Atualidades da Dra. Carla de J. Rodrigues, 11 de novembro de 2002:

Tecnologia insere deficientes no mercado de trabalho

por Ricardo P. Cesar

David Blunkett, ministro de assuntos internos do Reino Unido, considerado uma das pessoas mais influentes do governo de Tony Blair, é cego de nascença. Isso não o impede de exercer o cargo de enorme responsabilidade e ter uma visão do jogo político que alcança bem mais longe que a média. Mas a deficiência foi, sem dúvida, um obstáculo a mais para Blunkett conseguir chegar onde está hoje. Uma vez questionado se existe algum benefício em ser cego, o ministro brincou consigo mesmo. "Ser capaz de ler na cama com a luz apagada", ironizou.

Se não chega a ser vantagem, ter algum tipo de limitação física está deixando de ser desvantagem na hora de ingressar no mercado de trabalho. Blunkett, que é tão bem resolvido com seu problema que até faz piadas a respeito, é um exemplo de como a tecnologia pode ajudar a inserir pessoas com deficiências na arena profissional - e, por extensão, em uma vida independente. O político inglês usa um software que converte os documentos que precisa para a linguagem Braille.

E não se trata de um luxo exclusivo para figurões de países de Primeiro Mundo. Embora ainda sejam caras, as tecnologias para ajudar deficientes a exercer atividades profissionais não são mais completas estranhas a algumas empresas brasileiras. Verdade que ainda estamos falando de um grupo restrito de companhias que representam antes a exceção do que a regra. Em um país com 24,5 milhões de portadores de deficiências físicas e mentais, segundo números levantados no último censo demográfico realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), seria preciso muito mais.

Mas a situação está bem melhor do que há três décadas, quando Domingos Sessa Neto, então com 23 anos, ficou cego. Na época, resolveu que estudaria processamento de dados. Não havia cursos nessa área para deficientes visuais, mas depois de bater em muitas portas encontrou quem se dispusesse a ensiná-lo. Em quatro semanas desenvolveu um programa simples sozinho.

Trabalhando atualmente como analista supervisor de informática do banco Itaú, um cargo de responsabilidade, Sessa Neto reconhece as amplas possibilidades profissionais que a tecnologia abriu para os portadores de deficiências. "Antes tudo era muito difícil", lembra. Hoje o analista usa um "display" em Braille, dispositivo com aparência de uma pequena caixa com pouco mais de um palmo de comprimento por outro de altura que transforma em Braille todo o texto que está na tela dos PCs. O preço deste equipamento: cerca de 3.500 dólares. O banco achou que valia a pena investir. Não se arrependeu.

As empresas começam a se conscientizar e a tecnologia necessária para colocar pessoas com deficiências no mercado de trabalho está disponível. Mas, na opinião de Sessa Neto, há um elo quebrado na corrente. No Brasil, ainda falta treinamento para capacitar os deficientes a usar essas ferramentas e desenvolver habilidades profissionais. Sem isso, o ciclo de inclusão profissional não fecha.

Fim ao preconceito

Um deficiente físico pode até trabalhar em uma empresa - fato que ficou mais fácil com a lei 7.853/89, que prevê multas para companhias com mais de cem empregados que não contratam pessoas portadoras de deficiências. A probabilidade de não conseguir sucesso profissional, no entanto, é maior do que deveria ser. Culpa da falta de treinamento.

Quem tenta reverter esse quadro são entidades como a Fundação Dorina Nowill, que conta com programas para orientar o deficiente visual na descoberta de suas habilidades, escolha de uma profissão e obtenção de postos de trabalho. A entidade realiza treinamento de habilidades, testes em empresas e cursos de introdução ao uso do computador com utilização de software especiais, que usam recursos de voz para ler o que está sendo digitado.

Outra entidade que se apóia na tecnologia para inserir deficientes no mercado de trabalho é a Rede Solidariedade, Apoio, Comunicação e Informação (Saci). No Web site www.saci.org.br estão disponíveis dois software para download gratuito, um deles voltado para pessoas com deficiência visual (lê textos na tela do computador) e outro para deficientes motores graves (conta com um teclado virtual, na tela do computador, que pode ser acionado por meio de movimentos em qualquer parte do corpo). O suporte técnico via telefone - feito por três pessoas com deficiência visual - também é gratuito. "Temos recebido demanda de empresas que querem saber o que podem fazer para incluir pessoas com deficiências", conta Marta Gil, coordenadora da Rede Saci. "Quando eu era menina, cego, quando muito, vendia vassoura. Hoje a tecnologia ajuda a colocar essas pessoas em um amplo mercado de trabalho."

