, p. 56-57).

Newton era um físico teórico que não esquecia a importância de se fazer experiências. Por pensar assim, realizou descobertas que nenhum outro homem havia feito antes dele, merecendo o título de cavaleiro, dado pela rainha em 1705. Nesse sentido foi considerado o lançador da idade da razão, ou movimento iluminista. Contudo, nem mesmo Newton conseguiu impedir que seu lado místico florescesse no final de sua vida em trabalhos que consumiram mais de um milhão de palavras reunidas nas Observações sobre a Profecia de Daniel e do Apocalipse de São João, publicadas postumamente em 1733.

Notas

1. MONTAIGNE, M. E. Ensaios; liv. II, cap. XII, p. 248.
2. Veja PASCAL, Bl. Pensamentos; art. II, §§ 63 a 66 e 76 a 79.
3. Veja ESPINOSA, B. Ética, parte V, prop. XXXVI - XLII, pp. 230 e ss.
4. ESPINOSA, B. Tratado Político, cap. III, § 5, p. 32.
5. LOCKE, J. Ensaio acerca do Entendimento, liv. I, cap. I, §§ 1 e 15, e cap. III, § 8.

Bibliografia

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