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GEOGRAFIA:

"O fato de me perceber no mundo, com o mundo e com os outros me põe numa posição em face do mundo que não é a de quem tem nada a ver com ele".

(Paulo Freire, Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa, p.60).

Conflitos étnicos, crimes, miséria, riqueza, fome, consumo, catástrofes naturais, genocídios, desastres ecológicos, crises econômicas e políticas, desemprego em massa, novas tecnologias – estes tempos de neoliberalismo e globalização, nos atingem cotidianamente. É tanta e tamanha a rapidez das informações que, muitas vezes, sentimos uma sensação de impotência diante da impossibilidade de compreender o que está acontecendo ao nosso redor e no mundo.

Nesse contexto, a maior parte das produções da mídia oferece uma visão descritiva, fragmentada e simplista dos fatos sociais, o que torna necessária e imprescindível uma leitura mais detida e articuladora desses fatos, e isso é possível através das ciências humanas e sociais, entre elas a Geografia.

Assim, "ensinar Geografia passa a ser problematizar o mundo mais do que ’explicá-lo’ de forma unilateral". Através da Geografia, o estudante deverá compreender o desenvolvimento da sociedade como o processo de ocupação de espaços físicos e as relações

da vida humana com a paisagem, em seus desdobramentos políticos, sociais, culturais, econômicos. O ensino da disciplina deve, portanto, contribuir para que o aluno possa compreender melhor o frenético e fascinante mundo em que vive e sentir-se estimulado a intervir solidariamente na realidade em construção, com a disposição de constituir-se num agente da transformação social.

É esta concepção que a disciplina busca desenvolver no ensino médio, procurando estimular o pensamento crítico e a capacidade de analisar a realidade do mundo contemporâneo na associação entre o meio ambiente, a sociedade e as estruturas políticas e econômicas atuais. Assim, ao final do curso, o aluno deverá ter desenvolvido:

capacidade de relacionar, interpretar e analisar os fatos geográficos, permitindo uma visão crítica do mundo;

capacidade de analisar, interpretar e compreender os processos e as formas de produção e organização do espaço mundial e brasileiro;

capacidade de aprender a aprender, num processo contínuo de ampliação e aperfeiçoamento do conhecimento.

Durante o curso, em diferentes momentos e situações, serão desenvolvidas as seguintes atividades que configuram a estrutura do trabalho: aplicação de testes; avaliação de leituras e resumos de livros em duplas, trios ou grupos, a partir de leituras individuais marcadas previamente; interpretação de quadros, tabelas, gráficos e mapas; elaboração de quadros comparativos; desenvolvimento de tema discutido em sala de aula, envolvendo conteúdo específico e posicionamento pessoal; avaliações de assuntos específicos ao final das unidades de conteúdo; interpretações de textos; pesquisas (individuais e em equipes), elaboração e apresentação de seminários envolvendo recursos multimídia; redações, transposições de linguagem; leitura de jornais e revistas para a elaboração de jornal-mural na sala de aula; pesquisa na Internet.

Tudo isto exigirá do aluno as seguintes habilidades: ler, analisar e concluir textos, mapas, tabelas e gráficos; anotar e sistematizar informações ou dúvidas; aplicar conceitos básicos aprendidos; elaborar textos; dissertar hierarquizando idéias; pesquisar, coletar, organizar dados (identificando, descrevendo, comparando, classificando e concluindo); trabalhar em equipe; expressar oralmente suas idéias com clareza e objetividade; expor oralmente um assunto em público; respeitar opiniões divergentes; socializar a produção do conhecimento.

 


G E O G R A F I A:

 

Vem das palavras gregas "geo" e "graphos" significando respectivamente Terra e escrever. Geografia é o estudo científico da superfície da Terra com o objetivo de descrever e analisar a variação espacial de fenômenos físicos, biológicos e humanos que acontecem na superfície do globo terrestre.

A superfície da Terra é a camada do planeta de contato e inter-relacionamento entre a Atmosfera, Biosfera, Hidrosfera e Litosfera. Esta camada permite através de seu equilíbrio natural o surgimento de minerais, água, solos diferentes, vida animal, vida vegetal e uma série quase infinita de outros acontecimentos que tendem a mudar com o tempo. É de essencial importância para a geografia o estudo destes fenômenos no espaço, no tempo, seu inter-relacionamento e agrupamento em padrões e funções.

Surgida na Grécia antiga o estudo da superfície da Terra se perdeu no mundo cristão junto com o conhecimento grego na Idade Média, ressurgindo com o renascimento e os grandes exploradores do século XIV e XV. Dadas todas as possibilidades de estudo, a geografia é hoje uma disciplina extremamente complexa e está dividida em inúmeras áreas especializadas:

Geografia Social - estuda a mudança na distribuição espacial de pessoas e sua atividades, além da interação destas com seu ambiente. A geografia social empresta muito das ciências sociais, mas é especialmente preocupada com descrições e análises de distribuição espacial.

  • Geografia Política

  • Geografia Econômica

  • Geografia Cultural

  • Geografia Urbana

Geografia Física - estuda as condições naturais e seus processos como ocorrem na superfície da Terra, as formas espaciais resultantes são objeto de várias subdisciplinas :

  • Climatologia

  • Biogeografia

  • Geomorfologia

 

PEQUENA HISTÓRIA DA GEOGRAFIA:

Considerada por alguns como uma das mais antigas disciplinas acadêmicas, a geografia surgiu na Antiga Grécia, sendo no começo chamada de história natural ou filosofia natural.

Grande parte do mundo ocidental conhecido era dominada pelos gregos, em especial o leste do Mediterrâneo. Sempre interessados em descobrir novos territórios de domínio e atuação comercial, era fundamental que conhecessem o ambiente físico e os fenômenos naturais. O céu claro do Mediterrâneo facilitava a vida dos navegantes gregos, sempre atentos às características dos ventos, importantes para sua navegação em termos de velocidade e segurança. Sobre tais experiências, os gregos deixaram para as futuras gerações escritos que contavam a sua vivência geográfica. Estudos feitos acerca do rio Nilo, no Egito, detalhavam, entre outras coisas, seu período de cheia anual.

No século IV a.C., os gregos observavam o planeta como um todo. Através de estudos filosóficos e observações astronômicas, Aristóteles foi o primeiro a receber crédito ao conceituar a Terra como uma esfera. Em sua especulação sobre o formato da Terra, Strabo acabou escrevendo um obra de 17 volumes, 'Geographicae', onde descrevia suas próprias experiências do mundo - da Galícia e Bretanha para a Índia, e do Mar Negro à Etiópia. Apesar de alguns erros e omissões em sua obra, Strabo acabou tornando-se o pai de geografia regional.

Com o colapso do Império Romano, os grandes herdeiros da geografia grega foram os árabes. Muitos trabalhos foram traduzidos do grego para o árabe. Ocorreram, no entanto, a partir daí, algumas regressões: após o ano de 900 d.C., as indicações de latitude e longitude já não apareciam mais nos mapas. De todo modo, os árabes acabaram recuperando e aprofundando o estudo da geografia, e já no século XII, Al-Idrisi apresentaria um sofisticado sistema de classificação climática. Em suas viagens à África e à Ásia, outro explorador árabe, Ibn Battuta, encontrou a evidência concreta de que, ao contrário do que afirmara Aristóteles, as regiões quentes do mundo eram perfeitamente habitáveis.

Já no século XV, viajantes como Bartolomeu Dias e Cristóvão Colombo redescobririam o interesse pela exploração, pela descrição geográfica e pelo mapeamento. A confirmação do formato global da Terra veio quinze anos mais tarde, em uma viagem de circunavegação realizada pelo navegador português Fernando Magalhães, permitindo uma maior precisão das medidas e observações.

Grandes nomes se empenharam no estudo das várias áreas da geografia. A geografia social, por exemplo, recebeu a dedicação de nomes como Goethe, Kant, e Montesquieu, preocupados em estabelecer em seu estudo a relação entre a humanidade e o meio ambiente. A geografia recebeu novas subdivisões, entre as quais, a geografia antropológica e a geografia política.