Existem programas mais sofisticados do que os oferecidos pela Rede Saci. É o caso do Virtual Vision, que em sua nova versão 4.0 conta com sintetizador de voz em vários idiomas. Não importa se o texto que aparece na tela do computador está em português, inglês, espanhol ou outras línguas, o produto lê a mensagem para o usuário. Com preço estimado em 1.500 reais, o software possibilita aos deficientes visuais usar o computador em ambiente Windows com total autonomia. O Virtual Vision também permite navegar na internet, lendo textos, menus e até descrevendo as imagens, embora para isso seja necessário que o programador da página tenha inserido as descrições no código HTML.

O produto foi pensado para ser utilizado por empresas. Entre outras coisas, o programa lê as funções dos campos de preenchimento de dados - nome, endereço etc. - o que é interessante para funcionários de telemarketing, por exemplo. O Virtual Vision pode ser obtido gratuitamente para pessoas físicas, graças a uma parceria entre a Micropower, empresa nacional que desenvolve o software, e a Fundação Bradesco, que doa o programa e licença de uso para a vida inteira para quem é correntista do banco.

Apenas 5 mil pessoas usam o produto no Brasil. A quantidade é muito modesta se considerarmos que o total de deficientes visuais no país é de cerca de 2,5 milhões de pessoas segundo dados do IBGE, número que salta para mais de 16,5 milhões se considerarmos também os portadores de deficiências visuais leves. Por que tão pouca gente se beneficia do programa? Além do custo, esse dado reflete a falta de conscientização que ainda reina entre os empresários brasileiros. "O software dá totais condições de trabalho para pessoas com deficiência visual. O que falta é uma sensibilização por parte dos empresários", afirma o presidente da Micropower, Francisco Soeltl. "Está na hora do empresariado acordar, deficientes são pessoas normais que só precisam de oportunidade."

O Virtual Vision é inspirado no norte-americano Jaws, software de leitura de telas da Freedom Scientific que é um best-seller mundial, com mais de 78 mil usuários, cerca de um terço deles fora dos Estados Unidos. Criado em 1987, o produto só podia ser adquirido no Brasil por meio de importação direta, o que deixava o preço bem salgado: mais de 2.500 dólares para a versão doméstica, a mais simples.

A partir de setembro, a Laratec, divisão de tecnologia da fundação Laramara para deficientes visuais, será distribuidora oficial do produto no Brasil. Com isso, o Jaws será traduzido para o português e seu preço deve cair para cerca de 1.500 dólares. A idéia é fisgar o cliente corporativo. Quanto mais licenças forem compradas, proporcionalmente mais barato sairá o produto. "Sem o Jaws eu não teria condições de trabalhar", diz Ubiratã Fernando Silva, técnico em comercialização da Laratec, ele próprio um deficiente visual.
"Utilizando o Jaws, uma pessoa cega pode realizar praticamente qualquer trabalho no computador", afirma Scott Meyers, diretor de marketing da Freedom Scientific. Segundo o executivo, a Lei para Americanos com Deficiências obriga as empresas dos Estados Unidos a contratar pessoas com limitações físicas, o que abriu um vasto campo de trabalho para cegos no país. Meyers cita gigantes como a Microsoft, IBM, Marriott, American Airlines, United Airlines, Bank of America, Wells Fargo, entre outras, como exemplos de corporações que empregam deficientes.

Em relação ao custo do produto, Meyers argumenta que todo funcionário acarreta uma despesa para a companhia em equipamentos como mesa, cadeira, telefone, computador e luz. Em sua opinião, arcar com gastos é normal e as empresas devem se focar nas qualificações do profissional ao invés dos custos dos equipamentos envolvidos. "Muitos cegos podem realizar tarefas no computador melhor do que pessoas que enxergam normalmente", diz. "Enquanto as empresas se focarem na deficiência visual antes de considerar a habilidade dos funcionários, pessoas cegas sofrerão discriminação desnecessariamente."

