MICHELLE

 

Miseravelmente encolhido pela brisa do taciturno fim de tarde,

Escondido em um sobretudo que lambe a poeira das ruas,

Abafado pelas luzes dos carros, o ribombar dos ônibus, o tilintar lisérgico das sinaleiras,

Caminho, cabisbaixo, pelas ruelas de Quintana, pela orla de um Guaíba morto...

Na boca, uma vez adocicada pelos teus lábios macios, há apenas o gosto amargo do cigarro.

Mantenho as mãos em meus bolsos, sinto a lã enroscar-se em meus pêlos, arredios em virtude do frio que me cerca e me devasta há muito tempo.

Percebo que há olhos em todas as direções;

Nos bancos dos parques, nos coletivos, nas luzes de néon, nos postes da Rua da Praia.

Bem lá encima, na Usina.

Há olhos impiedosos, que me observam, que me censuram, que não hesitam em me julgar. Há olhos grandes e castanhos, com suas pupilas dilatadas e secas;

Enormes globos oculares, absortos em um vago ponto do horizonte alaranjado.

E, em meio à tanta superficialidade, consola-me o fato de que ainda possa existir, em algum cinema vazio, um olhar despretensioso, que me acompanha suavemente, e uma face doce e trágica que me acaricia com estórias de fuga e consolo, canta-me músicas de luta e redenção, proporciona-me catarses e acalma-me afagando-me os cabelos revoltos.

Penso nisso, sorrio timidamente, acendo outro cigarro.

O semáforo abre, indica-me a cor.

Hora de seguir em frente.  

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João Carlos Dalmagro Júnior.