A Oração do Coração
(Conferência realizada por Olivier
Clèment, teólogo ortodoxo,
aos monges da Abadia de Tamie (Saboya) em 29 de maio de 1970)
Tradução: Pe. Pavlos, Hieromonge
Comunidade Monástica São João
1. «O contexto eclesial e
teológico-sacramental»
É muito importante, para compreender
esta oração, situá-la em seu contexto teológico e eclesial: o
hesicasta não está além da Igreja, ele se centra na Igreja, se faz
integralmente um homem da Igreja, capaz de “fazer eucaristia em
todas as coisas” como pedia o Apóstolo (I Tes 5,18). Que o hesicasmo
constitui a contrapartida cristã do yoga que re-situa, numa atitude
propriamente de reencontro pessoal e de graça, uma exploração da
interioridade que também as espiritualidades asiáticas praticam, é
mais que provável. E isto se deve à estrutura mesma do homem, criado
à imagem de Deus.
Voltaremos a falar sobre isto. Porém,
posto que só Cristo pode recapitular todas as coisas e colocar
tudo em seu verdadeiro lugar, o hesicasmo aparece como
fundamentalmente crístico, como uma ascese cujo fim é a tomada de
consciência atuante da Igreja, Corpo de Cristo, Templo do Espírito
Santo e Casa do Pai...
a) - É necessário, em primeiro lugar,
recordar algumas aproximações teológicas.
Quando, no Ocidente, pensamos na noção
de natureza, o fazemos através de uma sensibilidade filosófica
modelada pelo tomismo tardio, logo, pelo dualismo cartesiano,
finalmente, pelas ciências contemporâneas que reabilitam - contra as
ciências humanas - esse "paradigma perdido" a partir dos dados da
biologia, da ecologia e da etología. Assim, cada vez, temos a
impressão de que a graça vem juntar-se à natureza para contrariá-la
ou aperfeiçoá-la... No Oriente cristão, me parece, a graça é sentida
como presente em tudo o que existe. A verdadeira natureza dos seres
e das coisas é justamente essa transparência à graça, esse dinamismo
de união com as energias divinas. Pois, a graça é incriada, é Deus
mesmo que se faz participável voluntariamente, permanecendo, ao
mesmo tempo, o Totalmente Outro, o Inacessível.
Seguir a natureza, nesta perspectiva, é
abrir-se à graça e unir-se a Deus: o homem não é verdadeiramente
homem senão em Deus, não se pode falar do homem em seu próprio nível
e, como dizia Berdiaev, empregando símbolos apocalípticos, não há,
em geral, outra eleição que a "divino-humanidade" ou a
"bestial-humanidade". O mundo caído, ainda que siga sendo criação de
Deus, conhece uma modalidade noturna, ou, se se quer, demasiado
clara, luciferina, no sentido do "palácio de cristal" de
Dostoievsky. Certamente é mantido no ser pela Sabedoria divina, e
a reflexão científica mais recente mostra até que ponto a ordem
cósmica se recompõe sem cessar sobre a desordem, sobre o caos. Não
obstante, esse mundo de opacidade, de crueldade e de morte, é
parcialmente contra-natura: a verdadeira natureza, a descobrimos no
corpo "pneumatizado" do Ressuscitado, do qual participamos na
Eucaristia...
O homem foi criado à imagem de Deus,
chamado a se transformar, na graça, imagem e semelhança, no sentido
de uma participação. A imagem designa, em primeiro lugar, o homem
enquanto vocacionado a uma existência pessoal em comunhão, a maneira
da Uni-trindade e por transparência das energias trinitárias. Porém,
designa também essa natureza profunda, inseparável do cosmo, não
fruto, senão motor secreto do devir cósmico, e esta natureza é a
aspiração ao infinito, a esperança da deificação, a imensa
celebração da que a Índia diz com profundidade que dorme na pedra,
sonha na planta, desperta no animal, faz-se, ou, melhor dizendo,
pode se fazer consciente no homem. Todo o problema do homem radica
em expressar justamente esse movimento para o infinito, unir o
dinamismo interior do Sopro à revelação do Logos, de outro modo,
esse impulso suscita as "paixões" e as idolatrias.
Se se tem presente o significado da
noção de natureza, compreende-se que o ser humano, em sua
totalidade, e até em sua estrutura e ritmos corporais, está
constituído para chegar a ser templo do Espírito (a expressão é
paulina, como se sabe). Temos feito do cristianismo um assunto da
alma, um assunto psicológico (e finalmente, uma ideologia...).