Por volta do século XIX, surgia a Escola Alemã, apresentando o determinismo, que suportava a idéia de que o clima era capaz de estimular ou não a força física e o desenvolvimento intelectual das pessoas. Assim, afirmava que nas zonas temperadas a civilização teria um desenvolvimento mais elevado do que nas quentes e úmidas zonas tropicais. Já nos anos 30, a Escola Francesa lançava o possibilismo, que afirmava que as pessoas poderiam determinar seu desenvolvimento a partir de seu ambiente físico, ou seja, sua escolha, determinaria a extensão de seu avanço cultural.

Chegaram os anos 60 com todas as suas revoluções, e o desejo de fazer da geografia um estudo mais científico, mais aceito como disciplina, levaram à adoção da estatística como recurso de apoio. No final da década, duas novas técnicas de suma importância para a geografia começavam a ser desenvolvidas: o computador eletrônico e o satélite, dando nova ênfase à disciplina.

STRABO

(n.c. 63 a.C. - m.c. 24 d.C.)

Geógrafo e historiador grego, nasceu em Amaseia, Pontus (agora Amasya, Turquia). Strabo começou seus estudos com Aristodemus e em 44 a.C. foi para Roma estudar com Tyrannion, ex-professor de Cícero. Antes de deixar Roma ele concluiu sua monumental obra de 43 volumes intitulada 'Esboço Histórico' da qual só sobraram pedaços. Em 31 a.C. Strabo começou suas viagens na Europa, Ásia e África, tendo viajado quase todo o mundo conhecido da época, ele voltou a Roma em 17 d.C. e escreveu seu mais importante trabalho de 17 volumes intitulado 'Geographicae' (ou Geografia). Esta foi a primeira vez que surgiu a palavra Geografia. Os volumes parecem mais o que hoje conhecemos como guias e eram escritos para uso militar. Esta obra é o principal documento daquela época conservado inteiro (com exceção de partes do volume sete) até os dias de hoje.

 

ERATOSTHENES

(n.c. 276 a.C. - m.c. 196 a.C.)

Matemático, astrônomo, geógrafo e poeta grego, nasceu em Cyrene (agora Shahhat, Líbia). Em 240 a.C. ele se tornou bibliotecário-chefe da Biblioteca de Alexandria, ficando responsável na sua época pelo maior acervo sobre o conhecimento humano até sua data. Eratosthenes é mais conhecido hoje pelo seu preciso cálculo da circunferência da Terra (erro de menos de 5%) numa época aonde não se acreditava que a Terra seria redonda. Para chegar a tais cálculos Eratosthenes empregou seus conhecimentos de astronomia para determinar a latitude de Assuã e Alexandria no Egito, e mediu a distância entre elas, tendo notado que a imagem da sombra de uma torre de igual altura em Aswan e Alexandria tinha diferentes comprimentos numa mesma hora do dia, ele chegou a conclusão que a Terra era redonda e calculou com seus dados a sua circunferência. O seu mais importante trabalho foi um tratado sistemático sobre geografia; após ficar cego com quase 80 anos se suicidou por inanição.

PTOLOMEU

(também Claudius Ptolomaeus)

(c. 100-70 d.C.)

Astrônomo e matemático grego, viveu em Alexandria, Egito e era cidadão romano. Seu primeiro trabalho e o mais importante foi o 'Almagesti' (Grande Obra), traduzido para o árabe 500 anos depois. Nesta obra ele propunha o sistema de geocentrismo o qual descrevia a Terra no centro do universo com o sol, planetas e as estrelas rodando em círculos ao seu redor. Este trabalho de Ptolomeu influenciou o pensamento astronômico durante mais de mil e quinhentos anos até ser substituído pela teoria heliocêntrica de Copérnico. Para a geografia sua mais importante obra foi 'A Geografia', uma tentativa de mapear o mundo conhecido da época, que listava latitudes e longitudes de locais importantes acompanhadas de mapas e uma descrição de técnicas de mapeamento. Nesta compilação Ptolomeu pegou dados seus e de Hiparco, Strabo e Marinus de Tiro. Mesmo com informações imprecisas este trabalho foi a principal ferramenta de orientação geográfica até o fim da renascença.

HUMBOLDT, FRIEDRICH W. H. ALEXANDER VON

(n. 14/9/1769 - m. 6/5/1859)

Geógrafo, naturalista e explorador alemão, nasceu em Berlim, mais conhecido pelas suas contribuições a geologia, climatologia e oceanografia. Ainda jovem Humboldt foi apresentado a um grupo de intelectuais (entre os quais Moses Mendelssohn) pelo seu tutor. Em 1879 ele foi para a Universidade de Gottingen, aonde estudou arqueologia, física e filosofia. O seu interesse por botânica e explorações foi intensificado ao conhecer Georg Forster, que acabará de voltar de uma viagem ao redor do mundo com o famoso Capitão James Cook. Após um ano Humboldt largou Gottingen para estudar geologia com A.G. Werner na escola de minas de Freiburg e depois veio a se tornar inspetor de minas do governo da Prússia. Uma farta herança de sua mãe o permitiu se dedicar aos seus interesses por exploração científica.

Em 1799, Humboldt explorou durante 5 anos a América Latina, visitando países como Equador, Colômbia, Venezuela, México e Peru, além de parte da bacia amazônica. Durante esta viagem ele coletou muitos dados sobre clima, fauna, flora, astronomia, geologia e sobre o campo magnético da Terra. Durante sua estada no Peru fez precisas medições sobre uma corrente fria descoberta por ele que veio a ser chamada pelo seu nome e hoje é mais conhecida como Corrente do Peru. Após uma breve estada nos Estados Unidos da América foi morar em Paris aonde ficou até 1827, período durante qual escreveu uma obra de 23 volumes com as descobertas feitas na viagem. Em 1827 viajou para Berlim e foi nomeado assessor do rei da Prússia. Em 1829 por convite do Czar russo Nicolau I viajou aos Montes Urais e Sibéria para fazer estudos geológicos e fisiográficos.

O resto de sua vida foi dedicada a escrever sua principal obra intitulada 'Kosmos' na tentativa abrangente de descrever o universo como um todo e mostrar que tudo era interrelacionado. Humboldt foi o primeiro a mapear pontos isotérmicos (linhas conectando pontos geográficos de mesma temperatura) e impulsionando assim o estudo da climatologia.

RITTER, KARL

(n. 1779 - m.1859)

(também Carl Ritter)

Geógrafo alemão, conhecido como fundador da moderna ciência da geografia. Ritter mostrou ao mundo o princípio da relação entre a superfície da Terra e a natureza e os seres humanos, era defensor constante do uso de todas as ciências para o estudo da geografia. Foi professor de geografia na Universidade de Berlin de 1820 até sua morte; seu mais importante trabalho, 'Die Erdkunde' (Ciência da Terra, 19 volumes, 1817-1859), enfatizava a influência de fenômenos físicos na atividade humana.

 

RATZEL, FRIEDRICH

(n. 30/8/1844 - m. 9/8/1904)

Geógrafo e etnólogo alemão fundador da geografia política moderna (ou geopolítica), o estudo da influência do ambiente na política de uma nação ou sociedade. Dele originou-se o conceito de 'espaço vivo' (Lebensraum), que se preocupa com a relação de grupos humanos com os espaços do seu ambiente. Ele lecionou na Univesidade de Munique entre 1875 e 1886, e desta data até sua morte foi professor de geografia da Universidade de Leipzig. Seu conceito de 'espaço vivo' foi depois usado pelo Partido Nacional Socialista (Nazista) para justificar a expansão germânica e a anexação de territórios que precedeu a segunda guerra mundial.