Superando desafios

Outra ajuda para deficientes visuais vem de empresas como a Text to Speach (TT&S), especializada em reconhecimento de voz, que tem no mercado nacional os sistemas Open Vox e Wap Vox. As soluções permitem o envio de e-mail via comando de voz e também o recebimento das mensagens em forma de voz. Os produtos, que são vendidos para operadoras de telecomunicações, como a Telemig Celular, não foram desenvolvidos para portadores de deficiências, mas acabam beneficiando-os. "O WAP Vox é ideal para ajudar pessoas com deficiência visual, pois não depende de nada além da voz para efetuar comandos", afirma Paulo Godoy, diretor de marketing da TT&S.

Não é preciso ir longe para encontrar programas voltados para portadores de deficiências. O próprio Windows, que está em nove de cada dez PCs, possui um "assistente de acessibilidade", que fica disponível se ativado durante a instalação do sistema operacional da Microsoft, embora possa ser adicionado posteriormente. As opções de acessibilidade também podem ser configuradas por administradores de redes, para serem usadas por vários micros. Para pessoas com problemas de visão, é possível modificar avisos visuais para sonoros. Para aquelas com dificuldades motoras, pode-se escolher a maneira pela qual o sistema reagirá a certas combinações de teclas e também ajustar a velocidade do mouse.

Além dos software, existem alguns hardware que ajudam pessoas com deficiências a realizar atividades profissionais, como as impressoras em Braille. Entre as principais fabricantes estão a Enabling Technologies (norte-americana) e a Index (sueca). Esses equipamentos imprimem direto no sistema Braille e também podem ser ligados a uma impressora convencional para que sejam impressas duas cópias de cada documento - uma em Braille e outra convencional - com apenas um comando de impressão.

Embora representem uma ferramenta importante para inserir deficientes visuais no mercado de trabalho, as impressoras em Braille têm um preço que as tornam uma utopia para a maior parte das pessoas. Um modelo doméstico sai por cerca de 4 mil dólares. Se a impressora for profissional, o custo pode subir mais de dez vezes. A principal vantagem das profissionais é a velocidade de impressão: 600 caracteres por segundo, contra 40 dos modelos mais simples.

A Fundação Dorina Nowill possui oito impressoras, sendo que quatro utilizam o recurso da impressão em chapa de alumínio, um sistema mais barato. Por conseguir uma série de isenções de impostos, a fundação compra os equipamentos por cerca de 8 mil a 10 mil reais, cada. Existem outras companhias que utilizam esses hardware no Brasil, mas, considerando os custos envolvidos, fica difícil imaginar uma adoção em larga escala. "Realmente é necessário um gasto extra por parte das empresas", reconhece Minoro Nagahashi, responsável pela área de informática da fundação.

O mercado de deficientes visuais envolve ainda outros recursos. É possível, por exemplo, utilizar um teclado convencional que faz os caracteres aparecerem em Braille à medida que o texto é digitado. Para as pessoas com visão baixa (enxergam muito pouco), existem equipamentos semelhantes a um microscópio eletrônico, como o Tele Sensory. Com aparência de uma televisão, eles ampliam textos até um tamanho que o deficiente visual consiga ler.

O próprio Nagahashi, que tem visão baixa desde os nove anos de idade, quando teve glaucoma, beneficia-se desses dispositivos. Funcionário da fundação há 13 anos, hoje é responsável pelo departamento de informática que atende aos quase 80 funcionários da entidade. "Quando comecei a trabalhar existia um modelo ou dois de impressoras em Braille. Hoje temos até mesmo impressoras portáteis", afirma. "Mas o preço ainda é um fator limitante. Como existem poucos consumidores, o custo de produção sobe muito."

Quem trabalha com portadores de limitações físicas - caso da Copel, distribuidora de energia que emprega cerca de 150 pessoas com deficiência em seu call center, ou da RM Sistemas, que abriu espaço para deficientes em seus cursos profissionalizantes - afirma que eles costumam ser mais dedicados e fiéis a quem os contrata e menos sujeitos a distrações quando estão exercendo suas atividades. Além, claro, de serem tão inteligentes e capazes quanto qualquer um. Nenhum empresário pode se dar ao luxo de dispensar essa mão-de-obra, ainda mais agora, quando a tecnologia necessária para colocar portadores de deficiências em múltiplas funções está amplamente disponível. Só não vê essa oportunidade quem não quer.

População brasileira, segundo o tipo de deficiência (em milhões)

Mental permanente 2,8
Física 1,4
Visual 16,5
Auditiva 5,7
Motora 7,8
Total 24,5
   

Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2000Obs: a soma de cada item individual é maior que o total pois há pessoas com mais de um tipo destas deficiências

Conheça as principais tecnologias disponíveis para pessoas com dificuldade visual:
Ampliadores de telas: funcionam como uma lente de aumento na tela do computador. Alguns modelos têm recursos de zoom in e out em uma área particular da tela.

