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GEOGRAFIA:
"O fato de me perceber no mundo, com o mundo e com os outros me põe numa posição em face do mundo que não é a de quem tem nada a ver com ele".
(Paulo Freire, Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa, p.60).
Conflitos étnicos, crimes, miséria, riqueza, fome, consumo, catástrofes naturais, genocídios, desastres ecológicos, crises econômicas e políticas, desemprego em massa, novas tecnologias – estes tempos de neoliberalismo e globalização, nos atingem cotidianamente. É tanta e tamanha a rapidez das informações que, muitas vezes, sentimos uma sensação de impotência diante da impossibilidade de compreender o que está acontecendo ao nosso redor e no mundo.
Nesse contexto, a maior parte das produções da mídia oferece uma visão descritiva, fragmentada e simplista dos fatos sociais, o que torna necessária e imprescindível uma leitura mais detida e articuladora desses fatos, e isso é possível através das ciências humanas e sociais, entre elas a Geografia.
Assim, "ensinar Geografia passa a ser problematizar o mundo mais do que ’explicá-lo’ de forma unilateral". Através da Geografia, o estudante deverá compreender o desenvolvimento da sociedade como o processo de ocupação de espaços físicos e as relações
da vida humana com a paisagem, em seus desdobramentos políticos, sociais, culturais, econômicos. O ensino da disciplina deve, portanto, contribuir para que o aluno possa compreender melhor o frenético e fascinante mundo em que vive e sentir-se estimulado a intervir solidariamente na realidade em construção, com a disposição de constituir-se num agente da transformação social.
É esta concepção que a disciplina busca desenvolver no ensino médio, procurando estimular o pensamento crítico e a capacidade de analisar a realidade do mundo contemporâneo na associação entre o meio ambiente, a sociedade e as estruturas políticas e econômicas atuais. Assim, ao final do curso, o aluno deverá ter desenvolvido:
capacidade de relacionar, interpretar e analisar os fatos geográficos, permitindo uma visão crítica do mundo;
capacidade de analisar, interpretar e compreender os processos e as formas de produção e organização do espaço mundial e brasileiro;
capacidade de aprender a aprender, num processo contínuo de ampliação e aperfeiçoamento do conhecimento.
Durante o curso, em diferentes momentos e situações, serão desenvolvidas as seguintes atividades que configuram a estrutura do trabalho: aplicação de testes; avaliação de leituras e resumos de livros em duplas, trios ou grupos, a partir de leituras individuais marcadas previamente; interpretação de quadros, tabelas, gráficos e mapas; elaboração de quadros comparativos; desenvolvimento de tema discutido em sala de aula, envolvendo conteúdo específico e posicionamento pessoal; avaliações de assuntos específicos ao final das unidades de conteúdo; interpretações de textos; pesquisas (individuais e em equipes), elaboração e apresentação de seminários envolvendo recursos multimídia; redações, transposições de linguagem; leitura de jornais e revistas para a elaboração de jornal-mural na sala de aula; pesquisa na Internet.
Tudo isto exigirá do aluno as seguintes habilidades: ler, analisar e concluir textos, mapas, tabelas e gráficos; anotar e sistematizar informações ou dúvidas; aplicar conceitos básicos aprendidos; elaborar textos; dissertar hierarquizando idéias; pesquisar, coletar, organizar dados (identificando, descrevendo, comparando, classificando e concluindo); trabalhar em equipe; expressar oralmente suas idéias com clareza e objetividade; expor oralmente um assunto em público; respeitar opiniões divergentes; socializar a produção do conhecimento.
G E O G R A F I A:
Vem das palavras gregas "geo" e "graphos" significando
respectivamente Terra e escrever. Geografia é o estudo científico da
superfície da Terra com o objetivo de descrever e analisar a variação
espacial de fenômenos físicos, biológicos e humanos que acontecem na
superfície do globo terrestre.
A superfície da Terra é a camada do planeta de contato e
inter-relacionamento entre a Atmosfera, Biosfera, Hidrosfera e Litosfera.
Esta camada permite através de seu equilíbrio natural o surgimento de
minerais, água, solos diferentes, vida animal, vida vegetal e uma série
quase infinita de outros acontecimentos que tendem a mudar com o tempo. É
de essencial importância para a geografia o estudo destes fenômenos no
espaço, no tempo, seu inter-relacionamento e agrupamento em padrões e
funções.
Surgida na Grécia antiga o estudo da superfície da Terra
se perdeu no mundo cristão junto com o conhecimento grego na Idade Média,
ressurgindo com o renascimento e os grandes exploradores do século XIV e
XV. Dadas todas as possibilidades de estudo, a geografia é hoje uma
disciplina extremamente complexa e está dividida em inúmeras áreas
especializadas:
Geografia Social - estuda a mudança na distribuição espacial de
pessoas e sua atividades, além da interação destas com seu ambiente. A
geografia social empresta muito das ciências sociais, mas é especialmente
preocupada com descrições e análises de distribuição espacial.
Geografia Física - estuda as condições naturais e seus processos
como ocorrem na superfície da Terra, as formas espaciais resultantes são
objeto de várias subdisciplinas :
Climatologia
Biogeografia
Geomorfologia
PEQUENA HISTÓRIA DA GEOGRAFIA:
Considerada por alguns como uma das mais antigas
disciplinas acadêmicas, a geografia surgiu na Antiga Grécia, sendo no
começo chamada de história natural ou filosofia natural.
Grande parte do mundo ocidental conhecido era dominada
pelos gregos, em especial o leste do Mediterrâneo. Sempre interessados em
descobrir novos territórios de domínio e atuação comercial, era
fundamental que conhecessem o ambiente físico e os fenômenos naturais. O
céu claro do Mediterrâneo facilitava a vida dos navegantes gregos, sempre
atentos às características dos ventos, importantes para sua navegação em
termos de velocidade e segurança. Sobre tais experiências, os gregos
deixaram para as futuras gerações escritos que contavam a sua vivência
geográfica. Estudos feitos acerca do rio Nilo, no Egito, detalhavam, entre
outras coisas, seu período de cheia anual.
No século IV a.C., os gregos observavam o planeta como um
todo. Através de estudos filosóficos e observações astronômicas,
Aristóteles foi o primeiro a receber crédito ao conceituar a Terra como
uma esfera. Em sua especulação sobre o formato da Terra, Strabo acabou
escrevendo um obra de 17 volumes, 'Geographicae', onde descrevia suas
próprias experiências do mundo - da Galícia e Bretanha para a Índia, e do
Mar Negro à Etiópia. Apesar de alguns erros e omissões em sua obra, Strabo
acabou tornando-se o pai de geografia regional.