 

A Geografia a Guerra:

Julga-se que a Geografia não é mais do que uma disciplina escolar e universitária, cuja função seria fornecer elementos de uma descrição do mundo, dentro de uma concepção desinteressada da cultura dita geral. Pois qual poderia ser a utilidade daquelas estranhas frases soltas em alguns livros de Geografia, que é necessário aprender nas escolas? Os maciços dos Alpes do Norte, a altitude do Pico Everest, a densidade demográfica da Holanda, a capital do Nepal etc. E os nossos pais e avós a lembrarem que em seu tempo era necessário saber as capitais de todos os países de certo continente. Para que serve tudo isso? Uma disciplina "estupidificante" mas, apesar de tudo, simples, pois, como toda a gente sabe, "em Geografia não há nada que perceber, é preciso é ter memória, é só decorar".

Antigamente, talvez esta Geografia tenha servido para qualquer coisa, mas, hoje, a televisão, as revistas, os jornais não mostram melhor todos os países através de notícias, e o cinema mostra melhor as paisagens? Mas, que diabo, dirão todos os que não são geógrafos: a Geografia não serve para nada!

A toda a ciência ou saber deve ser feito o seguinte questionamento: o processo científico está ligado a uma história e deve ser analisado, por um lado, na sua relação com as ideologias; por outro lado, como prática ou como poder. Dizer antecipadamente que a Geografia serve, antes de mais nada, para fazer a guerra, não implica que sirva apenas para executar operações militares; ela serve também para organizar os territórios, não só como previsão de batalhas que se deverão travar contra tal ou tal inimigo, mas também para melhor controlar os homens sobre os quais os aparelhos de Estado exercem a sua autoridade. A Geografia é, antes de mais nada, um saber estratégico intimamente ligado a um conjunto de práticas políticas e militares e são essas práticas que exigem a acumulação articulada de informações extremamente variadas, à primeira vista desconexas, de que não é possível compreender a razão de ser, a importância, se nos mantivermos dentro dos limites do saber pelo saber. São as práticas estratégicas que fazem com que a Geografia seja necessária, em primeiro lugar, aos que comandam os aparelhos de Estado.

Hoje, mais do que nunca, a Geografia serve, antes de mais nada, para fazer a guerra. Pôr em prática novos métodos de guerra implica uma análise extremamente precisa das combinações geográficas, das relações entre os homens e das "condições naturais" que é necessário destruir ou modificar para tornar determinada região inabitável ou para levar a cabo um genocídio. A Guerra do Vietnã fornece numerosas provas de que a Geografia serve para fazer a guerra de maneira mais global. Um dos mais célebres e mais dramáticos exemplos foi posto em prática em 1965, 1966,1967 e sobretudo, em 1972, em um plano de destruição sistemática da rede de diques que protegem as planícies extremamente populosas do Vietnã do Norte. A escolha do locais a bombardear resultou de um estudo geográfico a vários níveis de análise espacial.

Adaptado de LACOSTE, Y. A Geografia - Isso Serve, em Primeiro Lugar, para Fazer a Guerra. São Paulo, Papirus Editora, 1989, pp. 21-30.

Retirado de: COIMBRA, Pedro e TIBÚRCIO, José Arnaldo. Geografia - uma análise do espaço geográfico. São Paulo, Harbra, 1995.

 

A NOVA ORDEM MUNDIAL:

Nos últimos anos o mundo sofreu grandes mudanças. A União Soviética, um dos dois países mais poderosos no século XX, não existe mais. A antiga Iugoslávia viu-se esfacelada e ingressou numa guerra violenta. O mundo socialista, parece que está chegando ao seu final, permanecendo somente alguns restos ou ruínas. Como explicar todas essas alterações no espaço geográfico mundial?

Desde 1989 que os meios de comunicação e o público em geral "cobram" insistentemente dos professores de Geografia o "novo"' mapa-múndi, o mapeamento exato da realidade internacional. Só que isso é apenas um detalhe, uma aparência: mais importante que mostra onde começa a Croácia e onde termina a Sérvia, onde se localiza a Ucrânia e onde fica o Casaquistão, mais importante que saber a capital da Iuguslávia ou do Usbequistão é compreender o porquê das mudanças. O fundamental é entender os processos, a dinâmica da realidade, e não ficar memorizando os detalhes, mesmo porque estes últimos sempre mudam, sempre se alteram de uma maneira ou de outra, com um ritmo mais demorado ou mais rápido.

Não existe, portanto, o mapa-múndi exato, definitivo, aquele que é o único correto. Sempre ocorrem mudanças nessa realidade, redefinições de fronteiras, surgimento ou desaparecimento de Estados-nações. A maior novidade destes últimos anos está no ritmo acelerado dessas transformações, comparável em nosso século somente àquela de 1939-45.

Para entendermos o novo mapa-múndi, é necessário, em primeiro lugar, estudar o sentido dessas mudanças, as suas razões e as suas articulações. Mais do que mudanças cartográficas, elas implicaram um novo ordenamento geopolítico do mundo, uma nova correlação de forças internacionais .

Cabe, portanto, explicar por que o mundo mudou a partir de 1989, expondo como funcionava o mundo bipolar das últimas décadas e os motivos que levaram à sua crise, (...) e analisar os principais aspectos da nova ordem mundial - as contradições, o agravamento do racismo, a questão ambiental, a oposição entre o Norte e o Sul, os três pólos ou centros da economia mundial...

Além de mostrar a ordenação atual do mundo, é preciso uma discussão sobre o século XXI e quais as chances de cada país - e em particular do Brasil - de enfrentar a nova realidade internacional e prosseguir com seu processo de modernização.

VESSENTINI, J. William. A nova ordem mundial. São Paulo, Ática, 1995. Livro do Professor

Geografia: ciência do espaço:

O que significa estudar geograficamente o mundo ou parte do mundo?

A Geografia se propõe a algo mais que descrever paisagens, pois a simples descrição não nos fornece elementos suficientes para uma compreensão global daquilo que pretendemos conhecer geograficamente.

As paisagens que vemos são apenas manifestações aparentes das relações estabelecidas entre os muitos e variados integrantes do nosso planeta e até mesmo do Universo.

Da energia do Sol à ação dos bichos, das plantas, das águas e dos ventos; dos movimentos executados pela Terra aos constantes deslocamentos verificados na crosta terrestre; das formas restritas e localizadas de atuação das tribos indígenas à planetária intervenção das modernas sociedades industriais não nos faltam dinâmicas e relações a serem investigadas.

Ir além das aparências significa considerar que por trás de toda paisagem temos, necessariamente, uma dinâmica particular que a determina, que a constrói, que a mantém com determinada aparência, por exemplo, de floresta, de deserto, ou até mesmo de cidade.

Estudar geograficamente o mundo, no todo ou em parte, é buscar entender como e por que as paisagens - sejam elas quais forem - apresentam as características que observamos. Ou seja, o que se busca é o entendimento do espaço geográfico, que, dessa forma, deve ser entendida como algo que inclui não só aquilo que vemos (paisagem), mas também os fatores determinantes da aparência. Entre todas as dinâmicas de que resultam as diversas paisagens que se espalham pelo mundo, as impostas pelo ritmo e pelas necessidades das modernas sociedades industriais são hoje as mais presentes na quase totalidade das paisagens que venhamos a investigar.

Portanto, uma investigação de fato geográfica acerca do mundo atual deve, mais do que se ocupar de descrições de realidades aparentes (paisagens), propor-se a investigar, principalmente, o modo pelo qual a sociedade produz o espaço geográfico.

Para melhor compreensão do que estamos dizendo, vamos considerar que qualquer pessoa é capaz de identificar um conhecido "cartão-postal" do Brasil. Trata-se da cidade do Rio de Janeiro, da qual se vê a baía de Guanabara, o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor, etc.

Se a investigação geográfica dessa paisagem se restringisse à descrição dos elementos que a constituem, bastaria acrescentar mais alguns nomes à lista que iniciamos. Assim, mencionaríamos também os diversos tipos de construções e moradias, as praias, os vários tipos de embarcações, as pistas asfaltadas, os carros, etc.

Mas, como dissemos, não basta fazer uma espécie de fotografia falada ou escrita das paisagens, pois o espaço geográfico não se revela apenas na aparência das coisas, mas sobretudo na investigação das razões que determinam essa aparência.

