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(POEMAS CONCRETOS E VISUAIS)

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Poeta: Gregório de Matos Guerra


Poema "boca de fogo":
Retrato de Gregório de Matos Gregório de
Matos


1633 - 1696

Gregório de Matos Guerra


Poeta lírico e satírico brasileiro, apelidado O Boca de Fogo.



Crônica do Viver Baiano Seiscentista
2 Trechos de JUÍZES DE IGARAÇU
Texto-fonte: (Obra Poética, de Gregório de Matos, 3ª edição, Editora Record, Rio de Janeiro, 1992.)



Trecho (1):

AO MESMO POR SUAS ALTAS PRENDAS.


 Dou        pruden         nobre, huma        afá
        to,              te,                        no,        vel,
 Re              cien                 benig        e aplausí
Úni                singular ra                     inflexí
              co,                  ro,                         vel
Magnífi                   precla                    incompará
Do mun                grave Ju                            inimitá
            do                         is                              vel
Admira                    goza    o aplauso            crí
Po    a trabalho tan              e t                      terrí
    is                    to                 ão                         vel
Da               pron        execuç    sempre incansá
Voss      fa   Senhor sej                  notór
        a            ma                    a                  ia
L            no cli      onde   nunc     chega o d
Ond            de  Ere    só se      tem      memór
            e                bo                                 ia
Para qu              gar                tal,         tanta energ
po                de   tod        est         terr      é gentil glór
              is                a        a            a                      ia
Da ma            remot        sej          um              alegr



Trecho (2):

PREZOS TREZ HOMENS DE QUATRO, QUE POR SEU DESENFADO COSTUMAVÃO TIRAR PEDRADAS AS JANELLAS DE PALACIO, UM DELLES POR SER MULATO, SAHIO A AÇOUTAR PELAS RUAS E OS DOUS FORAM PARA AS GALÈS. ESTA OBRA FEZ O POETA SENDO ESTUDANTE.
 

Senhores: com que motivo
vós tentastes a fazer,
sem castigo algum temer,
um excesso tão nocivo?
(disse o Algoz compassivo
a um dos da carambola,
quando o leva pela gola)
e a gente, que ali se pôs,
via a pé quedo o Algoz
muitas vezes dar à sola.
 

Nestas retiradas suas,
que fazia o tal madraço
sacudia-lhe o espinhaço
cum par de soletas cruas:
dava-lhe nas costas nuas
palmadas tão bem dispostas,
que o Mulato co'as mãos postas
disse dos açoutes dados,
sendo dos mais os pecados,
eu somente os levo às costas.
 

A gente, que isto lhe ouviu,
por saber do caso atroz,
pedia muito ao Algoz,
lho dissesse, e ele se riu:
finalmente prosseguiu
a dizer o caso a uns poucos,
que de pasmo ficam moucos
a alguns deles quase mudos
de ver, que quatro sisudos
tomem ofícios de loucos.
 

Diz-lhe mais o Algoz pascácio,
que sem terem nisso medras,
os quatro atiraram pedras
as janelas do Palácio:
e que fazendo agarrácio
dos três, escapou de um,
mas cuidando se algum
dos mais lizeiros ao peso,
fora, o que escapou de preso,
mais ligeiro, que nenhum.
 

Um inocente agarrado
foi também na travessura,
sendo que não faz loucura
moço tão bem inclinado:
outro será castigado
pela ousadia sobeja
e porque este vulgo veja
(se com ele não se engana)
fez, com que pela semana
não fosse o Domingo à Igreja.
 

Estes outros dous, ou três,
que se agarraram de noite,
se se escaparam do açoite,
terão por certo galés:
Não de sentir o revés
deste excesso, que fizeram,
pois eles assim quiseram:
mas vejo não sentirão,
se por castigo lhes dão
ir para donde vieram.
 

Vós, que do caso adversário
em seguro vos pusestes,
porque dos pés vos valestes
não sejais tão temerário:
sede nisto imaginário,
pois tão bem destes à sola,
que se noutra carambola
vos meteis co amigo Baco,
ele às vezes é velhaco,
dará convosco em Angola.