INTRODUÇÃO
A Síndrome de Guyon é uma neuropatia compressiva do nervo ulnar.
Rara e pouco escrita na literatura, porém de importância clinica
pelos distúrbios funcionais e sensitivos que provoca. É causada
por qualquer alteração que leve a um estreitamento do espaço ocupado
pelo nervo. Alterações estas variadas, desde congênitas, até relacionadas
ao trabalho.
SÍNDROME DO CANAL DE
GUYON
Definição
É a compressão do nervo ulnar, ao nível do punho, quando ele passa
através do túnel ulnar ou canal de Guyon, em torno do osso pisiforme.
Sendo bem menos freqüente que a compressão do nervo mediano; a
síndrome no está tão bem estudada. A sintomatologia consiste em
disestesias, dor, fraqueza e hipotrofia muscular, sensação de
frio e intolerância ao calor distribuídos na margem ulnar da mão.
Anatomia
O nervo ulnar possui uma anatomia complexa ao nível do antebraço
e punho. Localiza-se junto com a artéria ulnar, sob o músculo
flexor ulnar do carpo (FLC). Dá um ramo sensitivo a 5-8 cm proximal
ao punho (responsável pela sensibilidade dorsal do lado ulnar
da mão). No punho, a artéria e o nervo ulnar passam pelo canal
de Guyon, que possui três limites: SUPERIOR (ligamento volar do
carpo e inserções tendinosas do flexor ulnar do carpo); LATERAL
(gancho do hamato); e MEDIAL (osso pisiforme e ligamento piso-hamato).
Por conseguinte, o nervo e a artéria ocupam um leito relativamente
superficial. Ao nível do canal de Guyon, o nervo ulnar se divide
em ramo sensitivo (dirige-se ao dedo mínimo e ao lado ulnar do
anelar) e ramo motor (inervará os músculos intrínsecos da mão).
Para ser mais didático podemos sistematizar esta anatomia da seguinte
maneira: o nervo ulnar origina dois ramos, um dorsal (sensitivo)
e um palmar (misto), superficiais e profundos. O ramo palmar passa
pelo canal de Guyon juntamente com a artéria ulnar. Ele se divide
em ramo superficial (sensitivo) e profundo (motor puro). Assim,
o componente dorsal não é afetado na síndrome do canal de Guyon.
O ramo profundo (motor) inerva os músculos hipotenares, 3 e 4
lumbricais, os interósseos e adutor do polegar. Desta forma, a
compressão do ramo superficial originará sintomas sensitivos,
enquanto o ramo profundo originará sintomas motores.
Causas de origem não-ocupacional
a) Traumatismo - as contusões sobre a região hipotenar com ou
sem fratura podem afetar o nervo ulnar. Porém, está descrito também
compressão nervosa pós-trauma devido a hemorragia, edema ou tecido
cicatricial (Gore, 1971).
b) Processo expansivo tipo lipoma e cisto (Grantham, 1966).
c) Tumefação edematosa no canal devido artrite ou osteoartrite
(Spinner, 1972).
d) Alterações congênitas - músculos e 05505 anormais no interior
do canal, que são responsáveis por compressão no nervo ulnar (Uriburu
e cols, 1976).
e) Trombose da artéria ulnar - pode ser uma lesão causada por
traumatismo na eminência hipotenar ou devido a aneurismas ou trombose
desta artéria que levam à compressão nervosa (Milender e cols,
1972).
Causas de origem ocupacional
a) Uso de ferramentas, instrumentos de trabalho ou atividades
que comprimam mecanicamente a base da mão.
b) Vibração.
c) Movimentos repetitivos com força associada - instrumentos de
trabalho (ferramentas, etc.) ou atividades que exijam compressão
da base da mão podem determinar lesões, principalmente do ramo
palmar (motor) do nervo ulnar. Estas podem ser agravadas se associadas
a força e movimentos repetitivos.
Quadro clínico
* Anamnese ocupacional
Descrever na anamnese ocupacional as atividades relacionadas e
os instrumentos de trabalho para relacionar possível nexo com
a ocupação.
* Sintomas
Queixas de alteração de sensibilidade no
4º e 5º dedo com ou sem presença marcante de dor e hipoestesia.
Alterações de força e dificuldades de mobilidade da mão (intrínsecos).
Força de preensão e pinça diminuídas.
Fraqueza e hipotrofia muscular, sensação de frio e intolerância
ao calor distribuídos na margem ulnar da mão.
* Exame clínico
Ao exame objetivo encontram-se hipo ou anestesia no território
acima referido e atrofia muscular; o teste de Tinel e o de Phalen
podem ser positivos (ver síndrome do Túnel Carpiano). O diagnóstico
pode ser auxiliado por teste eletrofisiológico.
Alteração de sensibilidade em dois pontos de discriminação (2PD)
na área do ulnar.
Digito-percussão positiva sobre o nervo ulnar.
Hipotrofia dos músculos intrínsecos da mão.
Teste de Tinel e de Phalen pode desencadear os sintomas, já que
também diminuiu o espaço dentro do canal de Guyon.