E, para entendermos de fato esse espaço, ou descobrirmos tais razões, teríamos de necessariamente responder a muitas questões, tais como:

    • Por que exatamente neste local construíram-se tantos prédios e tantas avenidas? Para onde vão ou de onde vêm essas embarcações, esses carros, ou esses ônibus?

    • Por que a imagem do Cristo Redentor foi colocada num dos lugares mais altos da paisagem?

    • Por que a baía tem esse formato?

    • Como surgiram os morros em torno da baía?

    • Por que alguns dos morros têm cobertura vegetal e outros não?

    • E as pessoas? Onde estão, o que fazem, como vivem?

  • Ao responder a essas e a muitas outras questões que poderíamos formular a partir de uma simples observação atenta da paisagem, buscamos na verdade desvendar as dinâmicas responsáveis por cada um dos elementos aparentes que nos chamam a atenção. Ou, em outras palavras, estaríamos desvendando o espaço geográfico do qual esse cartão-postal do Rio de Janeiro revela apenas a aparência.

  • PEREIRA, Diamantino; SANTOS, Douglas e CARVALHO, Marcos de. Geografia: ciência do espaço - o espaço mundial. São Paulo, Atual, 1993.

Geografia?

Estudar Geografia é uma forma de compreender o mundo em que vivemos. Por meio desse estudo, podemos entender melhor tanto o local em que moramos - seja uma cidade ou uma área rural - quanto o país do qual fazemos parte, assim como os demais países da superfície terrestre. O campo de preocupações da Geografia diz respeito ao espaço da sociedade humana, sobre o qual os homens e as mulheres vivem e, ao mesmo tempo, produzem modificações que o (re)constroem permanentemente. Indústrias, cidades, agricultura, rios, solos, climas, populações: todos esses elementos - além de outros - constituem o espaço geográfico, isto é, o meio ou realidade material onde a humanidade vive e do qual ela própria é parte integrante. Tudo nesse espaço depende do homem e da natureza. Esta última é a fonte primeira de todo o real: a água, a madeira, o petróleo, o ferro, o cimento, o asfalto e todas as outras coisas que existem nada mais são, no final das contas, do que aspectos da natureza.

  • Mas o homem reelabora esses elementos naturais ao fabricar os plásticos a partir do petróleo, ao represar rios e construir usinas hidrelétricas, ao aterrar pântanos e edificar cidades, ao inventar velozes aviões para encurtar as distâncias, Assim, o espaço geográfico não é apenas o local de morada da sociedade humana, mas principalmente uma realidade que é a cada momento (re) construída pela atividade do homem.

As modificações que a sociedade humana produz em seu espaço são hoje mais intensas do que no passado. Tudo o que nos rodeia se transforma rapidamente. Com a interligação entre todas as partes do globo, com o desenvolvimento dos transportes e das comunicações, passa a existir um mundo cada vez mais unitário. Pode-se dizer que, em nível planetário, há uma única sociedade humana, embora seja uma sociedade plena de desigualdades e diversidades. Os "mundos" ou sociedades isoladas, que viviam sem manter relações com o restante da humanidade, cederam lugar ao espaço global da sociedade moderna. Na atualidade não existe nenhum país que não dependa dos demais, seja para o suprimento de parte das suas necessidades materiais, seja pela internacionalização da tecnologia, da arte, dos valores, da cultura afinal. Um acontecimento importante - uma guerra civil, fortes geadas com perdas agrícolas, a invenção de um novo tipo de computador, a descoberta de enormes jazidas petrolíferas, etc. - que ocorra numa parte qualquer da superfície terrestre provoca repercussões em todo o conjunto do globo. Muito do que acontece em áreas distantes acaba nos afetan-do de uma forma ou de outra, mesmo que não tenhamos consciência disso. Não vivemos mais em aldeias relativamente independentes, como nossos antepassados longínquos, mas num mundo interdependente e no qual as transformações se sucedem numa velocidade acelerada.

Para nos posicionarmos inteligentemente frente a este mundo, temos de conhecê-lo bem. Para nele vivermos de forma consciente e crítica, devemos estudar os seus fundamentos, desvendar os seus mecanismos. Ser cidadão pleno em nossa época significa antes de tudo estar integrado criticamente na sociedade, participando ativamente de suas transformações. Para isso devemos refletir sobre o nosso mundo, compreendendo-o do âmbito local até o nacional e o planetário. E a Geografia é um instrumento indispensável para empreendermos essa reflexão.

VESENTINI, J. Willian. Sociedade e Espaço. São Paulo, Ática, 1993.

Espaço geográfico?

Ao mesmo tempo em que o homem modifica a Natureza, ele cria um espaço ou lugar para viver e garantir a sua existência.

Constrói campos de cultivo (a agricultura), cidades, estradas, indústrias, extrai da natureza minerais com os quais fabrica vários produtos de que necessita, cria gado e muitas outras coisas.

Os espaços produzidos pelo homem recebem o nome de espaços geográficos.

Desse modo, podemos compreender que o espaço geográfico inclui a Natureza e o homem.

NA PRODUÇÃO OU CRIAÇÃO DO ESPAÇO GEOGRÁFICO,

OS HOMENS RELACIONAM-SE ENTRE SI

a) Os indígenas e a Natureza

Pode ser verificado, através da História, que o homem é um produtor de espaços geográficos.

Ele transforma o espaço terrestre segundo as suas necessidades e interesses, criando, assim, espaços geográficas. Observe, por exemplo, a História do Brasil. Antes de o colonizador* ou conquistador português chegar ao Brasil e iniciar a exploração dos recursos naturais e o povoamento do território, existia aqui uma Natureza primitiva (vegetação, rios, animais, solo etc.).

A Natureza não tinha sofrido ainda grande modificação pelo homem. Aqui viviam os indígenas, os primeiros habitantes da terra, mas eles pouco tinham modificado a Natureza, por várias razões:

    • havia um número pequeno de indígenas em relação ao grande território;

    • utilizavam primitivos instrumentos de trabalho;

    • a organização social e econômica era simples (você sabe que os homens organizam-se em grupos para garantir a reprodução da espécie e para produzir os seus meios de subsistência) ;

    • os indígenas eram coletores de produtos vegetais (frutos, raízes e folhas), pescadores,. caçadores e poucas tribos praticavam ou conheciam a agricultura;

    • não existia, na sua organização social e econômica, a propriedade individual, isto é, a Natureza e os seus recursos pertenciam a todos, e a produção obtida era repartida entre os membros da tribo; formavam, assim, uma sociedade igualitária (de iguais) ; as relações dos membros da tribo eram de cooperação. Ainda, atualmente, os indígenas que não foram aculturados * pelos brancos vêem a Natureza de forma diferente da maioria das pessoas "civilizadas ". Entendem que ele é fonte de recursos ou de vida. Respeitam-na. Caçam ou pescam apenas o necessário para sua subsistência. A Natureza não é vista por eles como fonte de lucro.

  • b) O espaço não é de todos e sim de alguns

  • Quando o conquistador ou colonizador português chegou ao território brasileiro, ele começou a reconstruir ou criar o espaço geográfico de forma diferente do espaço criado pelos indígenas.

  • Assim como para os indígenas, o que interessava ao colonizador era também garantir a sua subsistência.

Entretanto, a organização social e econômica do colonizador era bem diferente da do indígena.

Enquanto entre os indígenas não havia dinheiro, desejo de lucro, sentimento de propriedade individual ou de posse da terra ou de seus recursos, entre os colonizadores esses costumes já existiam e foram introduzidos no Brasil, pois era assim que muitos países da Europa se organizavam.

Por causa de sua superioridade técnica, como, por exemplo, os armamentos que possuíam, começaram a conquistar o espaço. Tomaram as terras dos primitivos habitantes do Brasil (os indígenas). Além disso, muitos destes foram expulsos para o interior do território ou ainda escravizados e/ou exterminados* em lutas ou através de contágios de doenças.

