BLUES DE BEIRA DE ESTRADA
Cerceado e tolhido, tento acomodar-me no banco desconfortável do ônibus
Encosto
a cabeça
O rádio continua tocando o velho Hooker
This Land is Nobody’s Land
Minha
mente viaja, divaga,
Às
estrelas
Mergulhos
no riacho na beira da estrada
Indescritível
Reflito
a lua na água
Reflexo
– Lua – Água
Há
um ponto luminoso lá longe
Lá
longe
Os
pneus engolem o asfalto negro
Sobre
as faixas amarelas
E
ninguém sabe que naquela noite
Sozinho,
amargurado, abstrato
Naquela
noite
Apenas
alguns acordes a mais
E
tudo estaria salvo
Adeus
à ponta de cigarro do motorista
Haveria
apenas poeira
Homem
contra homem
Incólumes,
as árvores perseguem o ônibus
Acompanham
a sua trajetória
Famintas
Ao
longo da estrada
Há
olhos à espreita, nas valas e acostamentos
E
tudo isso tem gosto de Blues
Um
amargurado e perene Blues
Um
blues de beira de estrada
[após
alguns minutos parados, poucas palavras compassadas, copos empoeirados]
[SEDE]
Nunca
estive em um deserto
Não
sinto a areia entre os dedos
Nem
o frio que dizem ser emudecedor
Que
transforma tudo em lábios leporinos
Faz
tudo debater-se, como a Peste de Camus
E
imita a última cena de Laranja Mecânica
Continuamos
cultuando esses deuses ébrios
Abortando
nossos próprios mitos
Enquanto
a estrada continua
Os
olhos nos espreitam
E
o motorista acompanha a música com a ponta incandescente de seu cigarro.
Copyright 2001. Todos os direitos reservados.
João Carlos Dalmagro Júnior.