* Alterações e transtornos secundários à perda das funções
do nervo ulnar
Os transtornos funcionais ocorridos após uma lesão do nervo ulnar
dependem em muito da gravidade da lesão, das variações da distribuição
motora e sensitiva das fibras do nervo ulnar e da forma com que
os músculos normais podem compensar a perda da função ocorrida
pela lesão do nervo referido. Em uma série de 56 casos, com queixas
subjetiva mínimas de dormência e formigamento, que levantaram
a suspeita de síndrome do túnel ulnar sem sinais objetivos definidos,
encontram-se alterações em 60% dos casos; em indivíduos-controle
as alterações surgiram em 25% e em 34 casos com quadro clínico
muito sugestivo da síndrome do túnel ulnar as alterações estiveram
presentes em 91% dos casos. As alterações eletrofisiológicas mais
exuberantes nessas séries foram:
a - Redução da velocidade de condução através do cotovelo igual
ou superior a 10 metros por segundo, quando se comparavam as velocidades
abaixo e acima do cotovelo;
b - Potencial sensitivo de ação ausente no punho;
c - Latência motora distal com estimulo, acima do cotovelo, superior
a 8,75 milisegundos.
- Deformidade: a deformidade clássica do nervo ulnar é
a "mão em garra". Deve-se à perda da capacidade de flexão das
metacarpofalangeanas e extensão das interfalangeanas, além da
disfunção do 3 e 4 lumbricais - todas estas funções executadas
pelo nervo ulnar.
- Hipotrofia: Está relacionada ao território do nervo,
principalmente no que se refere à eminência hipotenar e músculos
interósseos. A mão fica fina, o que é facilmente observado junto
ao músculo primeiro interósseo dorsal.
- Incapacidade motora: Lesão do nervo ulnar resulta em
alteração da capacidade de preensão da mão a médio e longo prazo.
- Sensibilidade: a área de sensibilidade alterada varia
em função da distribuição dos ramos cutâneos do nervo ulnar, porém
na maioria dos casos afeta a parte palmar de todo o dedo mínimo,
e lado ulnar do anelar e dorsal ulnar da mão.
- Transtornos vasomotores, secretores e atróficos: os ramos
cutâneos do nervo ulnar transportam fibras vasomotoras e sudoríparas
da pele. A pele da área do cotovelo fica adelgaçada com aumento
da sudorese.
Investigação
* Fletromiografia
* Rx, Tomografia Computadorizada (afastar da base do gancho do
Hamato).
* Provas laboratoriais.
Tratamento
Conservador / Fisioterapêutico
O tratamento conservador é aplicado inicialmente com o MNF, corticóide
de depósito e vitamina B6. Se necessário, com reabilitação profissional.
Nos casos em que houver nítida relação da atividade habitual com
o desencadeamento dos sintomas. O repouso é fundamental e em algumas
ocasiões é indicada imobilização com tala de velcro. Em geral,
as lesões causadas por traumatismo ou por doença ocupacional melhoram
quando mantido o repouso e afastadas as causas desencadeadoras.
Caso haja uma patologia orgânica associada, esta deve ser tratada.
Cirúrgico
A descompressão cirúrgica do canal de Guyon é procedimento indicado
quando houver persistência dos sintomas, após 3 meses de tratamento
conservador. A cirurgia é ambulatorial, sob bloqueio anestésico
axilar ou mesmo do cotovelo; realiza-se a abertura do canal e
microneurose, quando indicada. A morbidade é mínima, o retorno
ao trabalho é rápido, e a resolução do problema é definitivo.
Conduta ocupacional e prevenção
Estabelecida a relação da patologia com a atividade profissional,
deve ser solicitada a emissão de CAT. O trabalhador deverá ser
recolocado em outras funções que não exijam a mesma sobrecarga
muscular envolvida nas tarefas. Além disto, deve ser realizada
avaliação ergonômica com enfoque nos postos de trabalho, mudança
nas formas de realizar atividades e dos próprios instrumentos
de trabalho. As ferramentas ou instrumentos de trabalho devem
ser protegidas com plástico semi-deformável ou espuma. Atividades
com vibração devem ser evitadas sempre que possível. Trabalhos
na literatura relacionam atividades profissionais a estas patologias:
* Artífices de ouro ou polidores em outros metais (Hunt, 1930);
* Padeiros (Huet e Guilham, 1990);
* Maquinistas (Hunt, 1930);
* Sapateiros (Harris, 1926);
* Motociclistas e ciclistas (Lereboullet e Lindeux, 1942);
* Jardineiros e qualquer profissional que se utiliza de ferramentas,
como por exemplo um martelo (Russwel e Whitty, 1947);
* Operadores de cabos telefônicos (Bakke e Wolff 1948);
* Compressão sobre e eminência hipotenar durante o trabalho na
cozinha com uso de colheres (Maggee, 1955);
* Uso de martelos grandes e pesados, pressão no manejo de máquinas
de cortar metal, uso de polidores (Mumenthaler, 1958);
* Carpinteiros, mecânicos que utilizam a mão como martelo (Marinacci,
1968);
* Trabalhadores que se utilizam de equipamentos pneumáticos, moto-serra
(Couto, H, 1991).
CONCLUSÃO
A síndrome de Guyon é uma afecção de caráter limitante, pois impossibilita
o individuo de realizar às vezes tarefas simples do dia-a-dia.
Porém, é tratável, seja por métodos conservadores ou recorrendo
à cirurgia, sendo fundamental o papel do fisioterapeuta em ambos
os tratamentos, atuando no pré e pós-cirúrgico, para dar condições
de retorno o mais breve possível às atividades diárias.
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BSB
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