Tendo a posse do espaço e de sua gente, os colonizadores passaram a organizá-lo ou recriá-lo, segundo as suas necessidades e interesses.

Derrubaram matas e introduziram o cultivo de produtos que, além de atender às suas necessidades de subsistência, se destinavam à exportação.

Mas nem todos os homens eram donos de terra ou do comércio. Havia os trabalhadores assalariados (que recebem um pagamento em dinheiro pelo seu trabalho) e os escravos negros, trazidos da África.

Os homens construíram, no território brasileiro, como em outros países do mundo, vilas, cidades, estradas, alteraram cursos de rios para a irrigação de terras e para a produção de energia elétrica, e muitas outras coisas.

Alteraram o espaço natural e produziram o espaço geográfico.

Foi uma obra maravilhosa, de coragem, de dificuldades e de muito trabalho, mas que apresentou, por sua vez, grandes injustiças e conflitos entre os homens. Por que isso ocorreu?

Porque, no ato de produção ou reconstrução do espaço geográfico, predominaram os interesses individuais e não os coletivos (de todos), como ocorre em muitas sociedades indígenas. Uns tornaram-se possuidores de terras e dos instrumentos de produção( máquinas, ferramentas, edifícios etc.), e a grande maioria dos homens ficou apenas com a sua força de trabalho, força essa que é comprada por um salário quase sempre insuficiente para subsistir.

Diante do que acabamos de expor, podemos concluir que o espaço e os seus recursos não pertencem a todos os membros da sociedade que nele vivem, e sim a alguns.

E assim tem sido, até os dias atuais, o aproveitamento econômico do espaço terrestre e a construção do espaço geográfico pelos homens.

O espaço é organizado ou modificado segundo os interesses do grande capital (de grandes empresas ou grandes capitalistas, isto é, que possuem muito dinheiro). É o caso, por exemplo, do povoamento recente das Regiões Norte e Centro-Oeste* do Brasil.

Os interesses do grande capitalista chocam-se com os interesses do pequeno agricultor, do garimpeiro, dos indígenas e dos homens sem terra ou trabalhadores. Chocam-se também com a necessidade de se manter o equilíbrio da natureza.

Vê-se, então, que o espaço geográfico reflete ou reproduz a sociedade que nele vive e principalmente as relações que se estabelecem entre os homens na busca de sua subsistência.

ADAS, Melhem. Geografia. São Paulo, Moderna, 1984, vol. 1, p. 68-70.


 

GLOBALIZAÇÃO:

Introdução:

A expressão "globalização" tem sido utilizada mais recentemente num sentido marcadamente ideológico, no qual assiste-se no mundo inteiro a um processo de integração econômica sob a égide do neoliberalismo, caraterizado pelo predomínio dos interesses financeiros, pela desregulamentação dos mercados, pelas privatizações das empresas estatais, e pelo abandono do estado de bem-estar social. Esta é uma das razões dos críticos acusarem-na, a globalização, de ser responsável pela intensificação da exclusão social (com o aumento do número de pobres e de desempregados) e de provocar crises econômicas sucessivas, arruinando milhares de poupadores e de pequenos empreendimentos.

No texto que se segue não trataremos deste fenômeno no sentido ideológico mas sim no seu significado histórico. Demonstramos que o processo de globalização (aqui entendido como integração e interdependência econômica) deita suas raizes há muito tempo atrás, no mínimo há 5 séculos, passando desde então por etapas diversas. Aqui o termo é empregado para fins específicos de uma síntese histórica, bem distante das manipulações ideologicas que possam ele sofrer. Portanto, para nós, ele tem um significado mais profundo e não apenas propagandístico.

As Economias-Mundo antes das Descobertas:

Antes de ter inicio a primeira fase da globalização, os Continentes encontravam-se separados por intransponíveis extensões acidentadas de terra e de águas, de oceanos e mares, que faziam com que a maioria dos povos e das culturas soubessem da existência uma das outras apenas por meio de lendas, com a do Preste João, ou imprecisos e imaginários relatos de viajantes, como o de Marco Polo. Cada povo vivia isolado dos demais, cada cultura era auto-suficiente. Nascia, vivia e morria no mesmo lugar, sem tomar conhecimento da existência dos outros.

Até o século 15 identificamos 5 economias-mundo (é uma expressão de Fernand Braudel), totalmente autonomas, espalhadas pela Terra e que viviam separadas entre elas. A primeira delas, a da Europa, era composta pelas cidades italianas de Gênova, Veneza, Milão e Florença, que mantinham laços comerciais e financeiros com o Mediterrâneo e o Levante onde possuiam importantes feitorias e bairros comerciais. Bem mais ao norte, na França setentrional, vamos encontrar outra área comercial significativa na região de Flandres, formada pelas cidades de Lille, Bruges e Antuérpia, vocacionadas para os negócios com o Mar do Norte. No Mar Báltico entrava-se a Liga de Hansa, uma cooperativa de mais de 200 cidades mercantes lideradas por Lübeck e Hamburgo, que mantinham um eixo comercial que ia de Novgorod, na Rússia, até Londres na Inglaterra.

No sudeste europeu, por então, agoniza o comércio bizantino (que atuava no mar Egeu e no mar Negro), pressionado pela expansão dos turcos que terminaram por ocupar a grande cidade em 1453, enquanto que a Rússia via-se limitada pelos Canatos Mongóis que ocupavam boa parte do leste do país.

Outra economia-mundo era formada pela China e regiões tributárias como a península coreana, a Indochina e a Malásia, e que só se ligava com a Ásia Central e o Ocidente através da rota da seda. O seu maior dinamismo econômico encontrava-se nas cidades do sul como Cantão e do leste como Xangai, grande portos que faziam a função de vasos comunicantes com os arquipélagos do Mar da China.

A Índia, por sua vez, graças a sua posição geográfica, traficava num raio econômico mais amplo. No noroeste, pelo Oceano Índico e pelo Mar Vermelho, estabelecia relações com mercadores árabes que tinham feitorias em Bombaim e outros portos da Índia ocidental, enquanto que comerciantes malaios eram acolhidos do outro lado, em Calcutá. Seu imenso mercado de especiarias e tecidos finos era afamado, mas só pouca coisa chegava ao Ocidente graças ao comércio com o Levante. Foi a celebração das suas riquezas que mais atraiu a cobiça dos aventureiros europeus como o lusitano Vasco da Gama.

Subdividida pelo deserto do Saara numa África árabe ao Norte, que ocupa uma faixa de terra a beira do Mediterrâneo e Vale do rio Nilo, com relações comerciais mais ou menos intensas com os portos europeus e, ao Sul, numa outra África, a África negra, isolada do mundo pelo deserto e pela floresta tropical, formava um outro planeta econômico totalmente a parte, voltado para si mesmo.

Por último, mas desconhecida das demais, encontrava-se aquela formada pelas civilizações pré-colombianas, a Azteca no México, a dos Maias no Yucatan e no istmo, e a Inca no Peru , organizadas ao redor do cultivo do milho e na elaboração de tecidos, sendo elas auto-suficientes e sem interligações entre si, nem terrestres nem oceânicas.

Durante milhares de anos elas desconheceram-se e nem imaginavam que algum dia poderiam estabelecer relações significativas. Se é certo que em suas bordas haviam escambo ou comércio, eles eram insignificantes. Portanto, numa longa perspectiva, pode-se dizer que a internacionalização do comércio e a aproximação das culturas é um fenômeno recentissimo, datando dos últimos cinco séculos, apenas 10% do tempo da história até agora conhecida.

A primeira fase da Globalização (1450-1850):

"Por mares nunca dantes navegados/.....Em perigos e guerra esforçados, mais do que prometia a força humana/ E entre gente remota edificaram/ Novo reino, que tanto sublimaram" - Luís de Camões - Os Lusíadas, Canto I, 1572.