Com o colapso do Império Romano, os grandes herdeiros da
geografia grega foram os árabes. Muitos trabalhos foram traduzidos do
grego para o árabe. Ocorreram, no entanto, a partir daí, algumas
regressões: após o ano de 900 d.C., as indicações de latitude e longitude
já não apareciam mais nos mapas. De todo modo, os árabes acabaram
recuperando e aprofundando o estudo da geografia, e já no século XII,
Al-Idrisi apresentaria um sofisticado sistema de classificação climática.
Em suas viagens à África e à Ásia, outro explorador árabe, Ibn Battuta,
encontrou a evidência concreta de que, ao contrário do que afirmara
Aristóteles, as regiões quentes do mundo eram perfeitamente
habitáveis.
Já no século XV, viajantes como Bartolomeu Dias e
Cristóvão Colombo redescobririam o interesse pela exploração, pela
descrição geográfica e pelo mapeamento. A confirmação do formato global da
Terra veio quinze anos mais tarde, em uma viagem de circunavegação
realizada pelo navegador português Fernando Magalhães, permitindo uma
maior precisão das medidas e observações.
Grandes nomes se empenharam no estudo das várias áreas da
geografia. A geografia social, por exemplo, recebeu a dedicação de nomes
como Goethe, Kant, e Montesquieu, preocupados em estabelecer em seu estudo
a relação entre a humanidade e o meio ambiente. A geografia recebeu novas
subdivisões, entre as quais, a geografia antropológica e a geografia
política.
Por volta do século XIX, surgia a Escola Alemã,
apresentando o determinismo, que suportava a idéia de que o clima era
capaz de estimular ou não a força física e o desenvolvimento intelectual
das pessoas. Assim, afirmava que nas zonas temperadas a civilização teria
um desenvolvimento mais elevado do que nas quentes e úmidas zonas
tropicais. Já nos anos 30, a Escola Francesa lançava o possibilismo, que
afirmava que as pessoas poderiam determinar seu desenvolvimento a partir
de seu ambiente físico, ou seja, sua escolha, determinaria a extensão de
seu avanço cultural.
Chegaram os anos 60 com todas as suas revoluções, e o
desejo de fazer da geografia um estudo mais científico, mais aceito como
disciplina, levaram à adoção da estatística como recurso de apoio. No
final da década, duas novas técnicas de suma importância para a geografia
começavam a ser desenvolvidas: o computador eletrônico e o satélite, dando
nova ênfase à disciplina.
STRABO
(n.c. 63 a.C. - m.c. 24 d.C.)
Geógrafo e historiador grego, nasceu em Amaseia, Pontus
(agora Amasya, Turquia). Strabo começou seus estudos com Aristodemus e em
44 a.C. foi para Roma estudar com Tyrannion, ex-professor de Cícero. Antes
de deixar Roma ele concluiu sua monumental obra de 43 volumes intitulada
'Esboço Histórico' da qual só sobraram pedaços. Em 31 a.C. Strabo começou
suas viagens na Europa, Ásia e África, tendo viajado quase todo o mundo
conhecido da época, ele voltou a Roma em 17 d.C. e escreveu seu mais
importante trabalho de 17 volumes intitulado 'Geographicae' (ou
Geografia). Esta foi a primeira vez que surgiu a palavra Geografia. Os
volumes parecem mais o que hoje conhecemos como guias e eram escritos para
uso militar. Esta obra é o principal documento daquela época conservado
inteiro (com exceção de partes do volume sete) até os dias de hoje.
ERATOSTHENES
(n.c. 276 a.C. - m.c. 196 a.C.)
Matemático, astrônomo, geógrafo e poeta grego, nasceu em
Cyrene (agora Shahhat, Líbia). Em 240 a.C. ele se tornou
bibliotecário-chefe da Biblioteca de Alexandria, ficando responsável na
sua época pelo maior acervo sobre o conhecimento humano até sua data.
Eratosthenes é mais conhecido hoje pelo seu preciso cálculo da
circunferência da Terra (erro de menos de 5%) numa época aonde não se
acreditava que a Terra seria redonda. Para chegar a tais cálculos
Eratosthenes empregou seus conhecimentos de astronomia para determinar a
latitude de Assuã e Alexandria no Egito, e mediu a distância entre elas,
tendo notado que a imagem da sombra de uma torre de igual altura em Aswan
e Alexandria tinha diferentes comprimentos numa mesma hora do dia, ele
chegou a conclusão que a Terra era redonda e calculou com seus dados a sua
circunferência. O seu mais importante trabalho foi um tratado sistemático
sobre geografia; após ficar cego com quase 80 anos se suicidou por
inanição.
PTOLOMEU
(também Claudius Ptolomaeus)
(c. 100-70 d.C.)
Astrônomo e matemático grego, viveu em Alexandria, Egito
e era cidadão romano. Seu primeiro trabalho e o mais importante foi o
'Almagesti' (Grande Obra), traduzido para o árabe 500 anos depois. Nesta
obra ele propunha o sistema de geocentrismo o qual descrevia a Terra no
centro do universo com o sol, planetas e as estrelas rodando em círculos
ao seu redor. Este trabalho de Ptolomeu influenciou o pensamento
astronômico durante mais de mil e quinhentos anos até ser substituído pela
teoria heliocêntrica de Copérnico. Para a geografia sua mais importante
obra foi 'A Geografia', uma tentativa de mapear o mundo conhecido da
época, que listava latitudes e longitudes de locais importantes
acompanhadas de mapas e uma descrição de técnicas de mapeamento. Nesta
compilação Ptolomeu pegou dados seus e de Hiparco, Strabo e Marinus de
Tiro. Mesmo com informações imprecisas este trabalho foi a principal
ferramenta de orientação geográfica até o fim da renascença.
HUMBOLDT, FRIEDRICH W. H. ALEXANDER
VON
(n. 14/9/1769 - m. 6/5/1859)
Geógrafo, naturalista e explorador alemão, nasceu em
Berlim, mais conhecido pelas suas contribuições a geologia, climatologia e
oceanografia. Ainda jovem Humboldt foi apresentado a um grupo de
intelectuais (entre os quais Moses Mendelssohn) pelo seu tutor. Em 1879
ele foi para a Universidade de Gottingen, aonde estudou arqueologia,
física e filosofia. O seu interesse por botânica e explorações foi
intensificado ao conhecer Georg Forster, que acabará de voltar de uma
viagem ao redor do mundo com o famoso Capitão James Cook. Após um ano
Humboldt largou Gottingen para estudar geologia com A.G. Werner na escola
de minas de Freiburg e depois veio a se tornar inspetor de minas do
governo da Prússia. Uma farta herança de sua mãe o permitiu se dedicar aos
seus interesses por exploração científica.
