ECOS
   
   
 
POEMAS

UM GRITO NO SILÊNCIO

 

Dentro...
Onde o silêncio da alma se perde
Existe um quê...
Que cresce
E faz grande o eco.
Lá há um grito parado,
Uma busca de tudo que vem a o encontro...
De lá vem a vez do Ser...
-Existo, vejo e ouço dizer:
Eu sou a gota que resisto
E pairo lentamente na beira de mim...
De lá vem a espuma, o caos...
De lá vem a emoção do sentir
E traz tudo num embalo...
Eu calo lá dentro, por que de lá vem a vida
E vem um Homem que em seu silêncio
Existe e Cresce...
E cresce dentro da própria vida
Uma voz que no silêncio murmura:
Vida!...Vida!...Vida!...

Lá dentro é o espírito que alenta o Ser Humano...
Nessa vida,
Vivida
E dividida.

 

Élsio Américo Soares

 

 

 

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VAGO

 

Dentro,
no íntimo do ser
tudo está como d’antes:
olhares vagos e tristes
são apenas lágrimas...
Aprendi que esperar
é sentar ao lado do fim.
Por que tudo engana?

Posso compreender o silêncio

e olhar esse vago...
Esse vago infinito do ser,
Onde as estrelas são luzes transparentes
e eu... não sei!
Por que tudo engana?

Ah... eu não sei!

Aprendi que esperar
é sentar ao lado do fim...
Porque tudo engana!...

 

Élsio Américo Soares

 

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VENDAVAL

 

Cavaleiros com bandeiras

Sobra as nuvens fazem guerra –
(Cortinas de ferro em vendaval,
Poeira de sangue no lençol).
Corpos mortos pelos sonhos
Se misturam com as estrelas:
Crianças brincando no saguão,
Com os braços erguidos de He-Man!
Cavaleiro de histórias e de contos
Fidalgo, transforma em um herói
Que morto se mistura com os reais.

 

Élsio Américo Soares

 

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VIAGEM

 

Avisto de uma janela

o movimento da aquarela...
Vejo a astúcia montanhês
Tal qual a paisagem,
O camponês...
Quesera eu poder
Trucidar essas pedras...
Apoderar d’um assobio lânguido,
E voar...

Voar além de uma janela
Colher todas as pedras
E fazer delas
Meu próprio poder!...

 

Élsio Américo Soares

 


O  SONO  DAS  ALMAS

 

Todos mortalizados pela noite

Camuflam no suícidio dos corpos.
Nenhum espírito desampara as carnes
Sai solitário, senta-se no madrugal e embriaga-se!
Nenhuma alma
Está solta na estrada
Seguindo as setas,
Sem pernas... Sem olhos!
Enlouqueço no meu Karma!
Separo meus lados:
Corpo esquálido
Esquálida alma.
Ele imobilizado
Atenta-se ao fluido da irmã
Solitária
Prestes a adormecer no espaço...
Enlouqueço no meu Karma!
Tomo o corpo nos braços da minha própria alma
E adormeço!

 

Élsio Américo Soares

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OBSERVÂNCIA

 

 

Presencio
A tarde fechar em cio
Nuvens densas
contorcendo
No ventre do universo,
Gerando fetos diversos...

Presencio
Um corpo solitário
Esperando o cuspe do sêmen
Ventar-se em desespero,
Até cautelosamente
Sugar o líquido chuvoso...

Presencio
O espírito mover-se do silêncio
E fluir lentamente
Na noite de pesadelo...

Presencio
O sonho de uma chuva
Adormecida no colo do monte,
Na cabeceira de um rio tão doce...
Tão doce...

Élsio Américo Soares

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PALAVRAS

 

O que é viver?
Responderam-me:
-É a doce lucidez do espírito...

O que é viver?
Responderam-me:
-É a triste sensatez do fim...

O que é viver?
Responderam-me:
-É a moldura infinita de Deus...

Aí perguntei –
E quem é Deus?
Responderam-me:
-Talvez seja Ele um outro Ser!...

Élsio Américo Soares

 

 

 

PENÚRIA

 

Tenho medo que me impossibilite
De fazer toda razão desfluir por fim...
Canonizando demônios da elite,
Premiando-os com mil troféus de marfim...

E do Homem gerado que tem seus medos?
-Faz-se nos escuros, desfaz-se nos claros...
-Envergonha-se das honras e dos segredos...
Nele pulsa o sangue e os escarros;

Nele eu habito, eu traio, eu calo!
Eu sofro a paixão de ser inconsolado!
Eu morro na miséria que mesmo escalo...

-Eu sou o Homem que a razão procura:
Sem elite... Sem anjos... Sem o respaldo,
Sem mesmo encontrar na minha penúria...

 

Élsio Américo Soares

 


PIETÀ

 

No impacto

tomei a posição
de estátua-mármore...
- pensei:...
Devera ver-me o semblante –
Feito um fidalgo.
Que obra!
Que arte!
Teria-me Michelangelo!

Ah, penso em ti, Pietà!

Solitária sombra
Inacabada,
Que esculpiu
A morte em Florença...
E o meu busto
Em Renascência...

Ah, penso em ti, Pietà!

- “E avanço sozinho
por caminho
ainda não trilhados.”...

 

Élsio Américo Soares

 

 

POETINHA

 

Descalço

na lama
ele recolhe estrelas
e põe-nas num sovado embornal.
os dedos azuis
e os olhos crivados
de areia-movediça
penetram sôfregos pelo barro...
Daí murmura lânguido:
- Meu coração
pertence a um anjo
do pantanal...

Emoldura um peixe
e coloca no embornal –
Sai feito uma poesiazinha:
- Meu coração
pertence a um anjo
do pantanal...

 

Élsio Américo Soares

 


 
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