Te vejo tão pequena,
tão serena,
tão mulher.
Mulher inteira, total,
completamente feita,
sem faltar nem sobrar,
sem mais nem menos.
Mulher.
Serão teus olhos de mar?
Praias noturnas,
as tuas maresias interiores
a embriagar de amor o navegante?
Serão teus lábios de sal?
Ondas de carne fresca,
conchas de lua,
oceanos de delícias?
Serão teus seios apenas pressentidos
sob a capa cruel dos teus vestidos?
Tesouros submersos
que é preciso desvendar
e neles mergulhar
e naufragar e morrer?
Será teu sexo esplêndido, escondido?
Abismo silencioso e derradeiro,
teu lugar mais distante e mais presente,
onde estás e és quem és, infinda e bela,
misteriosa flor por onde emerges
eterna e insuperável,
inconfundivelmente mulher?
Ou serão simplesmente
estes meus olhos marinheiros,
ansiantes de portos, de cheganças,
pra encontrar onde o peito se aconchegue,
no repouso das grandes travessias?