Em 1799, Humboldt explorou durante 5 anos a América
Latina, visitando países como Equador, Colômbia, Venezuela, México e Peru,
além de parte da bacia amazônica. Durante esta viagem ele coletou muitos
dados sobre clima, fauna, flora, astronomia, geologia e sobre o campo
magnético da Terra. Durante sua estada no Peru fez precisas medições sobre
uma corrente fria descoberta por ele que veio a ser chamada pelo seu nome
e hoje é mais conhecida como Corrente do Peru. Após uma breve estada nos
Estados Unidos da América foi morar em Paris aonde ficou até 1827, período
durante qual escreveu uma obra de 23 volumes com as descobertas feitas na
viagem. Em 1827 viajou para Berlim e foi nomeado assessor do rei da
Prússia. Em 1829 por convite do Czar russo Nicolau I viajou aos Montes
Urais e Sibéria para fazer estudos geológicos e fisiográficos.
O resto de sua vida foi dedicada a escrever sua principal
obra intitulada 'Kosmos' na tentativa abrangente de descrever o universo
como um todo e mostrar que tudo era interrelacionado. Humboldt foi o
primeiro a mapear pontos isotérmicos (linhas conectando pontos geográficos
de mesma temperatura) e impulsionando assim o estudo da climatologia.
RITTER, KARL
(n. 1779 - m.1859)
(também Carl Ritter)
Geógrafo alemão, conhecido como fundador da moderna
ciência da geografia. Ritter mostrou ao mundo o princípio da relação entre
a superfície da Terra e a natureza e os seres humanos, era defensor
constante do uso de todas as ciências para o estudo da geografia. Foi
professor de geografia na Universidade de Berlin de 1820 até sua morte;
seu mais importante trabalho, 'Die Erdkunde' (Ciência da Terra, 19
volumes, 1817-1859), enfatizava a influência de fenômenos físicos na
atividade humana.
RATZEL, FRIEDRICH
(n. 30/8/1844 - m. 9/8/1904)
Geógrafo e etnólogo alemão fundador da geografia política
moderna (ou geopolítica), o estudo da influência do ambiente na
política de uma nação ou sociedade. Dele originou-se o conceito de 'espaço
vivo' (Lebensraum), que se preocupa com a relação de grupos humanos com os
espaços do seu ambiente. Ele lecionou na Univesidade de Munique entre 1875
e 1886, e desta data até sua morte foi professor de geografia da
Universidade de Leipzig. Seu conceito de 'espaço vivo' foi depois usado
pelo Partido Nacional Socialista (Nazista) para justificar a expansão
germânica e a anexação de territórios que precedeu a segunda guerra
mundial.
A Geografia a Guerra:
Julga-se que a Geografia não é mais do que uma disciplina
escolar e universitária, cuja função seria fornecer elementos de uma
descrição do mundo, dentro de uma concepção desinteressada da cultura dita
geral. Pois qual poderia ser a utilidade daquelas estranhas frases soltas
em alguns livros de Geografia, que é necessário aprender nas escolas? Os
maciços dos Alpes do Norte, a altitude do Pico Everest, a densidade
demográfica da Holanda, a capital do Nepal etc. E os nossos pais e avós a
lembrarem que em seu tempo era necessário saber as capitais de todos os
países de certo continente. Para que serve tudo isso? Uma disciplina
"estupidificante" mas, apesar de tudo, simples, pois, como toda a gente
sabe, "em Geografia não há nada que perceber, é preciso é ter memória, é
só decorar".
Antigamente, talvez esta Geografia tenha servido para
qualquer coisa, mas, hoje, a televisão, as revistas, os jornais não
mostram melhor todos os países através de notícias, e o cinema mostra
melhor as paisagens? Mas, que diabo, dirão todos os que não são geógrafos:
a Geografia não serve para nada!
A toda a ciência ou saber deve ser feito o seguinte
questionamento: o processo científico está ligado a uma história e deve
ser analisado, por um lado, na sua relação com as ideologias; por outro
lado, como prática ou como poder. Dizer antecipadamente que a Geografia
serve, antes de mais nada, para fazer a guerra, não implica que sirva
apenas para executar operações militares; ela serve também para organizar
os territórios, não só como previsão de batalhas que se deverão travar
contra tal ou tal inimigo, mas também para melhor controlar os homens
sobre os quais os aparelhos de Estado exercem a sua autoridade. A
Geografia é, antes de mais nada, um saber estratégico intimamente ligado a
um conjunto de práticas políticas e militares e são essas práticas que
exigem a acumulação articulada de informações extremamente variadas, à
primeira vista desconexas, de que não é possível compreender a razão de
ser, a importância, se nos mantivermos dentro dos limites do saber pelo
saber. São as práticas estratégicas que fazem com que a Geografia seja
necessária, em primeiro lugar, aos que comandam os aparelhos de Estado.
Hoje, mais do que nunca, a Geografia serve, antes de mais
nada, para fazer a guerra. Pôr em prática novos métodos de guerra implica
uma análise extremamente precisa das combinações geográficas, das relações
entre os homens e das "condições naturais" que é necessário destruir ou
modificar para tornar determinada região inabitável ou para levar a cabo
um genocídio. A Guerra do Vietnã fornece numerosas provas de que a
Geografia serve para fazer a guerra de maneira mais global. Um dos mais
célebres e mais dramáticos exemplos foi posto em prática em 1965,
1966,1967 e sobretudo, em 1972, em um plano de destruição sistemática da
rede de diques que protegem as planícies extremamente populosas do Vietnã
do Norte. A escolha do locais a bombardear resultou de um estudo
geográfico a vários níveis de análise espacial.
Adaptado de LACOSTE, Y. A Geografia - Isso Serve, em
Primeiro Lugar, para Fazer a Guerra. São Paulo, Papirus Editora, 1989, pp.
21-30.
Retirado de: COIMBRA, Pedro e TIBÚRCIO, José Arnaldo.
Geografia - uma análise do espaço geográfico. São Paulo,
Harbra, 1995.
A NOVA ORDEM MUNDIAL:
Nos últimos anos o mundo sofreu grandes mudanças. A União
Soviética, um dos dois países mais poderosos no século XX, não existe
mais. A antiga Iugoslávia viu-se esfacelada e ingressou numa guerra
violenta. O mundo socialista, parece que está chegando ao seu final,
permanecendo somente alguns restos ou ruínas. Como explicar todas essas
alterações no espaço geográfico mundial?