Porém, na Tradição da Igreja indivisa se encontra a idéia muito
forte de que o homem é criado para estar unido a Deus em todo o seu
ser, espírito, alma e corpo; não se considerando aqui o espírito
como uma faculdade particular, mas como o centro donde todas as
faculdades se unem, donde o homem, todo inteiro, se unifica e se
supera. Em suma, a inscrição em toda a natureza do homem, de sua
vocação em pessoa. Um ocidental, marcado por uma espécie de
platonismo inconsciente, tem tendência a aproximar o Espírito ao
espírito, depreciando o corpo. Na realidade, o Deus vivente
transcende também radicalmente, tanto o inteligível como o sensível,
e quando se dá, transfigura tanto um como outro. A antropologia do
hesicasmo é bíblica, isto é, unitária. Acentua os dois ritmos
fundamentais de nossa existência psicossomática, o da respiração e o
do coração. O ritmo respiratório é o único que podemos utilizar
voluntariamente, não para dominá-lo senão para oferecê-lo; ele
determina nossa temporalidade vivida, a acelera ou a acalma,
fecha-se sobre si mesma ou a abre sobre a Presença. O ritmo do
coração ordena o espaço-tempo ao redor de um centro do que todas as
tradições espirituais sabem que é abismal, que pode abrir-se sobre a
transcendência; é a "caverna do coração" das tradições arcaicas e da
Índia... Esses dois ritmos nos tem sido dados pelo Criador para
permitir à vida divina apoderar-se da profundeza de nosso ser e
envolvê-lo, encher de luz toda nossa existência. Poderia-se quase
dizer, não somente nossa existência corporal mas, a partir de nossa
existência corporal, pois é no Corpo de Cristo que somos enxertados
pelo batismo; é pelo sangue (con-sangüíneos) e pelo corpo
(con-corporais) que somos unidos a Cristo: certamente, o Corpo de
Cristo designa sua humanidade inteira, porém a língua não se
equivoca, é o corpo o que constitui a raiz e a expressão ultima da
encarnação. É necessário tomar a sério a exortação: "Não sabeis que
vosso corpo é o templo do Espírito Santo que habita em vós?
Glorificai a Deus em vosso corpo" (1Cor 6,19-20).
Uma certa poesia nos guia aqui, não
para o imaginário, senão para a profundidade, para o simbolismo
verdadeiro que se inscreve na natureza das coisas que o Logos ordena
e que o Pneuma vivifica.
"O Senhor Deus formou o homem do pó da
terra, soprou em suas narinas um sopro de vida e o homem se
converteu em um ser vivente" (Gn 2,7).
Assim se precisa uma correspondência,
uma analogia-participação entre o Espírito, enquanto sopro
vivificante de Deus, e a respiração enquanto sopro vital do homem. O
homem é chamado a mesclar seu sopro ao Sopro divino, a "respirar o
Espírito Santo", como escreveu Gregório o Sinaíta. É o que ele
alcança se consegue "aderir" à sua respiração o Nome de Jesus, pois
o Espírito, tanto em Deus como no homem, é o "anunciador do Verbo".
Existe igualmente uma analogia
semelhante entre o coração, como centro de integração do homem, e
Cristo, "sol de justiça", coração da Igreja e, por seu intermédio,
do Universo, posto que a Igreja não é outra coisa que o Universo em
vias de transfiguração ao redor de seu coração. Este tema de
Cristo-coração, coração da Igreja e de cada um de seus membros, é
fundamental para um espiritual e liturgista leigo do final da Idade
Media, Nicolás Cabasillas, que escrevia para os leigos e dava à
tradição hesicasta uma tonalidade diretamente sacramental.
Com efeito, o tema do coração está
ligado ao do sangue. Quando o homem arcaico e, por outro lado, o
homem bíblico, medita sobre o sangue, o vê líquido como a água mas,
vermelho e quente como o fogo. O sangue é, de algum modo, a água
"pneumatizada", portadora do mistério da vida e que só pertence a
Deus. As águas simbolizam a vibração original do criado sob o sopro
que suscita a vida. Na origem, o Espírito repousa sobre as águas,
as incuba, torna-as dóceis às exortações do verbo. E, certamente, em
nós e ao redor de nós, o pecado endurece o ser criado, o faz
insensível ao Espírito. Só o sangue que brota do lado, do coração do
crucificado pode sacramentar de novo a terra. Só o sangue
eucarístico pode ascender novamente o fogo do Espírito em nosso
sangue, em nosso coração, desde que a existência em nós perca sua
dureza, que o coração de pedra se dissolva nas águas novamente
originais, matriciais, do batismo e das lágrimas.
