Mário Kértesz e Marcos Medrado mandam no rádio de Salvador

Toda atividade tem seu ditador, seu caudilho, seu tirano, seu déspota. Em cada esfera social, eventualmente ocorre que pessoas detenham o poder, ditando normas que tornam restritiva a qualidade de vida do povo envolvido na situação. As muitas "máfias" foram registradas pela história da humanidade mostrando o quanto interesses de poucos (ou talvez de um só indivíduo) podem se impor sobre as necessidades da coletividade.

O rádio de Salvador tem seus dois principais chefões, o vice-prefeito nas duas gestões de Antônio Imbassahy, Marcos Medrado, e o ex-prefeito Mário Kértesz. Kértesz foi cria de ACM, nos tempos da ditadura, e Medrado uma figura populista surgida no subúrbio ferroviário. Juntos, os dois estão para o rádio baiano assim como o padrinho de ambos, Antônio Carlos Magalhães, está para a política do Estado da Bahia.

Kértesz e Medrado moldam um sistema radiofônico de acordo com seus interesses, criando um arremedo de "democracia" que não vai nada além das finalidades populistas, que é de tratar a miséria com um certo exotismo, com aparente indignação que no entanto só serve para promover a "valentia" de certos locutores. Eles moldam o rádio para que ele não se transforme num libertador do povo baiano, pelo contrário: mantendo os ouvintes submissos ou interagindo de acordo com as expectativas dos donos de rádio.

Graças aos dois, a segmentação do rádio de Salvador sempre é travada ou, na melhor das hipóteses, caricata. Os dois promovem a concentração do rádio FM sobre o rádio AM, e não é nada espantoso que exista sempre uma média de quatro FMs com algum programa que soe meio um arremedo grosseiro de "rádio AM", com locutor posando de "super-herói", achando que vai salvar a Bahia, comentaristas esportivos pedantes, metidos a citar frases filosóficas ou tratar o futebol de forma "científica" ou então comunicadores "irreverentes" que não sabem se são "jornalistas" ou "humoristas". Isso sem falar do tradicional predomínio da música carnavalesca para enriquecer donos de blocos (com suas mensalidades caríssimas) ou pretensos "produtores culturais", falsos "descobridores de talentos" que fabricam sobretudo grupos de pagode engraçadinho, dos iniciantes Dignow e Psirico ao veterano É O Tchan.

Quem quer rádio classe A que só toque jazz, blues, MPB e soft rock que agüente a gororoba da Globo FM, que se limita a requentar antigos sucessos internacionais de gosto duvidoso junto à disco music que não tem nada a ver com sua proposta teórica. E, junto a tudo isso, apenas o que há de mais manjado naquilo que realmente é classe A. Para ouvir um Caetano Veloso e um Eric Clapton, haja "I will survive" e "Lover why" para torrar a paciência.

Quem quer rádio de rock é obrigado a engolir as eventuais tentativas de rádios clubber, dessas que o pessoal chama de "poperó", de dance music, que de rock só tem a "vitrola", o repertório musical. Mas o QI dos locutores é terrível. Depois os defensores dessas "rádios rock" - inspiradas em modelos infelizes lançados por rádios como a 89 FM de São Paulo - ficam baixando a lenha em Britney Speaars e Backstreet Boys. O tal nu metal que as "rádios rock" tocam não vai nada longe disso. Rock de verdade, nessas rádios, só raramente ou, de preferência, nas altas horas da noite ou de madrugada.

Só poucas emissoras de rádio se salvam em Salvador. No rádio AM, as rádios Sociedade, Cultura e Excelsior continuam resistindo bravamente à tirania das FMs que brincam de ser "rádio AM" (o popular "AeMão" de FM) - das quais as estrelas mais recentes desse oba-oba são a Transamérica e a 104 FM, sem falar da Metrópole de Mário Kértesz e da Tropical Sat de Marcos Medrado - , com uma programação que, dentro das limitações de seus donos religiosos, mantém sua diversidade e autonomia. 