Há, como em quase tudo que diz respeito à história, grande controvérsia em estabelecer-se uma periodização para estes cinco séculos de integração econômica e cultural, que chamamos de globalização, iniciados pela descoberta de uma rota marítima para as Índias e pelas terras do Novo Mundo. Frédéric Mauro, por exemplo, prefere separá-lo em dois momentos, um que vai de 1492 até 1792 (data quando, segundo ele, a Revolução Francesa e a Revolução Industrial fazem com que a Europa, que liderou o processo inicial da globalização, voltou-se para resolver suas disputas e rivalidades), só retomando a expansão depois de 1870, quando amadureceram as novas técnicas de transporte e navegação como a estrada-de-ferro e o navio à vapor.

No critério por nós adotado, consideramos que o processo de globalização ou de economia-mundo capitalista como preferiu Immanuel Wallerstein, nunca se interrompeu. Se ocorreram momentos de menor intensidade, de contração, ela nunca chegou a cessar totalmente. De certo modo até as grandes guerras mundiais de 1914-18 e de 1939-45, e antes delas a Guerra dos 7 anos (de 1756-1763), provocaram a intensificação da globalização quando adotaram-se macro-estratégias militares para acossar os adversários, num mundo quase inteiramente transformado em campo de batalha. Basta recordar que soldados europeus, nas duas maiores guerras do século 20, lutavam entre si no Oriente Médio e na África, enquanto que tropas colônias desembarcavam na Europa e marchavam para os campos de batalha nas planícies francesas enquanto que as marinhas européias, americanas e japonesas se engalfinhavam em quase todos os mares do mundo.

Assim sendo, nos definimos pelas seguintes etapas: primeira fase da globalização, ou primeira globalização, dominada pela expansão mercantilista (de 1450 a 1850) da economia-mundo européia, a segunda fase, ou segunda globalização, que vai de 1850 a 1950 caracterizada pelo expansionismo industrial-imperialista e colonialista e, por última, a globalização propriamente dita, ou globalização recente, acelerada a partir do colapso da URSS e a queda do muro de Berlim, de 1989 até o presente.

Períodos da Globalização :

Data Período Caracterização

1450-1850 Primeira fase Expansionismo mercantilista

1850-1950 Segunda fase Industrial-imperialista-colonialista

pós-1989 Globalização recente Cibernética-tecnológica-associativa

 

A primeira globalização, resultado da procura de uma rota marítima para as Índias, assegurou o estabelecimento das primeiras feitorias comerciais européias na Índia, China e Japão, e, principalmente, abriu aos conquistadores europeus as terras do Novo Mundo. Feitos estes que Adam Smith, em sua visão eurocêntrica, considerou os maiores em toda a história da humanidade. Enquanto as especiarias eram embarcadas para os portos de Lisboa e de Sevilha, de Roterdã e Londres, milhares de imigrantes iberos, ingleses e holandeses, e, um bem menor número de franceses, atravessaram o Atlântico para vir ocupar a América. Aqui formaram colônias de exploração, no sul da América do Norte, no Caribe e no Brasil, baseadas geralmente num só produto (açúcar, tabaco, café, minério, etc..) utilizando-se de mão de obra escrava vinda da África ou mesmo indígena; ou colônias de povoamento, estabelecidas majoritariamente na América do Norte, baseadas na média propriedade de exploração familiar. Para atender as primeiras, as colônias de exploração, é que o brutal tráfico negreiro tornou-se rotina, fazendo com que 11 milhões de africanos (40% deles destinados ao Brasil) fossem transportados pelo Atlântico para labutar nas lavouras e nas minas.

Igualmente não deve-se omitir que ela promoveu uma espantosa expropriação das terras indígenas e no sufocamento ou destruição da sua cultura. Em quase toda a América ocorreu uma catástrofe demográfica, devido aos maus tratos que a população nativa sofreu e as doenças e epidemias que os devastram, devido ao contato com os colonizadores europeus.

Nesta primeira fase estrutura-se um sólido comércio triangular entre a Europa (fornecedora de manufaturas) África (que vende seus escravos) e América (que exporta produtos coloniais). A imensa expansão deste mercado favorece os artesãos e os industriais emergentes da Europa que passam a contar com consumidores num raio bem mais vasto do que aquele abrigado nas suas cidades, enquanto que a importação de produtos coloniais faz ampliar as relações inter-européias. Exemplo disso ocorre com o açúcar cuja produção é confiada aos senhores de engenho brasileiros, mas que é transportado pelos lusos para os portos holandeses, onde lá se encarregam do seu refino e distribuição.

Os principais portos europeus, americanos e africanos desta primeira globalização encontram-se em Lisboa, Sevilha, Cádiz, Londres, Liverpool, Bristol, Roterdã, Amsterdã, Le Havre, Toulouse, Salvador, Rio de Janeiro, Lima, Buenos Aires, Vera Cruz, Porto Belo, Havana, São Domingo, Lagos, Benin, Guiné, Luanda e Cidade do Cabo.

Politicamente, a primeira fase da globalização se fez quase toda ela sob a égide das monarquias absolutistas que concentram enorme poder e mobilizam os recursos econômicos, militares e burocráticos, para manterem e expandirem seus impérios coloniais. Os principais desafios que enfrentam advinham das rivalidades entre elas, seja pelas disputas dinásticas-territoriais ou pela posse de novas colônias no além mar, sem esquecer-se do enorme estragos que os corsários e piratas faziam, especialmente nos séculos 16 e 17, contra os navios carregados de ouro e prata e produtos coloniais.

A doutrina econômica desta primeira fase foi o mercantilismo, adotado pela maioria das monarquias européias para estimular o desenvolvimento da economia dos reinos. Ele compreendia numa complexa legislação que recorria a medidas protecionistas, incentivos fiscais e doação de monopólios, para promover a prosperidade geral. A produção e distribuição do comércio internacional era feita por mercadores privados e por grandes companhias comerciais (as Cias. inglesas e holandesas das Índias Orientais e Ocidentais) e, em geral, eram controladas localmente por corporações de ofício.

Todo o universo econômico destinava-se a um só fim, entesourar, acumular riqueza. O poder de um reino era aferido pela quantidade de metal precioso (ouro, prata e jóias preciosas) existente nos cofres reais. Para assegurar seu aumento o estado exercia um sério controle das importações e do comércio com as colônias, sobre as quais exerciam o oligopólio bilateral. (*)Esta política levou a que cada reino europeu terminasse por se transformar num império comercial, tendo colônias e feitorias espalhadas pelo mundo todo ( os principais impérios coloniais foram o inglês, o espanhol, o português, o holandês e o francês). Um dos símbolos desta época, a bolsa de valores de Amberes, consciente do que representava, tinha como justo lema a frase latina "Ad usum mercatorum cujusque gentis ac linguae", que ela servia aos mercadores de todas as línguas da terra.

(*) o oligopólio bilateral é uma expressão que serve para descrever a situação de subordinação em que as colônias se encontravam perante as metrópoles. Além de estarem impedidas de negociarem com outros países, elas eram obrigadas a adquirir suas necessidades apenas com negociantes e mercadores metropolitanos bem como somente vender a eles o que produziam, desta forma a metrópole ganhava ao vender e ao comprar.

A segunda fase da Globalização (1850-1950):

"Por meio de sua exploração do mercado mundial ,a burguesia deu um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países...As velhas industrias nacionais foram destruídas ou estão-se destruindo-se dia a dia....Em lugar das antigas necessidades satisfeitas pela produção nacional, encontramos novas necessidades que querem para a sua satisfação os produtos das regiões mais longínquas e dos climas os mais diversos. Em lugar do antigo isolamento local...desenvolvem-se, em todas as direções, um intercâmbio e uma interdependência universais.." - Karl Marx - Manifesto Comunista, 1848

Os principais acontecimentos que marcam a transição da primeira fase da globalização para a segunda dão-se nos campos da técnica e da política. A partir do século 18, a Inglaterra industrializa-se aceleradamente e, depois dela, a França, a Bélgica, a Alemanha e a Itália. A máquina à vapor é introduzida nos transportes terrestres (estradas-de-ferro) e marítimos (barcos à vapor) Consequentemente esta nova época será regida pelos interesses da indústria e das finanças, sua associada e, por vezes amplamenente dominante, e não mais das motivações dinásticas-mercantís. Será a grande burguesia industrial e bancária, e não mais os administradores das corporações mercantis e os funcionários reais quem liderará o processo. Esta interpenetração dos bancos com a industria, com tendências ao monopólio ou ao oligopólio, fez com que o economista austríaco Rudolf Hilferding a denominasse de "O Capital Financeiro" (Das Finanz kapital, titulo da sua obra publicado em 1910), considerando-a um fenômeno novo da economia-politica moderna. Lenin definiu-a como a etapa final do capitalismo, a etapa do imperialismo.