Através destes símbolos que se
correspondem, se pode apreciar como se entrelaçam o sopro humano e o
sopro divino, a graça batismal, o sangue e o coração. Tudo isto
conduz à idéia de uma inteligência que não é somente cerebral,
inteligência da cabeça e da racionalidade caída - que opõe ou
confunde - e também à idéia de um "sentir", de uma sensação que não
é só do coração orgânico ou das entranhas. Por conseguinte, a idéia
de uma inteligência do coração espiritual (que não coincide
totalmente com o coração físico, mas se encontra um pouco mais além)
e de uma sensação do coração espiritual. Como se o coração tivesse
se unido, metamorfoseado no crisol da graça, a cabeça e as
entranhas, por um conhecimento de fé e de amor, por uma "sensação de
Deus" donde o homem íntegro se sobrepassa, se equilibra e se abrasa.
A Bíblia fala sem cessar
desse "coração-espírito", desse coração inteligente. O Evangelho
diz: "Amarás a Deus com todo o teu coração"; numa redação mais
tardia, adaptada à mentalidade helênica, teve tornar mais preciso:
"com todo o todo o teu coração e com toda a tua inteligência".
Porém, biblicamente falando, "com todo o teu coração" é suficiente
pois, dizer "com todo teu coração" é dizer "com toda a
inteligência".
O fundamento destas analogias é a
criação do homem à imagem de Deus, o que explica que estejam
presentes, ao menos de forma parcial, na maioria das tradições
espirituais da humanidade. Porém, a Criação não é realmente
restaurada, ou melhor, realmente instaurada, senão em Cristo, e é
por isto que todas estas analogias encontram nEle sua origem e seu
cumprimento. É Ele quem fez da humanidade, o Templo do Espírito, seu
sopro é o "principio de vida"; sua carne e seu sangue, assumindo no
pão e no vinho todo o Cosmos e toda a História Humana, são o único
alimento de eternidade.
b) A Oração de Jesus, por outro
lado, está ligada ao mistério do nome
O tema do nome se re-encontra por todas
as partes na história das religiões, como na celebração poética ou
ritual, das amizades ou dos amores humanos. O nome tem sido sempre
sentido como a expressão da Presença. Nas religiões arcaicas, das
que a magia está muitas vezes próxima, conhecer o nome de Deus é
dominar seu poder (porém, Deus não é mais que a aparência de uma
divindade impessoal). Na Bíblia a mudança é surpreendente: não se
trata de dominar o poder de Deus, o Deus vivente toma uma distancia
fulminante, até mesmo, inacessível. A invocação do Nome se faz
excepcional e terrorífica. O tetragrama era pronunciado só uma vez
por ano, no dia de Yom Kippour, quando o grande
sacerdote entrava no "santo dos santos". E, inclusive, esta nomeação
se perdeu, foi (voluntariamente?) esquecida. Diz-se ADONAI, o
Senhor; ou Elohim, o
plural que designa o "salto fora de si" do inacessível. Nas
religiões da transcendência pura, Judaísmo e Islamismo, não se
pretende conhecer o Nome; sabe-se somente que Deus estabeleceu
soberanamente certos tipos de relações com o homem e que, dada uma
delas, pode ser evocado por um nome relativo por definição (não há
então o Nome, senão os nomes: no Islã somam 99).
Jesus nos revela o Nome próprio de Deus
e é um Nome expropriado. Deus sai de sua transcendência inacessível
e se revela a nós sobre a Cruz. É nesta "kenosis"
inimaginável, nesta expropriação total, que nos revela seu próprio
nome. Jesus, nome não muito comum no Antigo Israel, significa "Deus
Salva", "Deus Liberta". Porém, é só depois do Getsêmani e do
Gólgota, depois da descida de Cristo à morte e ao inferno que
sabemos que somos salvos e libertos.
O paradoxo do Inacessível e do
Crucificado, esta grande antinomia, nos permite balbuciar, muito
além de todo sentimentalismo, a equação de João: "Deus é amor". Nós
não invocamos o Nome como os povos antigos que queriam dominar um
poder: oferecemos a uma presença infinitamente participável, porém
simultaneamente inacessível .