Desde 1989 que os meios de comunicação e o público em
geral "cobram" insistentemente dos professores de Geografia o "novo"'
mapa-múndi, o mapeamento exato da realidade internacional. Só que isso é
apenas um detalhe, uma aparência: mais importante que mostra onde começa a
Croácia e onde termina a Sérvia, onde se localiza a Ucrânia e onde fica o
Casaquistão, mais importante que saber a capital da Iuguslávia ou do
Usbequistão é compreender o porquê das mudanças. O fundamental é entender
os processos, a dinâmica da realidade, e não ficar memorizando os
detalhes, mesmo porque estes últimos sempre mudam, sempre se alteram de
uma maneira ou de outra, com um ritmo mais demorado ou mais rápido.
Não existe, portanto, o mapa-múndi exato, definitivo,
aquele que é o único correto. Sempre ocorrem mudanças nessa realidade,
redefinições de fronteiras, surgimento ou desaparecimento de
Estados-nações. A maior novidade destes últimos anos está no ritmo
acelerado dessas transformações, comparável em nosso século somente àquela
de 1939-45.
Para entendermos o novo mapa-múndi, é necessário, em
primeiro lugar, estudar o sentido dessas mudanças, as suas razões e as
suas articulações. Mais do que mudanças cartográficas, elas implicaram um
novo ordenamento geopolítico do mundo, uma nova correlação de forças
internacionais .
Cabe, portanto, explicar por que o mundo mudou a partir
de 1989, expondo como funcionava o mundo bipolar das últimas décadas e os
motivos que levaram à sua crise, (...) e analisar os principais aspectos
da nova ordem mundial - as contradições, o agravamento do racismo, a
questão ambiental, a oposição entre o Norte e o Sul, os três pólos ou
centros da economia mundial...
Além de mostrar a ordenação atual do mundo, é preciso uma
discussão sobre o século XXI e quais as chances de cada país - e em
particular do Brasil - de enfrentar a nova realidade internacional e
prosseguir com seu processo de modernização.
VESSENTINI, J. William. A nova ordem mundial. São Paulo,
Ática, 1995. Livro do Professor
Geografia: ciência do espaço:
O que significa estudar geograficamente o mundo ou parte
do mundo?
A Geografia se propõe a algo mais que descrever
paisagens, pois a simples descrição não nos fornece elementos suficientes
para uma compreensão global daquilo que pretendemos conhecer
geograficamente.
As paisagens que vemos são apenas manifestações aparentes
das relações estabelecidas entre os muitos e variados integrantes do nosso
planeta e até mesmo do Universo.
Da energia do Sol à ação dos bichos, das plantas, das
águas e dos ventos; dos movimentos executados pela Terra aos constantes
deslocamentos verificados na crosta terrestre; das formas restritas e
localizadas de atuação das tribos indígenas à planetária intervenção das
modernas sociedades industriais não nos faltam dinâmicas e relações a
serem investigadas.
Ir além das aparências significa considerar que por trás
de toda paisagem temos, necessariamente, uma dinâmica particular que a
determina, que a constrói, que a mantém com determinada aparência, por
exemplo, de floresta, de deserto, ou até mesmo de cidade.
Estudar geograficamente o mundo, no todo ou em parte, é
buscar entender como e por que as paisagens - sejam elas quais forem -
apresentam as características que observamos. Ou seja, o que se busca é o
entendimento do espaço geográfico, que, dessa forma, deve ser entendida
como algo que inclui não só aquilo que vemos (paisagem), mas também os
fatores determinantes da aparência. Entre todas as dinâmicas de que
resultam as diversas paisagens que se espalham pelo mundo, as impostas
pelo ritmo e pelas necessidades das modernas sociedades industriais são
hoje as mais presentes na quase totalidade das paisagens que venhamos a
investigar.
Portanto, uma investigação de fato geográfica acerca do
mundo atual deve, mais do que se ocupar de descrições de realidades
aparentes (paisagens), propor-se a investigar, principalmente, o modo pelo
qual a sociedade produz o espaço geográfico.
Para melhor compreensão do que estamos dizendo, vamos
considerar que qualquer pessoa é capaz de identificar um conhecido
"cartão-postal" do Brasil. Trata-se da cidade do Rio de Janeiro, da qual
se vê a baía de Guanabara, o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor, etc.
Se a investigação geográfica dessa paisagem se
restringisse à descrição dos elementos que a constituem, bastaria
acrescentar mais alguns nomes à lista que iniciamos. Assim, mencionaríamos
também os diversos tipos de construções e moradias, as praias, os vários
tipos de embarcações, as pistas asfaltadas, os carros, etc.
Mas, como dissemos, não basta fazer uma espécie de
fotografia falada ou escrita das paisagens, pois o espaço geográfico não
se revela apenas na aparência das coisas, mas sobretudo na investigação
das razões que determinam essa aparência.
E, para entendermos de fato esse espaço, ou descobrirmos
tais razões, teríamos de necessariamente responder a muitas questões, tais
como:
- Por que exatamente neste local construíram-se tantos prédios e
tantas avenidas? Para onde vão ou de onde vêm essas embarcações, esses
carros, ou esses ônibus?
- Por que a imagem do Cristo Redentor foi colocada num dos lugares
mais altos da paisagem?
- Por que a baía tem esse formato?
- Como surgiram os morros em torno da baía?
- Por que alguns dos morros têm cobertura vegetal e outros não?
- E as pessoas? Onde estão, o que fazem, como vivem?
- Ao responder a essas e a muitas outras questões que poderíamos
formular a partir de uma simples observação atenta da paisagem, buscamos
na verdade desvendar as dinâmicas responsáveis por cada um dos elementos
aparentes que nos chamam a atenção. Ou, em outras palavras, estaríamos
desvendando o espaço geográfico do qual esse cartão-postal do Rio de
Janeiro revela apenas a aparência.
- PEREIRA, Diamantino; SANTOS, Douglas e CARVALHO, Marcos de.
Geografia: ciência do espaço - o espaço mundial. São
Paulo, Atual, 1993.
Geografia?
