O silêncio da imprensa: ninguém contesta fenômeno Kértesz

Às vezes suspeita-se quando a grande imprensa ou os jornalistas influentes - mesmo aqueles de reconhecida credibilidade - reclamam da impunidade e reivindicam o desempenho justo e autenticamente responsável da democracia.

Pois é. Enquanto a imprensa carioca, por um lado, atua na sua brilhante coragem de reivindicar o fim da impunidade no caso Tim Lopes - jornalista investigativo da Rede Globo morto por traficantes do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro - , a imprensa baiana, não se sabe por que motivo exato, se cala ante o fenômeno Mário Kértesz, que da condição de ex-prefeito envolvido em corrupção escandalosamente comprovada, passou a ser considerado um "comunicador honesto e de grande talento".

Com uma trajetória duvidosa como aspirante a radialista e jornalista, Kértesz, que quando era prefeito de Salvador tinha um programa de rádio, "Bom Dia, Prefeito", espécie de versão do "Conversa ao pé do rádio" consagrado a partir de José Sarney, nos anos 80, já teve registro de radialista cassado por processo movido pelo Sindicato dos Radialistas em 1994 e que o ex-prefeito conseguiu revogar, com a ajuda de um bom advogado. Sucateou o Jornal da Bahia reduzindo a um pequeno e asqueroso veículo popularesco, com criminalidade, pornografia e fofocas da tevê. Além disso, fez findar o sonho de ser acionista da TV Bandeirantes em Salvador, porque uma denúncia de acordo secreto entre Kértesz e políticos do PFL para atacar políticos do PMDB acabou com o programa que o ex-prefeito tinha na emissora televisiva e que servia para divulgação da constrangedora emissora Metrópole FM.

Apesar de tudo isso, o que se vê na imprensa baiana, na melhor (ou pior, melhor dizendo) das hipóteses, são eventuais elogios à Metrópole FM, às vezes expandindo-os para seu dono e principal locutor, vide alguns órgãos de imprensa locais que reservam um espaço para entrevistar o tendencioso homem da mídia. A maioria da mídia se abstém, mas se é para falar mal ou para apontar alguma suspeita a respeito da Metrópole FM e seu dono, ninguém o faz.

Da mesma forma, a contribuição de Kértesz para o fim do Jornal da Bahia não foi até agora registrada em livro. Ambos os livros sobre a vida política do poderoso Antônio Carlos Magalhães, "Memórias das Trevas", de João Carlos Teixeira Gomes, e "Dom Carlos Corleone", de Francisco Alexandria, se calam ante a atuação de Kértesz em acabar com um jornal que o próprio Teixeira Gomes participou da fundação e do qual lamentou sua decadência e fim. Kértesz só é citado episodicamente, mas sem qualquer menção de que ele era aliado de ACM, defensor da ditadura militar ou empresário e político altamente tendencioso. Dos poucos da imprensa que conseguem citar alguma crítica contra Kértesz é Fernando Conceição, do jornal "Província da Bahia", até porque foi ele quem investigou as irregularidades cometidas pelo hoje "grande astro" da mídia baiana.

Afinal, que interesse tem a grande mídia da Bahia em poupar qualquer repúdio ou denúncia contra Kértesz? Que interesse tem uma mídia que luta por sua independência, uma imprensa que luta pela democracia e pelo fim da impunidade, defender um ex-prefeito que contruiu sua "prestigiada" (sic) rádio com as verbas públicas do Fundo de Participação dos Municípios? Que ninguém diga que Kértesz hoje está pagando sua dívida pública com sua "prestação de serviço" aos rádioouvintes porque dizer isso seria cometer uma hipocrisia.

Afinal, por que será que a imprensa age assim? Será que aposta no ex-prefeito de Salvador para a criação de uma nova "dinastia política" na medida em que Antônio Carlos Magalhães, sem herdeiro político - seu filho Luiz Eduardo, o único que iria sucedê-lo, faleceu em 1998, enquanto que outros discípulos, desde o outro filho ACM Júnior, e os afilhados Antônio Imbassahy, César Borges e Paulo Souto não contam com carisma suficiente para herdar o legado político do candidato a voltar ao senado em 2003, caso este falecesse (ACM completa 75 anos em 2002)?

Realmente é uma coisa muito estranha. Não se pode escrever uma linha questionando o ex-prefeito na sua atual situação, se alguém escreve para um jornal criticando algum tendenciosismo do "comunicador", o jornal simplesmente não veicula. O mesmo jornal cujo diretor se gaba, em congressos regionais e em eventos de premiação, em dizer que defende a democracia e a justiça social, combatendo a impunidade. No entanto, é a impunidade de Kértesz que, de corrupto escandaloso (o desvio de verbas públicas não foi pouca coisa) passou a "comunicador indiscutível". A mesma impunidade que a imprensa baiana diz combater mas neste caso defende de forma escancarada.

Que Mário Kértesz possui amigos entre artistas, intelectuais, empresários e até dirigentes esportivos, isso é pura verdade, mas verdadeiro também é o fato de que o ex-prefeito não tem carisma natural nem suficiente para se tornar uma alternativa forte ao poder carlista, até porque foi cria de ACM durante a ditadura militar.

Uma coisa é certa. Se Kértesz tem tanto apoio assim dos segmentos sociais influentes na Bahia, um novo escândalo que possa envolvê-lo irá, como uma bola de neve, derrubar muita gente.

 

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