Em 1959 Alistair Cooke, o conhecido jornalista e comentador norte-americano, declarou pela BBC, em um tributo solene, que Lincoln não tinha religião. Mas é um engano! Lincoln era homem profundamente religioso. A afirmativa de Cooke pode ser vista como uma tentativa de provar, por extensão, que Lincoln não tendo religião não podia, consequentemente, ser um espírita.
Estudos realizados em cima de documentos vai provar que o presidente acreditava-se o instrumento de uma inteligência situada para além de sua compreensão pessoal. Por esse motivo nunca se perturbou e caminhou com serenidade e tristeza para o seu sacrifício final, sem nenhuma preocupação em ocultar suas tendências para a pesquisa psíquica, suas premonições, sonhos, visões ( que o caracterizam como um paranormal), suas experiências em sessões espíritas, seus diálogos com os desencarnados e sua faculdade intuitiva.
Ana Nicolai narra esta significativa experiência ocorrida nos primórdios da vida política de Lincoln:
"Na noite do dia da eleição, quando os primeiros resultados da apuração começaram a chegar, foi extraordinária a alegria do povo em Springfield. As boas notícias, chegadas primeiramente das seções eleitorais mais próximas e depois das mais distantes, provocavam as ovações do povo. Na Assembléia Estadual, cujo edifício se apresentava todo iluminado, os homens começaram a gritar e a pular, enquanto num salão, do outro lado da rua, suas esposas e filhas distribuíam sorrisos e quitutes.
Enquanto isso, Lincoln permanecia sentado, sozinho na pequena agência telegráfica, lendo os resultados à medida em que lhe iam sendo fornecidos. Pouco a pouco, os crescentes resultados majoritários, chegados de todas as direções, foram-no convencendo da virória do Partido Republicano. E com essa convicção abatia-se sobre ele o sentido irresistível, quase esmagador, de suas próximas responsabilidades. O ruído do regozijo popular irrompia na sala em ondas cada vez maiores. Porém o candidato vitorioso continuava sentado e só, de cabeça baixa, o rosto triste, com sulcos profundos de apreensão - olhando para o futuro".
Carl Sandburg, em sua obra conta:
" Na noite de sua primeira eleição, Lincoln tinha se deitado sobre um sofá, em sua casa, pouco depois que os telegramas o tinham informado de que era o Presidente eleito. Ao olhar para um espelho, que havia do outro lado da sala, viu-se em todo o seu comprimento, mas com duas caras. Desagradava-lhe aquela imagem e levantou-se; a visão esvaneceu-se, mas quando tornou-se a recostar-se viu outra vez duas caras no espelho, uma mais pálida do que a outra. Tornou a levantar-se e, em meio do torvelinho da eleição esqueceu o episódio, mas preocupava-o . Contou-o a sua esposa e também ela ficou preocupada.
Poucos dias mais tarde, recostou-se no sofá e viu duas caras. Mas foi essa a última vez. Desde então o espectro não mais apareceu. Lincoln contou a repetição do fato à esposa e, para a SrŠ Lincoln o fenômeno assumiu uma significação. Seria Lincoln reeleito para um segundo período e a palidez da Segunda face significava que ele não chegaria a completá-lo".
Escrevendo a seu amigo Speed, deixa-se extravasar nestas linhas:
"Sempre tive uma acentuada tendência para o misticismo. Tenho sido controlado por um misterioso poder que não simplesmente à minha vontade. Com frequência vejo perfeitamente claro o caminho a seguir, embora conscientemente, não tenha suficientes fatos a apoiar minha decisão. E não me lembro de uma única vez em que segui meu julgamento, baseado em tais decisões e em que os resultados não fossem satisfatórios, enquanto que, em muitas outras circunstâncias, em que me deixei levar pelo ponto-de-vista alheio, tive razões de sobra para lamentar tê-lo feito."