Luta ele - o capital financeiro - pela ampliação dos mercados e pela obtenção de novas e diversas fontes de matérias primas. A doutrina econômica em que se baseia é a do capitalismo laissez-faire, um liberalismo radical inspirado nos fisiocratas franceses e apoiado pelos economistas ingleses Adam Smith e David Ricardo que advogavam a superação do Mercantilismo com suas políticas arcaicas. Defendem o livre-cambismo na relações externas, mas em defesa das suas industrias internas continuam em geral protecionistas, como é o caso da política Hamiltoniana nos Estados Unidos e a da Alemanha Imperial e a do Japão(*).

A escravidão que havia sido o grande esteio da primeira globalização, tornou-se um impedimento ao progresso do consumo e, somada à crescente indignação que ela provoca, termina por ser abolida, primeiro em 1789 e definitivamente em 1848 ( no Brasil ela ainda irá sobreviver até 1888). Este segundo momento - segundo a orientação do que Hobson chamou de "a politica de uma minoria sem escrúpulos" -, irá se caracterizar pela ocupação territorial de certas partes da África e da Ásia, além de estimular o povoamento das terras semi-desocupadas da Austrália e da Nova Zelândia.

No campo da política a revolução americana de 1776 e a francesa de 1789, irão liberar enorme energia fazendo com que a busca da realização pessoal termine por promover uma grande ascensão social das massas. Logo depois, como resultado das Guerras Napoleônicas e da generalizada abolição da servidão e outros impedimentos feudais, milhões de europeus (calcula-se em 60 milhões num século) abandonam seus lares nacionais e emigram em massa para os Estados Unidos, Canadá, e para a América do Sul (Brasil, Argentina, Chile e Uruguai).

A posse de novas colônias torna-se um ornamento na política das potências (só a Grã-Bretanha possui mais de 50, ocupando inclusive áreas antieconômicas). O cobiçado mercado chinês finalmente é aberto pelo Tratado de Nanquim de 1842 e o Japão também é forçado a abandonar a política de isolamento da época Tokugawa ao assinar um tratado com os americanos em 1853-4.

Cada uma das potências européias rivaliza-se com as demais na luta pela hegemonia do mundo, ou como disse John Strachey: "lançaram-se unanimemente, numa rivalidade feroz...para anexar o resto do mundo". O resultado é um acirramento da corrida imperialista e da política belicista que levará os europeus à duas guerras mundiais, a de 1914-18 e a de 1939-45. Entrementes outros aspectos técnicos ajudam a globalização: o trem e o barco à vapor encurtam as distâncias, o telégrafo e , em seguida, o telefone, aproximam os continentes e os interesses ainda mais. E, principalmente depois do vôo transatlântico de Charles Lindbergh em 1927, a aviação passa a ser mais um elemento que permite o mundo tornar-se menor.

Nestes cem anos da segunda fase da globalização (1850-1950) os antigos impérios dinásticos desabaram (o dos Bourbons em 1789 e, definitivamente, em 1830, o dos Habsburgos e dos Hohenzollers em 1914, o dos Romanov em 1917). Das diversas potências que existiam em 1914 (O Império britânico, o francês, o alemão, o austro-húngaro, o italiano, o russo e o turco otomano) só restam depois da 2ª Guerra Mundial, as superpotências: os Estados Unidos e a União Soviética.

Feridas pelas guerras as metrópoles deram para desabar, obrigando-se a aceitar a libertação dos povos coloniais que formaram novas nações. Mesmo assim, umas independentes e outras neocolonizadas, continuaram ligadas ao sistema internacional. Somam-se, no pós-1945, os países do Terceiro Mundo recém independente (a Índia é a primeira a obtê-la em 1947) às nações latino-americanas que conseguiram sua autonomia política entre 1810-25, ainda no final da primeira fase da globalização. No entanto nem a descolonização nem as revoluções comunistas, a da Rússia de 1917 e a da China de 1949, servirão de entrave para que a mais longo prazo o processo de globalização seja retomado.

(*) Os países industrializados defendem o livre-cambismo (o preço melhor vence) quando se sentem fortes, como foi o caso da Inglaterra nos séculos 18 e 19 e hoje é a posição dominante dos E.U.A. Mas para aqueles que precisam criar sua própria industria ou proteger a que está ainda se afirmando, precisam recorrer à política protecionista com suas elevadas barreiras alfandegárias para evitar sua quebra.

A Globalização recente (pós-1989) :

"O conceito do direito mundial de cidadania não os protege (os povos) contra a agressão e a guerra, mas a mútua convivência e proveito os aproxima e une. O espirito comercial, incompatível com a guerra, se apodera tarde ou cedo dos povos. De todos os poderes subordinados à força do Estado, é o poder do dinheiro que inspira mais confiança e por isto os Estados se vêm obrigados - não certamente por motivos morais- a fomentar a paz..." - I.Kant - A paz perpétua, 1795

No decorrer do século 20 três grandes projetos de liderança da globalização conflitaram-se entre si: o comunista, inaugurado com a Revolução bolchevique de 1917 e reforçado pela revolução maoista na China em 1949; o da contra-revolução nazi-fascista que, em grande parte, foi uma poderosa reação direitista ao projeto comunista, surgido nos anos de 1919, na Itália e na Alemanha, extendendo-se ao Japão, que foi esmagado no final da 2ª Guerra Mundial, em 1945; e, finalmente, o projeto liberal-capitalista liderado pelos países anglo-saxãos, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos.

Num primeiro momento ocorreu a aliança entre o liberalismo e o comunismo (em 1941-45) para a auto-defesa e, depois, a destruição do nazi-fascismo. Num segundo momento os vencedores, os EUA e a URSS, se desentenderam gerando a Guerra Fria (1947-1989), onde o liberalismo norte-americano rivalizou-se com o comunismo soviético numa guerra ideológica mundial e numa competição armamentista e tecnológica que quase levou a humanidade a uma catástrofe (a crise dos mísseis de 1962).

Com a política da glasnost, adotada por Mikhail Gorbachov na URSS desde 1986, a Guerra Fria encerrou-se e os Estados Unidos proclamaram-se vencedores. O momento símbolo disto foi a derrubada do Muro de Berlim ocorrida em novembro de 1989, acompanhada da retirada das tropas soviéticas da Alemanha reunificada e seguida da dissolução da URSS em 1991. A China comunista, por sua vez, que desde os anos 70 adotara as reformas visando sua modernização, abriu-se em várias zonas especiais para a implantação de industrias multinacionais. A política de Deng Xiaoping de conciliar o investimento capitalista com o monopólio do poder do partido comunista, esvaziou o regime do seu conteúdo ideológico anterior. Desde então só restou hegemônica no moderno sistema mundial a economia-mundo capitalista, não havendo nenhuma outra barreira a antepor-se à globalização.

Chegamos desta forma a situação presente onde sobreviveu uma só superpotência mundial: os Estados Unidos. É a única que tem condições operacionais de realizar intervenções militares em qualquer canto do planeta (Kuwait em 1991, Haiti em 1994, Somália em 1996, Bosnia em 1997, etc..). Enquanto na segunda fase da globalização vivia-se na esfera da libra esterlina, agora é a era do dólar, enquanto que o idioma inglês tornou-se a língua universal por excelência. Pode-se até afirmar que a globalização recente nada mais é do que a americanização do mundo.

