BLUES DE BEIRA DE ESTRADA

 

Cerceado e tolhido, tento acomodar-me no banco desconfortável do ônibus

Encosto a cabeça

O rádio continua tocando o velho Hooker

This Land is Nobody’s Land

Minha mente viaja, divaga,

Às estrelas

Mergulhos no riacho na beira da estrada

Indescritível

Reflito a lua na água

 

Reflexo – Lua – Água

 

Há um ponto luminoso lá longe

Lá longe

Os pneus engolem o asfalto negro

Sobre as faixas amarelas

E ninguém sabe que naquela noite

Sozinho, amargurado, abstrato

Naquela noite

Apenas alguns acordes a mais

E tudo estaria salvo

Adeus à ponta de cigarro do motorista

Haveria apenas poeira

 

Homem contra homem

 

Incólumes, as árvores perseguem o ônibus

Acompanham a sua trajetória

Famintas

 

Ao longo da estrada

Há olhos à espreita, nas valas e acostamentos

E tudo isso tem gosto de Blues

Um amargurado e perene Blues

 

Um blues de beira de estrada

 

[após alguns minutos parados, poucas palavras compassadas, copos empoeirados]

[SEDE]

 

Nunca estive em um deserto

Não sinto a areia entre os dedos

Nem o frio que dizem ser emudecedor

Que transforma tudo em lábios leporinos

Faz tudo debater-se, como a Peste de Camus

E imita a última cena de Laranja Mecânica

 

Continuamos cultuando esses deuses ébrios

Abortando nossos próprios mitos

Enquanto a estrada continua

Os olhos nos espreitam

E o motorista acompanha a música com a ponta incandescente de seu cigarro.

   

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João Carlos Dalmagro Júnior.