Estudar Geografia é uma forma de compreender o mundo em
que vivemos. Por meio desse estudo, podemos entender melhor tanto o local
em que moramos - seja uma cidade ou uma área rural - quanto o país do qual
fazemos parte, assim como os demais países da superfície terrestre. O
campo de preocupações da Geografia diz respeito ao espaço da sociedade
humana, sobre o qual os homens e as mulheres vivem e, ao mesmo tempo,
produzem modificações que o (re)constroem permanentemente. Indústrias,
cidades, agricultura, rios, solos, climas, populações: todos esses
elementos - além de outros - constituem o espaço geográfico, isto é, o
meio ou realidade material onde a humanidade vive e do qual ela própria é
parte integrante. Tudo nesse espaço depende do homem e da natureza. Esta
última é a fonte primeira de todo o real: a água, a madeira, o petróleo, o
ferro, o cimento, o asfalto e todas as outras coisas que existem nada mais
são, no final das contas, do que aspectos da natureza.
- Mas o homem reelabora esses elementos naturais ao fabricar os
plásticos a partir do petróleo, ao represar rios e construir usinas
hidrelétricas, ao aterrar pântanos e edificar cidades, ao inventar
velozes aviões para encurtar as distâncias, Assim, o espaço geográfico
não é apenas o local de morada da sociedade humana, mas principalmente
uma realidade que é a cada momento (re) construída pela atividade do
homem.
As modificações que a sociedade humana produz em seu
espaço são hoje mais intensas do que no passado. Tudo o que nos rodeia se
transforma rapidamente. Com a interligação entre todas as partes do globo,
com o desenvolvimento dos transportes e das comunicações, passa a existir
um mundo cada vez mais unitário. Pode-se dizer que, em nível planetário,
há uma única sociedade humana, embora seja uma sociedade plena de
desigualdades e diversidades. Os "mundos" ou sociedades isoladas, que
viviam sem manter relações com o restante da humanidade, cederam lugar ao
espaço global da sociedade moderna. Na atualidade não existe nenhum país
que não dependa dos demais, seja para o suprimento de parte das suas
necessidades materiais, seja pela internacionalização da tecnologia, da
arte, dos valores, da cultura afinal. Um acontecimento importante - uma
guerra civil, fortes geadas com perdas agrícolas, a invenção de um novo
tipo de computador, a descoberta de enormes jazidas petrolíferas, etc. -
que ocorra numa parte qualquer da superfície terrestre provoca
repercussões em todo o conjunto do globo. Muito do que acontece em áreas
distantes acaba nos afetan-do de uma forma ou de outra, mesmo que não
tenhamos consciência disso. Não vivemos mais em aldeias relativamente
independentes, como nossos antepassados longínquos, mas num mundo
interdependente e no qual as transformações se sucedem numa velocidade
acelerada.
Para nos posicionarmos inteligentemente frente a este
mundo, temos de conhecê-lo bem. Para nele vivermos de forma consciente e
crítica, devemos estudar os seus fundamentos, desvendar os seus
mecanismos. Ser cidadão pleno em nossa época significa antes de tudo estar
integrado criticamente na sociedade, participando ativamente de suas
transformações. Para isso devemos refletir sobre o nosso mundo,
compreendendo-o do âmbito local até o nacional e o planetário. E a
Geografia é um instrumento indispensável para empreendermos essa reflexão.
VESENTINI, J. Willian. Sociedade e Espaço. São Paulo,
Ática, 1993.
Espaço geográfico?
Ao mesmo tempo em que o homem modifica a Natureza, ele
cria um espaço ou lugar para viver e garantir a sua existência.
Constrói campos de cultivo (a agricultura), cidades,
estradas, indústrias, extrai da natureza minerais com os quais fabrica
vários produtos de que necessita, cria gado e muitas outras coisas.
Os espaços produzidos pelo homem recebem o nome de
espaços geográficos.
Desse modo, podemos compreender que o espaço geográfico
inclui a Natureza e o homem.
NA PRODUÇÃO OU CRIAÇÃO DO ESPAÇO GEOGRÁFICO,
OS HOMENS RELACIONAM-SE ENTRE SI
a)
Os indígenas e a Natureza
Pode ser verificado, através da História, que o homem é
um produtor de espaços geográficos.
Ele transforma o espaço terrestre segundo as suas
necessidades e interesses, criando, assim, espaços geográficas. Observe,
por exemplo, a História do Brasil. Antes de o colonizador* ou conquistador
português chegar ao Brasil e iniciar a exploração dos recursos naturais e
o povoamento do território, existia aqui uma Natureza primitiva
(vegetação, rios, animais, solo etc.).
A Natureza não tinha sofrido ainda grande modificação
pelo homem. Aqui viviam os indígenas, os primeiros habitantes da terra,
mas eles pouco tinham modificado a Natureza, por várias razões:
- havia um número pequeno de indígenas em relação ao grande
território;
- utilizavam primitivos instrumentos de trabalho;
- a organização social e econômica era simples (você sabe que os
homens organizam-se em grupos para garantir a reprodução da espécie e
para produzir os seus meios de subsistência) ;
- os indígenas eram coletores de produtos vegetais (frutos, raízes e
folhas), pescadores,. caçadores e poucas tribos praticavam ou
conheciam a agricultura;
- não existia, na sua organização social e econômica, a propriedade
individual, isto é, a Natureza e os seus recursos pertenciam a todos,
e a produção obtida era repartida entre os membros da tribo; formavam,
assim, uma sociedade igualitária (de iguais) ; as relações dos membros
da tribo eram de cooperação. Ainda, atualmente, os indígenas que não
foram aculturados * pelos brancos vêem a Natureza de forma diferente
da maioria das pessoas "civilizadas ". Entendem que ele é fonte de
recursos ou de vida. Respeitam-na. Caçam ou pescam apenas o necessário
para sua subsistência. A Natureza não é vista por eles como fonte de
lucro.
O espaço
não é de todos e sim de alguns
- Quando o conquistador ou colonizador português chegou ao território
brasileiro, ele começou a reconstruir ou criar o espaço geográfico de
forma diferente do espaço criado pelos indígenas.
- Assim como para os indígenas, o que interessava ao colonizador era
também garantir a sua subsistência.
Entretanto, a organização social e econômica do
colonizador era bem diferente da do indígena.
Enquanto entre os indígenas não havia dinheiro, desejo de
lucro, sentimento de propriedade individual ou de posse da terra ou de
seus recursos, entre os colonizadores esses costumes já existiam e foram
introduzidos no Brasil, pois era assim que muitos países da Europa se
organizavam.
Por causa de sua superioridade técnica, como, por
exemplo, os armamentos que possuíam, começaram a conquistar o espaço.
Tomaram as terras dos primitivos habitantes do Brasil (os indígenas). Além
disso, muitos destes foram expulsos para o interior do território ou ainda
escravizados e/ou exterminados* em lutas ou através de contágios de
doenças.
Tendo a posse do espaço e de sua gente, os colonizadores
passaram a organizá-lo ou recriá-lo, segundo as suas necessidades e
interesses.
