A MINHA CAIXINHA
 
Na verdade, a gente só tinha nove anos, 
você nem lembra disso direito né? 
Eu era mais mocinha, 
a menina sempre é mais mocinha que o menino. 

Todo dia a gente ia lá naquela praça, 
você se juntava com os seus colegas pra jogar futebol, 
e eu fingia que ia pra ver minhas amiguinhas, 
mas na verdade eu gostava mesmo 
era de ver você correndo atrás da bola, 
eu achava que ninguém jogava como você, 
mas não dava o braço a torcer. 

Eu sempre arrumava um jeitinho 
de puxar a sua atenção pra mim quando o jogo acabava 
e a melhor maneira que eu encontrava pra fazer isso 
era levando a minha caixinha. 
Não era caixinha de segredos não, 
mas tinha umas certas confidências lá dentro 
que eu só deixava você ver. 

Eu ficava ali sentada no banquinho fazendo o maior charme 
e fingindo que nem tava ligando pra você, 
mas por dentro doida que o jogo acabasse 
e você viesse correndo me dizer: 
- Abre a caixinha? Deixa eu ver? 

E  você vinha, sempre vinha. 
Largava os amiguinhos depois do jogo 
e sentava do meu lado, bem juntinho e dizia 
- oi, abre a caixinha? 
Eu abria, e naquele momento era como se eu estivesse 
abrindo a porta do meu coração pra você. 

Se alguém chegava perto naquela hora eu falava 
- dá licença? é particular! ...
e ia te mostrando as minhas coisinhas 
como se fossem pedras preciosas. 

Lá dentro da caixinha 
tinha um pedaço de papel com o seu telefone 
que você um dia me deu, 
tinha baton sim,e era vermelhinho, 
tinha um reloginho enguiçado, mas eu gostava dele, 
tinha umas figurinhas 
de um álbum que parei de fazer pela metade, 
tinha uma florzinha, já tava seca, 
você tinha me dado no dia do meu aniversário. 
Lá tinha muita coisa , 
até um brinquinho quebrado 
que um dia você disse que ia consertar pra mim. 

Bom, mas de tudo que tinha na caixinha 
o que eu mais gostava era uma medalha 
que você ganhou um dia num campeonato sei lá de que...
acho que foi de cuspe a distância, 
era de papelão e você me pediu pra guardar pra você, 
porque estando na minha caixinha, você nunca perderia. 
Eu guardei, 
eu já achava até que ela era mais minha do que sua. 

Aí eu ia tirando tudo da caixinha 
e você ia olhando tudo com o maior interesse 
e eu adorava esse momento, rezava pra ele não acabar. 

Depois você me ajudava a colocar tudo lá dentro de novo, 
direitinho e depois me dizia tranca bem, 
pra ninguém roubar nada, tem coisa minha aí também. 

Eu trancava, 
depois você pendurava a chavinha no meu pescoço 
e me dizia meio dengoso 
- Amanhã você volta pra gente olhar de novo a caixinha? 
Eu querendo me fazer passar por difícil 
(imagina, naquela idade já sabia o que era isso) respondia: 
- Amanhã num sei se vou poder, acho que vou sair com minha mãe.

Aí você falava: 
- Tá, mas e depois de amanhã?  Vou ver, vou ver!... 

mas eu voltava.... eu sempre voltava, 
todos os dias, eu e minha caixinha 
e você sentava do meu ladinho depois do jogo, 
mesmo suado e a gente começava tudo de novo... 
é que a gente morava lá dentro e nem sabia disso. 

 

Silvana Duboc 
Enviado por Ana Maria - Novos Mensageiros