Já não invocamos o Nome no temor e no
tremor, como o fazem o Judaísmo e o Islam, para os quais trata-se
sobre tudo de um desses nomes que constituem algo assim como o
"reverso" misterioso do Transcendente. Deus para nós, voltou ao
coração de sua Criação pelo Sim de uma mulher e, consumindo o fogo,
vem a nós, "doce e humilde de coração" na presença de Jesus, no
sopro ligeiro do Espírito, no balbuciar infantil, tão familiar e
confiável: "Abba" - Pai; no Pão e no Vinho compartilhados aa
Eucaristia.
É por isso que, contrariamente ao que
se pensa, muitas vezes, o Nome próprio de Deus, o Nome expropriado
do Amor, não me parece que se limite somente à invocação de Jesus.
Ele se desdobra na fórmula íntegra: "Senhor Jesus Cristo, Filho de
Deus", tratando-se de uma fórmula trinitária.
A "Oração de Jesus", tal como se
estereotipou nos séculos XIII e XIV, "Senhor Jesus Cristo, Filho de
Deus, tem piedade de mim", lembra o chamado do publicano e do cego
do Evangelho. Porém, trata-se de uma invocação trinitária.
Invocamos a Jesus, o chamamos Cristo e Senhor, por conseguinte,
confessamos sua divindade. Entretanto, "ninguém pode dizer que Jesus
é Senhor senão no Espírito Santo" (I Cor 12,3). Dizer que Ele é
Cristo, é recordar que o Espírito repousa sobre Ele, n'Ele, pois o
Espírito é, desde a eternidade, a "unção do Filho", como assinalava
São Gregório de Nissa. Invoquemos então, no Espírito, e designemos
ao Espírito mesmo designado a unção que faz de Jesus o Cristo.
Finalmente, digamos d'Este que é "Filho de Deus". E Deus, nesta
fórmula, como em todo o cristianismo antigo, é o Pai, "Fonte" da
divindade e "princípio" do Filho e do Espírito. Dizer "Jesus Cristo
Filho de Deus", é entrar no mistério da "patri-filiação", é nomear o
Pai.
A "Oração de Jesus"- e este é o ultimo
elemento de seu contexto, do que me parece essencial falar - se
situa numa perspectiva sacramental. Tem por finalidade uma tomada de
consciência da graça batismal; é um reencontro pessoal com Cristo
que é, ao mesmo tempo, uma "Vida em Cristo, uma "respiração do
Espírito" (posto que o corpo sacramental de Cristo é um Corpo
"pneumático" , um lugar pentecostal), uma atualização da energia
trinitária que, para um cristão, não é jamais impessoal, mas que
se realiza no Espírito, por Cristo ao Pai.
O Batismo, e por conseguinte, a Crisma,
que no Oriente cristão é inseparável, acentua o aspecto carismático;
o batismo é a grande iniciação cristã, submersão nas águas da morte,
descida ao inferno com Cristo e subida com Ele e n'Ele; ressurreição
em Cristo, possibilidade de metamorfosear a angústia da morte em
júbilo no Espírito. De modo que, o batizado leva dali em diante em
seu inconsciente, não só os traços de seu destino individual ou
coletivo, mas o próprio Deus (o que, a sua maneira, descobrem os
"psicanalistas da existência").
Dali em diante, uma certa exterioridade
ou impessoalidade de Deus é superada, exterioridade das religiões da
transcendência fechada, onde a fé permanece sendo de ordem ética;
impessoalidade dos orientes distantes, onde a imersão no divino
dissolve o homem.
Mediante o Batismo, o Deus Vivente, o
Inacessível, se torna plenamente participável na "profundidade" do
coração.
São João Crisóstomo afirma que um
adulto, recebendo o Batismo, percebe fugazmente uma real
iluminação; porém, que esta se oculta em seguida no inconsciente. É
necessário, então trabalhar, e este é todo o sentido da ascese, para
tornar-nos conscientes desta Presença que ocupa o fundo de nosso
ser. Além disso, existe a santidade em nossa própria existência
corporal, enxertada pelo batismo no Corpo do "Único Santo"; existe a
santidade em nosso corpo "com-corporal" ao seu, em nosso sangue
penetrado pela incandescência eucarística. É nossa alma ou mais
precisamente, nossa consciência a que se adultera e se prostitui ; é
ela que precisa voltar a estar atenta ao mistério presente no
"coração".