Derrubaram matas e introduziram o cultivo de produtos
que, além de atender às suas necessidades de subsistência, se destinavam à
exportação.
Mas nem todos os homens eram donos de terra ou do
comércio. Havia os trabalhadores assalariados (que recebem um pagamento em
dinheiro pelo seu trabalho) e os escravos negros, trazidos da África.
Os homens construíram, no território brasileiro, como em
outros países do mundo, vilas, cidades, estradas, alteraram cursos de rios
para a irrigação de terras e para a produção de energia elétrica, e muitas
outras coisas.
Alteraram o espaço natural e produziram o espaço
geográfico.
Foi uma obra maravilhosa, de coragem, de dificuldades e
de muito trabalho, mas que apresentou, por sua vez, grandes injustiças e
conflitos entre os homens. Por que isso ocorreu?
Porque, no ato de produção ou reconstrução do espaço
geográfico, predominaram os interesses individuais e não os coletivos (de
todos), como ocorre em muitas sociedades indígenas. Uns tornaram-se
possuidores de terras e dos instrumentos de produção( máquinas,
ferramentas, edifícios etc.), e a grande maioria dos homens ficou apenas
com a sua força de trabalho, força essa que é comprada por um salário
quase sempre insuficiente para subsistir.
Diante do que acabamos de expor, podemos concluir que o
espaço e os seus recursos não pertencem a todos os membros da sociedade
que nele vivem, e sim a alguns.
E assim tem sido, até os dias atuais, o aproveitamento
econômico do espaço terrestre e a construção do espaço geográfico pelos
homens.
O espaço é organizado ou modificado segundo os interesses
do grande capital (de grandes empresas ou grandes capitalistas, isto é,
que possuem muito dinheiro). É o caso, por exemplo, do povoamento recente
das Regiões Norte e Centro-Oeste* do Brasil.
Os interesses do grande capitalista chocam-se com os
interesses do pequeno agricultor, do garimpeiro, dos indígenas e dos
homens sem terra ou trabalhadores. Chocam-se também com a necessidade de
se manter o equilíbrio da natureza.
Vê-se, então, que o espaço geográfico reflete ou reproduz
a sociedade que nele vive e principalmente as relações que se estabelecem
entre os homens na busca de sua subsistência.
ADAS, Melhem. Geografia. São Paulo, Moderna, 1984, vol.
1, p. 68-70.
GLOBALIZAÇÃO:
Introdução:
A expressão "globalização" tem sido utilizada mais
recentemente num sentido marcadamente ideológico, no qual assiste-se no
mundo inteiro a um processo de integração econômica sob a égide do
neoliberalismo, caraterizado pelo predomínio dos interesses financeiros,
pela desregulamentação dos mercados, pelas privatizações das empresas
estatais, e pelo abandono do estado de bem-estar social. Esta é uma das
razões dos críticos acusarem-na, a globalização, de ser responsável pela
intensificação da exclusão social (com o aumento do número de pobres e de
desempregados) e de provocar crises econômicas sucessivas, arruinando
milhares de poupadores e de pequenos empreendimentos.
No texto que se segue não trataremos deste fenômeno no
sentido ideológico mas sim no seu significado histórico. Demonstramos que
o processo de globalização (aqui entendido como integração e
interdependência econômica) deita suas raizes há muito tempo atrás, no
mínimo há 5 séculos, passando desde então por etapas diversas. Aqui o
termo é empregado para fins específicos de uma síntese histórica, bem
distante das manipulações ideologicas que possam ele sofrer. Portanto,
para nós, ele tem um significado mais profundo e não apenas
propagandístico.
As Economias-Mundo antes das
Descobertas:
Antes de ter inicio a primeira fase da globalização, os
Continentes encontravam-se separados por intransponíveis extensões
acidentadas de terra e de águas, de oceanos e mares, que faziam com que a
maioria dos povos e das culturas soubessem da existência uma das outras
apenas por meio de lendas, com a do Preste João, ou imprecisos e
imaginários relatos de viajantes, como o de Marco Polo. Cada povo vivia
isolado dos demais, cada cultura era auto-suficiente. Nascia, vivia e
morria no mesmo lugar, sem tomar conhecimento da existência dos
outros.
Até o século 15 identificamos 5 economias-mundo (é uma
expressão de Fernand Braudel), totalmente autonomas, espalhadas pela Terra
e que viviam separadas entre elas. A primeira delas, a da Europa, era
composta pelas cidades italianas de Gênova, Veneza, Milão e Florença, que
mantinham laços comerciais e financeiros com o Mediterrâneo e o Levante
onde possuiam importantes feitorias e bairros comerciais. Bem mais ao
norte, na França setentrional, vamos encontrar outra área comercial
significativa na região de Flandres, formada pelas cidades de Lille,
Bruges e Antuérpia, vocacionadas para os negócios com o Mar do Norte. No
Mar Báltico entrava-se a Liga de Hansa, uma cooperativa de mais de 200
cidades mercantes lideradas por Lübeck e Hamburgo, que mantinham um eixo
comercial que ia de Novgorod, na Rússia, até Londres na Inglaterra.
No sudeste europeu, por então, agoniza o comércio
bizantino (que atuava no mar Egeu e no mar Negro), pressionado pela
expansão dos turcos que terminaram por ocupar a grande cidade em 1453,
enquanto que a Rússia via-se limitada pelos Canatos Mongóis que ocupavam
boa parte do leste do país.
Outra economia-mundo era formada pela China e regiões
tributárias como a península coreana, a Indochina e a Malásia, e que só se
ligava com a Ásia Central e o Ocidente através da rota da seda. O seu
maior dinamismo econômico encontrava-se nas cidades do sul como Cantão e
do leste como Xangai, grande portos que faziam a função de vasos
comunicantes com os arquipélagos do Mar da China.
A Índia, por sua vez, graças a sua posição geográfica,
traficava num raio econômico mais amplo. No noroeste, pelo Oceano Índico e
pelo Mar Vermelho, estabelecia relações com mercadores árabes que tinham
feitorias em Bombaim e outros portos da Índia ocidental, enquanto que
comerciantes malaios eram acolhidos do outro lado, em Calcutá. Seu imenso
mercado de especiarias e tecidos finos era afamado, mas só pouca coisa
chegava ao Ocidente graças ao comércio com o Levante. Foi a celebração das
suas riquezas que mais atraiu a cobiça dos aventureiros europeus como o
lusitano Vasco da Gama.