Das FMs, as rádios Nova FM (que por pouco não virou um "mega-AeMão" nas mãos do ultra-populista Jorge Kajuru) e Educadora - antes teve a Antena Um, que saiu do ar, dando lugar a uma ridícula emissora religiosa - conseguem brilhar mostrando música de qualidade, sem o pedantismo e as falhas da Globo FM e sem qualquer apelação. MPB na Nova FM é MPB mesmo, e não essas duplinhas "sertanejas", esses pagodeiros risonhos soltando barulho de sirene ou essa axé-music de arena que tenta arrastar multidões para um ritual de acefalia coletiva. E a Educadora FM, que já viveu uma fase bem brega anos atrás, brilha na ótima orientação do produtor e coordenador Perfilino Neto, que injeta cultura e informação (sem lero-lero nem muito blábláblá) para um público exigente e criterioso.

Fora isso, infelizmente, o rádio é só perdição. Engodo populista para iludir os pobres, enriquecer os donos de rádio e perpetuar o poder político na Bahia.

ALUGAM-SE OUVINTES

Um processo muito estranho ocorre com muitas FMs que possuem "sabor artificial" de "rádio AM". Principalmente na tal programação esportiva. Os programas, muitas vezes, e também as transmissões esportivas, quase sempre são respaldados pela poluição sonora de gente que circula pelas ruas ou estaciona em qualquer lugar, somente para bombardear a vizinhança com seus altíssimos decibéis.

Por que essa apelação toda? A resposta está no aluguel de ouvintes que essas FMs fazem. Geralmente amigos de produtores, ou então ouvintes mais entrosados com as rádios, que recebem uma gorjetinha da emissora para sintonizá-la em horários estratégicos. Nas transmissões esportivas, então, a coisa piora, e há lugares em Salvador que as quartas-feiras (dia onde mais ocorrem partidas de futebol com times baianos entre os dias úteis), onde ocorrem jogos durante a noite, em que o povo trabalhador é tomado pelo desrespeito de um carro com a transmissão esportiva da FM rolando (e enrolando). 

Há também botequins, barracos e mesmo taxistas e porteiros de prédio (estes dois com menor freqüência; já cometeram abusos maiores nessa sintonia "amiga") que contribuem para essa poluição sonora em que o ouvinte em questão não liga o rádio para ele mesmo, e sim para os outros, em especial os que não querem ouvir essa emissora. Depois essas FMs falam em "cidadania", depois de estimular um "hábito saudável" como esse.

O mais curioso disso é que, em muitos casos, os ouvintes que sintonizam essas FMs são os que menos prestam atenção ao que está sendo transmitido, fazendo cara de quem está de bobeira, esperando uma periguete para dar uma "cantada". Nos casos de debates esportivos, por exemplo, eles apreendem pouca coisa, geralmente só quando rola muita polêmica.

Muitas rádios fizeram isso. A Salvador FM, a Band FM, a Jovem Pan FM de Salvador, a Transamérica (cujos locutores já cometeram o asneirol de pedir aos ouvintes que liguem a TV e o rádio ao mesmo tempo, baixando o volume da TV para colocar o da rádio no lugar, estimulando o desperdício de energia elétrica), já vieram com seus "ouvintes" promovendo poluição sonora sob o silêncio das autoridades e da imprensa, que acha que "poluição sonora" se limita aos shows musicais (geralmente axé-music e pagode) realizados perto de hospitais, aos ensaios musicais nos bairros populares ou a cultos religiosos realizados com ampla aparelhagem sonora. Transmissão esportiva em altíssimo volume, com a voz do locutor soando nos nossos ouvidos que nem zumbido de marimbondo? Não adianta nem reclamar, porque isso, para nossa pobre imprensa baiana, não é "poluição sonora". É "cidadania". Durma-se com um barulho desses.

Os "ouvintes de aluguel" explicam bem por que os coordenadores dessas FMs com roupagem de AM ficam tão tranqüilos e otimistas quando seus programas perdem audiência. Como no caso da Transamérica e Itaparica FM, que levaram porrada do Ibope no Brasileirão 2003. É porque audiência não importa nada. Afinal, para que ter mais audiência se é muito fácil forjar uma "grande audiência" num Estado como a Bahia? Durma-se com uma "jornada esportiva" dessas!

 

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