Desequilíbrios e perspectivas da globalização:

O processo produtivo mundial é formado por um conjunto de umas 400-450 grandes corporações (a maioria delas produtora de automóveis e ligada ao petróleo e às comunicações) que têm seus investimentos espalhados pelos 5 continentes. A nacionalidade delas é majoritariamente americana, japonesa, alemã, inglesa, francesa, suíça, italiana e holandesa. Portanto, pode-se afirmar sem erro que os países que assumiram o controle da primeira fase da globalização (a de 1450-1850), apesar da descolonização e dos desgastes das duas guerras mundiais, ainda continuam obtendo os frutos do que conquistaram no passado. A razão disso é que detêm o monopólio da tecnologia e seus orçamentos, estatais e privados, dedicam imensas verbas para a ciência pura e aplicada.

Politicamente a globalização recente caracteriza-se pela crescente adoção de regimes democráticos. Um levantamento indicou que 112 países integrantes da ONU, entre 182, podem ser apontados como seguidores (ainda que com várias restrições) de práticas democráticas, ou pelo menos, não são tiranias ou ditaduras. A título de exemplo lembramos que na América do Sul, na década dos 70, somente a Venezuela e a Colômbia mantinham regimes civis eleitos. Todos os demais países eram dominados por militares ( personalistas como no Chile, ou corporativos como no Brasil e Argentina).Enquanto que agora , nos finais dos noventa, não temos nenhuma ditadura na América do Sul. Neste processo de universalização da democracia as barreiras discriminatórias ruíram uma a uma (fim da exclusão motivada por sexo, raça, religião ou ideologia), acompanhado por uma sempre ascendente padronização cultural e de consumo.

A ONU que deveria ser o embrião de um governo mundial foi tolhida e paralisada pelos interesses e vetos das superpotências durante a Guerra Fria. Em conseqüência dessa debilidade, formou-se uma espécie de estado-maior informal composto pelos dirigentes do G-7 (os EUA, a GB, a Alemanha, a França, o Canadá, a Itália e o Japão), por vezes alargado para dez ou vinte e cinco, cujos encontros freqüentes têm mais efeitos sobre a política e a economia do mundo em geral do que as assembléias da ONU.

Enquanto que no passado os instrumentos da integração foram a caravela, o galeão, o barco à vela, o barco a vapor e o trem, seguidos do telégrafo e do telefone, a globalização recente se faz pelos satélites e pelos computadores ligados na Internet. Se antes ela martirizou africanos e indígenas e explorou a classe operária fabril, hoje utiliza-se do satélite, do robô e da informática, abandonando a antiga dependência do braço em favor do cérebro, elevando o padrão de vida para patamares de saúde, educação e cultura até então desconhecidos pela humanidade.

O domínio da tecnologia por um seleto grupo de países ricos, porém, abriu um fosso com os demais, talvez o mais profundo em toda a história conhecida. Roma, quando império universal, era superior aos outros povos apenas na arte militar, na engenharia e no direito. Hoje os países-núcleos da globalização (os integrantes do G-7), distam, em qualquer campo do conhecimento, anos-luz dos países do Terceiro Mundo (*).

Ninguém tem a resposta nem a solução para atenuar este abismo entre os ricos do Norte e os pobres do Sul que só se ampliou. No entanto, é bom que se reconheça que tais diferenças não resultam de um novo processo de espoliação como os praticados anteriormente pelo colonialismo e pelo imperialismo, pois não implicaram numa dominação política, havendo, bem ao contrário, uma aproximação e busca de intercâmbio e cooperação.

(*) Quanto à exportação de produtos da vanguarda tecnológica (microeletrônica, computadores, aeroespaciais, equipamento de telecomunicações, máquinas e robôs, equipamento científico de precisão, medicina e biologia e químicos orgânicos), Os EUA são responsáveis por 20,7%; a Alemanha por 13,3%; o Japão por 12,6%; o Reino Unido por 6,2%, e a França por 3,0% , etc..logo apenas estes 5 países detêm 55,8% da exportação mundial delas.

Imagina-se que a Globalização, seguindo o seu curso natural, irá enfraquecer cada vez mais os estados-nacionais surgidos há cinco séculos atrás, ou dar-lhes novas formas e funções, fazendo com que novas instituições supranacionais gradativamente os substituam. Com a formação dos mercados regionais ou intercontinentais (Nafta, Unidade Européia, Comunidade Econômica Independente [a ex-URSS], o Mercosul e o Japão com os tigres asiáticos), e com a consequente interdependência entre eles, assentam-se as bases para os futuros governos transnacionais que, provavelmente, servirão como unidades federativas de uma administração mundial a ser constituída. É bem provável que ao findar o século 21, talvez até antes, a humanidade conhecerá por fim um governo universal, atingindo-se assim o sonho dos filósofos estóicos do homem cosmopolita, aquele que se sentirá em casa em qualquer parte da Terra.

Bibliografia:

Braudel, Fernand - Civilização material, economia e capitalismo: séculos XV-XVIII- Editora Martins Fontes, São Paulo, 1996, 3 vols.

Carrion, Raul K.M., Vizentini, Paulo G. - Globalização, neoliberalismo, privatizações, Editora da Universidade, UFRGS, Porto Alegre, 1997

Chaunu, Pierre - Conquista y explotación de los nuevos mundos - Editorial labor, Barcelona, 1973

Herkscher, Eli F. - La epoca mercantilista - Fondo de Cultura Económica, Mexico, 1943

Kennedy, Paul - Preparando para o século XXI - Editora Campus, Rio de Janeiro, 1993

Mauro, Frédéric - La expansión europea ( 1600-1870) - Editorial Labor, Barcelona, 1968

Wallerstein, Immanuel - El sistema mundial, Siglo XXI editores, México, 1984, vol I e II


GEOMORFOLOGIA:

A Geomorfologia é a parte da Geografia Física que se dedica à análise da gênese e evolução do relevo terrestre.

A análise das formas de relevo pressupõe uma descrição do modelado e uma consideração dos complexos físicos e fisico-biológicos. Pressupõe ainda um conhecimento geológico razoável, bem como noções sobre os processos morfoclimáticos atuais e pretéritos.

As divisões da Geomorfologia:

A Geomorfologia Geral objetiva estudar as formas de relevo originadas pela interação dos processos endógenos e exógenos estabelecendo métodos de investigação e cartografia do relevo.

A Geomorfologia Regional analisa a disposição das grandes formas de relevo numa determinada região, buscando compreender sobretudo a história evolutiva da compartimentação geomorfológica.

A Geomorfologia Aplicada visa à aplicação dos conhecimentos para a solução dos problemas econômicos ligados ao relevo.

A antiga divisão estabelecida entre Geomorfologia Estrutural e Geomorfologia Climática justifica-se, na atualidade, apenas para atender aos objetivos meramente didáticos, haja vista que a Geomorfologia Geral a englobou.

O objeto de estudo da Geomorfologia:

O objeto de estudo da Geomorfologia é o relevo da superfície do planeta, em seus aspectos genéticos, cronológicos , morfológicos, morfométricos e dinâmicos. Esse objeto ocorre numa zona de contato entre entre a litosfera , a atmosfera e a biosfera. A porção mais superficial da litosfera , palco dos fenômenos geomorfológicos, está submetida às ações de forças opostas desencadeadas em cada meio em que se encontram. Materializa-se , assim, a lei dialética da luta dos contrários, que permite descobrir as causas do eterno movimento e desenvolvimento do mundo natural.
O relevo terrestre corresponde ao conjunto de reentrâncias e saliências observadas na superfície do planeta, formado por inúmeros processos. Esses processos podem ser provenientes do interior da Terra ( endógenos), englobando os movimentos tectônicos as manifestações vulcânicas , e das forças externas à litosfera , mediante interferências dos fenômenos climáticos , da gravidade e da cobertura vegetal. O relevo terrestre é um dos mais importantes componentes do quadro natural. As suas peculiaridades condicionam a distribuição dos solos , a vegetação e até algumas possibilidades de aproveitamento dos recursos hídricos.