Subdividida pelo deserto do Saara numa África árabe ao
Norte, que ocupa uma faixa de terra a beira do Mediterrâneo e Vale do rio
Nilo, com relações comerciais mais ou menos intensas com os portos
europeus e, ao Sul, numa outra África, a África negra, isolada do mundo
pelo deserto e pela floresta tropical, formava um outro planeta econômico
totalmente a parte, voltado para si mesmo.
Por último, mas desconhecida das demais, encontrava-se
aquela formada pelas civilizações pré-colombianas, a Azteca no México, a
dos Maias no Yucatan e no istmo, e a Inca no Peru , organizadas ao redor
do cultivo do milho e na elaboração de tecidos, sendo elas
auto-suficientes e sem interligações entre si, nem terrestres nem
oceânicas.
Durante milhares de anos elas desconheceram-se e nem
imaginavam que algum dia poderiam estabelecer relações significativas. Se
é certo que em suas bordas haviam escambo ou comércio, eles eram
insignificantes. Portanto, numa longa perspectiva, pode-se dizer que a
internacionalização do comércio e a aproximação das culturas é um fenômeno
recentissimo, datando dos últimos cinco séculos, apenas 10% do tempo da
história até agora conhecida.
A primeira fase da Globalização
(1450-1850):
"Por mares nunca dantes navegados/.....Em perigos e
guerra esforçados, mais do que prometia a força humana/ E entre gente
remota edificaram/ Novo reino, que tanto sublimaram" - Luís de Camões - Os
Lusíadas, Canto I, 1572.
Há, como em quase tudo que diz respeito à história,
grande controvérsia em estabelecer-se uma periodização para estes cinco
séculos de integração econômica e cultural, que chamamos de globalização,
iniciados pela descoberta de uma rota marítima para as Índias e pelas
terras do Novo Mundo. Frédéric Mauro, por exemplo, prefere separá-lo em
dois momentos, um que vai de 1492 até 1792 (data quando, segundo ele, a
Revolução Francesa e a Revolução Industrial fazem com que a Europa, que
liderou o processo inicial da globalização, voltou-se para resolver suas
disputas e rivalidades), só retomando a expansão depois de 1870, quando
amadureceram as novas técnicas de transporte e navegação como a
estrada-de-ferro e o navio à vapor.
No critério por nós adotado, consideramos que o processo
de globalização ou de economia-mundo capitalista como preferiu Immanuel
Wallerstein, nunca se interrompeu. Se ocorreram momentos de menor
intensidade, de contração, ela nunca chegou a cessar totalmente. De certo
modo até as grandes guerras mundiais de 1914-18 e de 1939-45, e antes
delas a Guerra dos 7 anos (de 1756-1763), provocaram a intensificação da
globalização quando adotaram-se macro-estratégias militares para acossar
os adversários, num mundo quase inteiramente transformado em campo de
batalha. Basta recordar que soldados europeus, nas duas maiores guerras do
século 20, lutavam entre si no Oriente Médio e na África, enquanto que
tropas colônias desembarcavam na Europa e marchavam para os campos de
batalha nas planícies francesas enquanto que as marinhas européias,
americanas e japonesas se engalfinhavam em quase todos os mares do
mundo.
Assim sendo, nos definimos pelas seguintes etapas:
primeira fase da globalização, ou primeira globalização, dominada pela
expansão mercantilista (de 1450 a 1850) da economia-mundo européia, a
segunda fase, ou segunda globalização, que vai de 1850 a 1950
caracterizada pelo expansionismo industrial-imperialista e colonialista e,
por última, a globalização propriamente dita, ou globalização recente,
acelerada a partir do colapso da URSS e a queda do muro de Berlim, de 1989
até o presente.
Períodos da Globalização :
Data Período Caracterização
1450-1850 Primeira fase Expansionismo mercantilista
1850-1950 Segunda fase
Industrial-imperialista-colonialista
pós-1989 Globalização recente
Cibernética-tecnológica-associativa
A primeira globalização, resultado da procura de uma rota
marítima para as Índias, assegurou o estabelecimento das primeiras
feitorias comerciais européias na Índia, China e Japão, e, principalmente,
abriu aos conquistadores europeus as terras do Novo Mundo. Feitos estes
que Adam Smith, em sua visão eurocêntrica, considerou os maiores em toda a
história da humanidade. Enquanto as especiarias eram embarcadas para os
portos de Lisboa e de Sevilha, de Roterdã e Londres, milhares de
imigrantes iberos, ingleses e holandeses, e, um bem menor número de
franceses, atravessaram o Atlântico para vir ocupar a América. Aqui
formaram colônias de exploração, no sul da América do Norte, no Caribe e
no Brasil, baseadas geralmente num só produto (açúcar, tabaco, café,
minério, etc..) utilizando-se de mão de obra escrava vinda da África ou
mesmo indígena; ou colônias de povoamento, estabelecidas majoritariamente
na América do Norte, baseadas na média propriedade de exploração familiar.
Para atender as primeiras, as colônias de exploração, é que o brutal
tráfico negreiro tornou-se rotina, fazendo com que 11 milhões de africanos
(40% deles destinados ao Brasil) fossem transportados pelo Atlântico para
labutar nas lavouras e nas minas.
Igualmente não deve-se omitir que ela promoveu uma
espantosa expropriação das terras indígenas e no sufocamento ou destruição
da sua cultura. Em quase toda a América ocorreu uma catástrofe
demográfica, devido aos maus tratos que a população nativa sofreu e as
doenças e epidemias que os devastram, devido ao contato com os
colonizadores europeus.
Nesta primeira fase estrutura-se um sólido comércio
triangular entre a Europa (fornecedora de manufaturas) África (que vende
seus escravos) e América (que exporta produtos coloniais). A imensa
expansão deste mercado favorece os artesãos e os industriais emergentes da
Europa que passam a contar com consumidores num raio bem mais vasto do que
aquele abrigado nas suas cidades, enquanto que a importação de produtos
coloniais faz ampliar as relações inter-européias. Exemplo disso ocorre
com o açúcar cuja produção é confiada aos senhores de engenho brasileiros,
mas que é transportado pelos lusos para os portos holandeses, onde lá se
encarregam do seu refino e distribuição.
Os principais portos europeus, americanos e africanos
desta primeira globalização encontram-se em Lisboa, Sevilha, Cádiz,
Londres, Liverpool, Bristol, Roterdã, Amsterdã, Le Havre, Toulouse,
Salvador, Rio de Janeiro, Lima, Buenos Aires, Vera Cruz, Porto Belo,
Havana, São Domingo, Lagos, Benin, Guiné, Luanda e Cidade do Cabo.