Ward Hill Lamon, narra como testemunha principal, o sonho mais dramático do Presidente. É evidente que tal sonho deprimiu pesadamente o espírito do Presidente, embora não houvesse, em sua profética visão, indicação de tempo.
Havia apenas duas ou três pessoas presentes. O Presidente mostrava-se em estado de melancólica meditação e esteve silencioso por algum tempo. A SrŠ Lincoln, que estava presente, gracejou a respeito do semblante solene e do alheiamento do marido. Isto pareceu despertá-lo e, sem demonstrar Ter notado os gracejos da esposa, disse em tom suave e pausado:
Neste ponto a senhora Lincoln observou:
Ele parecia agora tão sério e nervoso que a SrŠ Lincoln exclamou:
Isto espicaçou ainda mais a curiosidade da SrŠ Lincoln que, enquanto protestava energicamente contra qualquer crença em sonhos, fortemente o incitava a contar o que tivera, no qaue era secundada pelo outro ouvinte. Lincoln hesitou, mas, por fim, com uma sombra de melancolia encobrindo os seus olhos castanhos, começou:
"- Há uns dez dias recolhi-me muito tarde. Pouco tempo depois de estar deitado cai em sonolência, pois estava fatigado e, em breve, comecei a sonhar. Parecia haver, à minha volta, um silêncio de morte. Subitamente ouvi soluçoes convulsivos, como se muitas pessoas estivessem chorando. Julguei Ter deixado a cama e que vagueava pelo andar inferior. Ai o silêncio foi quebrado por doloridos soluços, embora as pessoas que assim se lamentavam estivessem invisíveis. Andei de sala em sala. Não havia, á vista, qualquer pessoa viva, mas, por onde quer que passasse esperavam-me os mesmos lamentos de dor. Todos os móveis me eram familiares. Onde estavam, contudo, aquelas pessoas que assim se lamentavam como se seus corações estivessem dilacerados? Sentia-me, em verdade, confuso e alarmado. Que significaria tudo aquilo? Decidido a descobrir a causa do mistério continuei perambulando até a Sala Oriente. Entrei. Ali me esperava uma surpresa macabra. Diante de mim erguia-se um cadafalso, no qual repousava um cadáver envolto a vestes fúnebres. Em volta perfilavam-se soldados, fazendo guarda, e uma enorme multidão. Alguns contemplavam lamentosamente o corpo cuja face estava coberta. Outros soluçavam piedosamente.
Da multidão veio, então, uma explosão ruidosa de dor, que me despertou do sonho. Não dormi mais naquela noite e, se bem que se trate de um sonho, desde então encontro-me estranhamente indisposto.
Em conversa comigo, várias vezes se referiu ao caso, terminando uma vez com esta citação de Hamlet:
Em certa ocasião, o Presidente aludiu a este terrível sonho com certo humor. Depois ficou sério e comentou:
Estas palavras foram ditas em um suspiro, em tom de solilóquio(monólogo), como se não notasse a minha presença.
James Creelman, editor do "McClure's Magazine" escreveu em 1908:
"Lincoln experimentou agouros nos sonhos, conviveu com o mundo fantasmal do Espiritismo, predisse morte violenta para si mesmo, sonhou com seu próprio assassinato e discutia a respeito de tudo isso com absoluta seriedade. Afinal o profeta Amós não predisse que os velhos teriam sonhos?"
Em 1862 Lincoln já estava na Casa Branca. Neste ano seu filho Bill desencarnou. Nessa época o coronel Simon P. Chase, seu íntimo amigo, Lincoln costumava conversar com ele acerca de antigos eventos, recordando aqueles que amara e que já tinham realizado a grande viagem. Chase conta que o Presidente estava certo de que seu querido Willie, como chamava a Bill, movia-se em torno dele, em sua forma espiritual. E voltando-se para Chase perguntou-lhe:
O Coronel não respondeu e Lincoln prosseguiu:
"- Desde a morte de Willie surpreendo-me involuntariamente a conversar com ele, como se estivesse ao meu lado. E sinto que ele está ao meu lado!"