A "Oração de Jesus" tem por finalidade
"circunscrever o incorporal no corporal", reconstruir a unidade
estática do "coração consciente". Tomar consciência da graça do
Batismo não se separa, por conseguinte, da tomada de consciência da
plenitude eucarística. Viver em Cristo é tornar-se um homem
eucarístico, é despertar-se para a grande alegria da Eucaristia que
é também uma alegria pentecostal, uma vez cada vez que, cada vez que
celebramos a Eucaristia entramos num Pentecostes que não terminará
jamais, que antecipa a Parusia, e que sobrevirá com toda sua
força no momento da Parusia: "Vimos a verdadeira Luz, recebemos o
Espírito celeste", cantam os que comungaram. A finalidade da "Oração
de Jesus" é nos ajudar a estabilizar, a elucidar, a interiorizar
esta visão da verdadeira Luz, esta recepção do Espírito. A invocação
do Nome de Jesus deve chegar a ser uma "epíclesis" cada vez
mais permanente.
O "coração consciente" é, deste modo,
um coração eclesial. É, por sua vez, a unificação do homem e a
tomada de consciência da consubstancialidade, em Cristo, de todos os
homens.
Por isso, os carismas que recebem, as
vezes, os espirituais - de cura, de profecia, de clarividência, de
discernimento dos espíritos, de paternidade espiritual - são
ordenados para a "edificação" da Igreja. Ainda que permaneça só e
anônimo até o fim de sua vida, o espiritual, só pela sua simples
presença, é uma fonte de bênçãos para a Igreja, para a humanidade e
para o Universo. Tudo é envolvido em sua oração. É o sal da terra e
a luz do mundo, ele que, com o apóstolo, não busca mais que ser a
escória deste mundo.
A esta tomada de consciência da graça
sacramental se une, de modo inseparável, uma leitura adoradora e,
como sacramental ela também, da Palavra de Deus. É o que o
monaquismo ocidental denomina a "Lectio Divina" - uma
incorporação quase eucarística do sentido espiritual. Uma leitura
semelhante permite, logo, levar em si uma frase ou um palavra, como
um gérmen de vida, como um perfume que enobrece a alma durante
horas.
Deixa-se levar pela leitura dos Salmos,
porém se repentinamente uma frase, uma expressão, toca o coração, é
necessário guardar em si, preciosamente, este toque de
transcendência: "Teu amor me feriu, marcho cantado-te", dizia
São João Clímaco.
Entre as histórias do deserto, se
encontra aquela do homem que encontrou um abba (pai espiritual) e
lhe perguntou como se devia orar. "É necessário recitar os salmos",
respondeu o monge. Como não sabia nenhum, o monge lhe ensinou o
primeiro versículo do Primeiro Salmo: "Feliz o homem que não marcha
segundo o conselho dos ímpios". E acrescentou: "Vê, medita estas
palavras, volte logo te ensinarei a continuação". O homem partiu e o
monge não o voltou a ver. Durante muitos anos sua meditação se
alimentou daquelas palavras e por causa delas se converteu em um
santo...
A Bíblia e a Filocalia são
inseparáveis. O autor dos Relatos de um Peregrino Russo,
conta que só levava estes dois livros em seu alforje. "O Evangelho é
como a oração de Jesus", escreveu, "pois, o Nome divino encerra em
si todas as verdades evangélicas". Quando comecei a compreender
melhor a Bíblia, graças a Filocalia, encontrei cada vez menos
passagens obscuras. Os Padres têm razão em dizer que a Filocalia é a
chave que descobre os mistérios encerrados na Escritura. É a
hermenêutica da oração a que mais temos necessidade nos dias de hoje
"Comecei a compreender o sentido oculto da Palavra de Deus",
acrescenta o Peregrino, "descobri o que significam expressões como:
"o homem interior do coração", "a oração verdadeira", "a adoração em
espírito", "o Reino em nosso interior" e "a intercessão do
Espírito". Compreendi o sentido destas palavras: "Vós estais em
mim", "estar revestidos de Cristo" e muitas outras.
Compreende-se que o Oriente cristão
chamou "graphai", escrituras, indistintamente, à Bíblia, aos
seus comentários litúrgicos e aos seus comentários místicos; e que
também certos espirituais da Tradição pudessem afirmar que a
destruição material da Bíblia não teria para eles nenhuma
importância, não só porque já sabiam de memória, mas porque já havia
penetrado em seu coração. No limite, o coração virgem do santo
"iletrado" (agrammatos) se converte em página branca na qual
Deus escreve diretamente, com caracteres de fogo o seu Verbo. |