A organização do crime organizado
Fares Alberto Abdalla

Está mais do que claro: o crime organizado está cada vez mais organizado! Hoje, pode-se falar que virou o negócio de verdadeiras empresas (criminal business), com dimensões assustadoras, resultantes de uma série de fatores como: falhas do sistema jurídico, impotência policial, incompetência política e, principalmente, a falta de interesse do legislativo.


Convivemos com novas modalidades criminosas, porém dentro dos mesmos aspectos: roubos, extorsões, furtos, seqüestros e muitos outros, mudando apenas as formas de atuação, ou seja, o “modus operandi”. A cada operação criminosa realizada com êxito, outras quadrilhas seguem os mesmos estratagemas e em seqüências rápidas, até que a máquina policial e da segurança privada crie antídotos e sistemas preventivos de contenção. Porém, até que modalidades criminosas tornem-se impraticáveis ou de risco para os criminosos, vários casos já aconteceram e outras modalidades vão sendo criadas sucessivamente.
Estamos sempre num lance retardado em relação ao inimigo (como num jogo de xadrez). Muitas vezes isso é resultado do comodismo já que, muitas vezes, esperamos acontecer para poder combater o mal. A falta de um sistema de inteligência organizado e atuante proporciona a falta de informações, que gera a falta de medidas de prevenção, tanto por parte dos sistemas policiais como da segurança privada.
Já dizia Sun Tzu: “Quem tem a informação detém o poder!”. Se não temos informações, devemos prever o acontecimento e suas respostas imediatas, através da simples pergunta: “e se acontecer?...”.
O Brasil está em 4o lugar no ranking mundial de seqüestros, perdendo apenas para países como Colômbia, México e ex-União Soviética, porém esses não possuem qualquer conotação terrorista, política ou religiosa, são apenas atos criminosos ou seja, praticados com a intenção de extorquir a vítima. Os seqüestros são desde amadores (conhecidos como relâmpagos) até os praticados por grandes organizações (trafico de drogas), com ramificações internacionais.

A velha escusa dos que não fazem nada é que a condição social leva ao crime. Isso, com certeza, ajuda na propagação, mas quem se apóia a esse tipo de afirmação se esquece de dizer que aqueles que comandam e lucram com o crime são abastados e tiveram boa educação e, por outro lado, muitos “pobres de verdade” chegaram até a presidência da república com um passado de luta e honestidade. Mas não cabe a nós analisar as causas e sim combater os efeitos, pois somos homens de segurança e não assistentes sociais.

O grande e repetitivo ciclo das formas de atuação criminosa vai girando naturalmente, ou seja, época de roubos a bancos, períodos de seqüestros, roubos a carros -fortes, roubos de cargas... Enfim, atuações por temporada e seus rescaldos vão acontecendo no dia-a-dia.
Na década de 70, o maior problema no mundo era o terrorismo, principalmente com o inicio da guerra fria, onde atentados políticos, assassinatos seletivos, uso de bombas e seqüestros, por conotações políticas, religiosas extremistas e ideológicas, intensificaram-se. No Brasil, é claro, grupos criminosos que se camuflavam de “guerrilheiros”, por ser esta nomenclatura mais bonita, declararam a temporada de terror no país e realizaram vários atos criminosos, seqüestrando pessoas e roubando bancos com a justificativa de manter os cofres das organizações pseudo-guerrilheiras abastecidos. Importaram táticas vagabundas – haja visto que para seqüestrar e fazer mal é fácil e não exige técnicas – e, quando presos, disseminaram estes conhecimentos aos demais criminosos, que achando tão bonito, criaram a falange vermelha, depois o comando vermelho, em São Paulo o PCC e assim por diante.


Táticas de guerra e contra espionagem são
comuns em cursos de reciclagem de seguranças
A verdade é que estes grupos estão realmente organizados e o pior, com cérebros pensantes lá em cima, que têm dinheiro para manipular e financiar ações criminosas, obtêm informações mais precisas e rápidas que nós, e vêem nisto um grande e lucrativo negócio, impune, sem leis, sem detenção de suas ações e tudo isso causa-lhe a sensação de poder, que é realmente aquela que os leva a rumos sem limites. Analisando toda a história não seria de se estranhar se, em breve, estas ações de seqüestros e roubos voltarem à tona, com força total, bem informada, armada e estruturada. Portanto, precisamos estar preparados para desarticular suas ações ou responder imediatamente de forma tática e técnica.