Sistemas de reconhecimento de voz: permitem que as pessoas realizem tarefas ou entrem dados no sistema usando apenas a voz, em vez de um mouse ou um teclado. Esses sistemas usam um microfone ligado ao PC que pode ser empregado para criar documentos de texto como e-mails ou obter informações, inclusive na internet.

Sintetizadores de voz: recebem informações que aparecem na tela do computador e "falam", em alto e bom som, cada um dos elementos. Também podem ser usados por pessoas com problemas de fala, incapazes de se comunicar oralmente. Programas desse tipo transformam uma interface gráfica em uma interface de áudio.

Display de Braille: um dispositivo que exibe de forma tátil (levanta e abaixa pinos em um mostrador) informações que estão na tela do computador valendo-se do sistema de linguagem Braille.
Impressoras em Braille: imprimem textos em Braille.

Universidades estão na fronteira do desenvolvimento de aplicações tecnológicas

As universidades nacionais vêm desempenhando um bom papel no desenvolvimento de tecnologias para pessoas com deficiências físicas - algo especialmente importante pelo fato de o interesse comercial nesse nicho ser pequeno. A Universidade de São Paulo (USP), entre outras iniciativas, apóia a Rede Saci. O próprio escritório da entidade fica no campus da USP.

Já a Universidade São Marcos lançou a campanha "Doe um Capítulo", um programa que pretende mobilizar voluntários para digitar livros que fazem parte das bibliografias básicas dos cursos oferecidos pela instituição. O objetivo é tornar o conteúdo dos cursos acessíveis aos deficientes visuais por meio do computador. O material ficará disponível na rede da universidade e poderá ser acessado por meio de um software que lê o material para deficientes visuais.

Talvez a instituição de ensino superior com mais forte atuação no desenvolvimento de tecnologias para deficientes seja a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por meio de seu Núcleo de Computação Eletrônica (NCE). A UFRJ já lançou no mercado produtos como o software leitor de tela "Dos Vox" e o "Teclado Amigo", especialmente projetado para deficientes motores graves.

A última novidade a sair do NCE foi o Motrix, um programa que possibilita a tetraplégicos utilizar computadores pessoais, inclusive a internet. O software permite controlar o mouse e o teclado unicamente por voz, o que inclui digitar textos apenas soletrando. Dessa forma o tetraplégico pode usar o PC com boa desenvoltura. "O nosso objetivo foi levar o uso de computadores para deficientes motores graves, fazendo com que essas pessoas possam inclusive trabalhar ou estudar", afirma José Antônio dos Santos Borges, responsável pelo projeto.

Conheça as principais tecnologias disponíveis para pessoas com dificuldade motora:
Teclados virtuais: fornecem a imagem de um teclado na tela do computador. O usuário escolhe a tecla com um mouse (que pode ser adaptado), um joystick, tela sensível a toques ou outros métodos que se ajustem à sua capacidade motora.

Filtros de teclado: incluem ajudas para digitar, como capacidade de prever palavras (como
acontece com a URL de um Web site em alguns browsers) e programas que checam e corrigem automaticamente a grafia.

Telas sensíveis ao toque: dispositivos acoplados ao monitor que permitem ativar os componentes de um programa apenas tocando na tela. Esses dispositivos ajudam algumas pessoas com problemas motores que têm mais facilidade de selecionar uma opção direto na tela em vez de usar mouse ou teclado.

Hardware alternativos: neste grupo estão os teclados alternativos, com teclas maiores ou menores do que o convencional ou adaptados para uso com apenas uma mão; aparelhos para controlar o cursor na tela usando recursos ultra-sensíveis como movimento dos olhos, sinais nervosos etc.; joysticks que podem ser controlados por qualquer parte do corpo do usuário que se movimente e "trackballs", bolas que rolam sobre uma plataforma e que são usadas para mover o cursor na tela.

 

Fonte: http://www.businessstandard.com.br/bs/tecnologia/2002/09/0001

 

Dra. Carla de J. Rodrigues; Fisiopediatria - Pesquisa em Saúde Infantil, São Paulo/SP, Brasil.
Contato: cax_fisio@yahoo.com, bip (0xx11) 3444-4545 cod. 154661.

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