Se uma ou duas ações criminosas lograrem êxito, teremos um derrame de atos em todo o país, porém se frustrarmos suas perspectivas ou estancarmos suas tentativas, logo se voltarão a outras alternativas, pois é assim que funciona. Escolhe-se o alvo seja ele físico (para seqüestro) ou patrimonial (para roubo), obtém-se informações e os vigiam, se for fácil e os riscos forem pequenos eles vão em frente, se encontrarem dificuldades e estruturas de segurança que aumente o risco da operação desejada, aí então abortam o processo e passam para outro alvo, provavelmente um bem mais fácil e sem riscos.


Hoje, a falta de um sistema de informações eficaz é tão grave que empresas de médio e grande porte, nacionais, estrangeiras e até mesmo governamentais, estão funcionando com espiões a bordo nas áreas técnicas, mercadológicas, administrativas e outras.
Toda a comunidade de informações tem conhecimento e apenas suas diretorias não têm ou não querem ter conhecimento.
Estudos e informações mostram tendências e previsões dos grupos criminosos em relação a seqüestros e roubos.
Fica aqui o aviso aos profissionais da área de segurança para que não esperem acontecer e tudo o que fizerem para evitar esses acontecimentos, com certeza não será suficiente.
Outra frase de Sun Tzu diz: “Se você conhecer o inimigo e a si próprio, não precisará temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece, mas não ao inimigo, para cada vitória também sofrerá uma derrota. Se você não conhece nem ao inimigo e nem a sí próprio, sucumbirá em todas as batalhas”.

Como funciona a estrutura de uma organização criminosa


Vale salientar que neste organograma, muitas vezes um grupo não conhece o outro e apenas conhece quem os contratou, não tendo conhecimento de quem está acima, muito menos de seus verdadeiros contratantes, isso para a própria segurança da operação e dos demais.
Intelectuais = planejamento, financiamento e Comando geral (empresários do crime).
Gerentes = são homens de confiança absoluta dos intelectuais. Estrutura – contratações – operações.
Coordenadores = homens de confiança e operacionalidade já provada e conhecida do gerente, podendo em alguns casos, existir mais de um e sem conhecer jamais o intelectual ou o outro coordenador. Neste caso ficam responsáveis por atividades divididas.
Informações e vigilância = grupo ou indivíduos isolados, responsáveis por levantar todas as informações sobre o alvo, sua vida financeira e também sobre seus hábitos, costumes, horários,enfim sua vida cotidiana.
Bloqueio e captura = é um dos grupos mais importantes, podendo ser da própria estrutura ou contratado para a operação. Este é o grupo operacional, fica sob sua responsabilidade o bloqueio e captura do alvo até que chegue em local determinado, como o cativeiro. Bem armados e muitas vezes treinados, ficam com uma boa porcentagem do resgate pago após a negociação ou, quando contratados, recebem sua soma pedida logo após a captura da vitima.
Cativeiro = o grupo de cativeiro também é um grupo importante, pois tem a responsabilidade sobre a vítima, como por exemplo, seu bem-estar, cuidados, discrição para que não sejam notados pela vizinhança.
Negociador = este normalmente pode ser alguém de muita confiança dos intelectuais ou eles próprios.

Para que as empresas e os responsáveis pela segurança possam lograr êxito em suas missões, são necessários alguns fatores indispensáveis, como por exemplo: equipamentos, informações, organização da equipe de proteção, planejamento e treinamento constantes.
Agente de segurança não pode ser “bibelô” de executivo, apenas marcando presença para inibir ou intimidar, deve estar pronto para tomar atitudes e principalmente efetuar respostas táticas rápidas, seguras e eficientes em situações de crise.


Para combater o crime organizado empresas
investem pesado em treinamento
O homem de proteção deve estar exaustivamente treinado, tanto em habilidades táticas especiais como nas simulações de eventos que possam ocorrer em qualquer lugar ou terreno. Alguns empresários acham que não há necessidade de se investir nos treinamentos ou equipamentos para esses grupos, pois em seu errôneo modo de pensar, é um grupo que não atua todos os dias, ou seja, não produz. Mas, é justamente isso que demonstra que a estrutura está funcionando, pois o fato de não acontecer é devido à prevenção, haja visto que muitas vezes já possa ter sido alvo de criminosos e dada a estrutura de segurança, não ocorreu o fato. Deve-se pensar que, quando estes homens entrarem em confronto real, serão segundos,

minutos talvez que decidirão a situação, dando um desfecho favorável ou não, por vezes serão fatais para um lado ou para o outro.
É necessário que os profissionais de segurança estejam prontos, treinando e simulando situações, pois o VIP está sempre em locais e terrenos diferentes, cidades, bairros, casas de campo, praias, etc. Basta lembrar que na Colômbia, um grupo de seqüestradores na dificuldade de capturar sua vitima na cidade, resolveu capturá-la quando estava a caminho da casa de campo. Tal tentativa resultou em confronto, mas graças aos conhecimentos de sobrevivência na selva de um de seus guarda-costas que com ele adentrou e fugiu pela vegetação fechada, permanecendo ali por três dias, conseguiram frustrar o seqüestro e sobreviver.

Veja abaixo um conceito básico de treinamento e habilidades para um homem de proteção pessoal:
- Técnicas em defesa pessoal e combates corporais letais, como: jiu jitsu, krav maga, hapki-do, muai thay, etc...
- Condicionamento físico
- Comunicações
- Socorros emergenciais
- Armamento leve: revólver – pistola – carabinas – espingardas calibre 12
- Tiro tático – técnicas e táticas
- Tiro de combate – simulações de combate de situações reais e em várias situações e terrenos (cenários) – não menos que mil tiros reais para uma formação básica
- Direção defensiva – agressiva e evasiva associada a contra-vigilância e tiro de combate embarcado em veículos
- Técnicas de proteção e escolta a pé e comboio motorizado
- Contra-atentados – contra-bloqueio - contra-emboscada - anti-bombas – contra-sabotagem
- Combates com armas não convencionais: facas-bastões-balestras
- Combates com armas improvisadas - cartões de crédito – cintos – canetas – náilon
- Conhecimento básico de explosivos e artefatos improvisados para sabotagem defensiva
- Técnicas de rapel e operações em altura
- Técnicas de entradas táticas e CQB (Combate em Locais Fechados) e resgate do VIP em locais confinados
- Sobrevivência e operações na selva
- E mais do que qualquer outra técnica, treinar todas as formas prováveis e improváveis de retirada e salvo conduto do VIP em qualquer tipo de local ou terreno.

Vale a pena salientar o treinamento também com armas de paint ball em equipes para se aproximar o máximo possível de situações reais, não esquecendo de fotografar e filmar as ações para posterior analise.
E, com certeza, reciclar sempre que possível, adquirir outras técnicas e táticas especiais e simular vários tipos de situações, para que na hora do evento indesejável não se surpreendam com as circunstâncias e situações de crise, podendo oferecer maior proteção à integridade física de seus VIPs.


A administração de segurança não pode ignorar nenhum fator em relação à sua estrutura, detendo conhecimentos e equilíbrio entre técnicas, táticas, estratégias e operacionalidade competente e não vacilante no que tange o patrimônio, inteligência empresarial e ações táticas na proteção VIP, estendendo também os treinamentos, equipamentos e ações operacionais na segurança patrimonial da empresa, como por exemplo, treinamento “in loco”, simulações de eventos indesejáveis que venham a ocorrer em situações esperadas ou não, planejamento e treinamento.
Uma boa base de gerenciamento e administração de um departamento de segurança empresarial, seja ela de pequeno ou grande porte, pode ter uma satisfatória organização e distribuição abrangente, trazendo assim um feed back mais positivo e eficiente.
Não existem sistemas perfeitos e sólidos, aliás, quanto mais forte o sistema, mais fortes serão as incursões contra ele.


Porém, quanto mais preparados e atentos estivermos, menos oportunidades criaremos para sermos surpreendidos, neutralizando possibilidades de ocorrências indesejáveis ou minimizando seus efeitos. Uma última frase do mestre Sun Tzu: “O RESGUARDAR-NOS DA DERROTA ESTÁ EM NOSSAS MÃOS, MAS A OPORTUNIDADE PARA DERROTAR O INIMIGO É FORNECIDA POR ELE PRÓPRIO.”

FARES ALBERTO ABDALLA é Consultor em Segurança Empresarial e Proteção de Dignitários, Master Instrutor em Treinamentos Táticos Especiais pela STAIS – Security Training Agency & Intelligence service para unidades policiais de elite e profissionais de segurança, especialista em operações anti-seqüestro e contra-terrorismo e perito em intelligence operations.