Politicamente, a primeira fase da globalização se fez
quase toda ela sob a égide das monarquias absolutistas que concentram
enorme poder e mobilizam os recursos econômicos, militares e burocráticos,
para manterem e expandirem seus impérios coloniais. Os principais desafios
que enfrentam advinham das rivalidades entre elas, seja pelas disputas
dinásticas-territoriais ou pela posse de novas colônias no além mar, sem
esquecer-se do enorme estragos que os corsários e piratas faziam,
especialmente nos séculos 16 e 17, contra os navios carregados de ouro e
prata e produtos coloniais.
A doutrina econômica desta primeira fase foi o
mercantilismo, adotado pela maioria das monarquias européias para
estimular o desenvolvimento da economia dos reinos. Ele compreendia numa
complexa legislação que recorria a medidas protecionistas, incentivos
fiscais e doação de monopólios, para promover a prosperidade geral. A
produção e distribuição do comércio internacional era feita por mercadores
privados e por grandes companhias comerciais (as Cias. inglesas e
holandesas das Índias Orientais e Ocidentais) e, em geral, eram
controladas localmente por corporações de ofício.
Todo o universo econômico destinava-se a um só fim,
entesourar, acumular riqueza. O poder de um reino era aferido pela
quantidade de metal precioso (ouro, prata e jóias preciosas) existente nos
cofres reais. Para assegurar seu aumento o estado exercia um sério
controle das importações e do comércio com as colônias, sobre as quais
exerciam o oligopólio bilateral. (*)Esta política levou a que cada reino
europeu terminasse por se transformar num império comercial, tendo
colônias e feitorias espalhadas pelo mundo todo ( os principais impérios
coloniais foram o inglês, o espanhol, o português, o holandês e o
francês). Um dos símbolos desta época, a bolsa de valores de Amberes,
consciente do que representava, tinha como justo lema a frase latina "Ad
usum mercatorum cujusque gentis ac linguae", que ela servia aos mercadores
de todas as línguas da terra.
(*) o oligopólio bilateral é uma expressão que serve para
descrever a situação de subordinação em que as colônias se encontravam
perante as metrópoles. Além de estarem impedidas de negociarem com outros
países, elas eram obrigadas a adquirir suas necessidades apenas com
negociantes e mercadores metropolitanos bem como somente vender a eles o
que produziam, desta forma a metrópole ganhava ao vender e ao
comprar.
A segunda fase da Globalização
(1850-1950):
"Por meio de sua exploração do mercado mundial ,a
burguesia deu um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os
países...As velhas industrias nacionais foram destruídas ou estão-se
destruindo-se dia a dia....Em lugar das antigas necessidades satisfeitas
pela produção nacional, encontramos novas necessidades que querem para a
sua satisfação os produtos das regiões mais longínquas e dos climas os
mais diversos. Em lugar do antigo isolamento local...desenvolvem-se, em
todas as direções, um intercâmbio e uma interdependência universais.." -
Karl Marx - Manifesto Comunista, 1848
Os principais acontecimentos que marcam a transição da
primeira fase da globalização para a segunda dão-se nos campos da técnica
e da política. A partir do século 18, a Inglaterra industrializa-se
aceleradamente e, depois dela, a França, a Bélgica, a Alemanha e a Itália.
A máquina à vapor é introduzida nos transportes terrestres
(estradas-de-ferro) e marítimos (barcos à vapor) Consequentemente esta
nova época será regida pelos interesses da indústria e das finanças, sua
associada e, por vezes amplamenente dominante, e não mais das motivações
dinásticas-mercantís. Será a grande burguesia industrial e bancária, e não
mais os administradores das corporações mercantis e os funcionários reais
quem liderará o processo. Esta interpenetração dos bancos com a industria,
com tendências ao monopólio ou ao oligopólio, fez com que o economista
austríaco Rudolf Hilferding a denominasse de "O Capital Financeiro" (Das
Finanz kapital, titulo da sua obra publicado em 1910), considerando-a um
fenômeno novo da economia-politica moderna. Lenin definiu-a como a etapa
final do capitalismo, a etapa do imperialismo.
Luta ele - o capital financeiro - pela ampliação dos
mercados e pela obtenção de novas e diversas fontes de matérias primas. A
doutrina econômica em que se baseia é a do capitalismo laissez-faire, um
liberalismo radical inspirado nos fisiocratas franceses e apoiado pelos
economistas ingleses Adam Smith e David Ricardo que advogavam a superação
do Mercantilismo com suas políticas arcaicas. Defendem o livre-cambismo na
relações externas, mas em defesa das suas industrias internas continuam em
geral protecionistas, como é o caso da política Hamiltoniana nos Estados
Unidos e a da Alemanha Imperial e a do Japão(*).
A escravidão que havia sido o grande esteio da primeira
globalização, tornou-se um impedimento ao progresso do consumo e, somada à
crescente indignação que ela provoca, termina por ser abolida, primeiro em
1789 e definitivamente em 1848 ( no Brasil ela ainda irá sobreviver até
1888). Este segundo momento - segundo a orientação do que Hobson chamou de
"a politica de uma minoria sem escrúpulos" -, irá se caracterizar pela
ocupação territorial de certas partes da África e da Ásia, além de
estimular o povoamento das terras semi-desocupadas da Austrália e da Nova
Zelândia.
No campo da política a revolução americana de 1776 e a
francesa de 1789, irão liberar enorme energia fazendo com que a busca da
realização pessoal termine por promover uma grande ascensão social das
massas. Logo depois, como resultado das Guerras Napoleônicas e da
generalizada abolição da servidão e outros impedimentos feudais, milhões
de europeus (calcula-se em 60 milhões num século) abandonam seus lares
nacionais e emigram em massa para os Estados Unidos, Canadá, e para a
América do Sul (Brasil, Argentina, Chile e Uruguai).
A posse de novas colônias torna-se um ornamento na
política das potências (só a Grã-Bretanha possui mais de 50, ocupando
inclusive áreas antieconômicas). O cobiçado mercado chinês finalmente é
aberto pelo Tratado de Nanquim de 1842 e o Japão também é forçado a
abandonar a política de isolamento da época Tokugawa ao assinar um tratado
com os americanos em 1853-4.
Cada uma das potências européias rivaliza-se com as
demais na luta pela hegemonia do mundo, ou como disse John Strachey:
"lançaram-se unanimemente, numa rivalidade feroz...para anexar o resto do
mundo". O resultado é um acirramento da corrida imperialista e da política
belicista que levará os europeus à duas guerras mundiais, a de 1914-18 e a
de 1939-45. Entrementes outros aspectos técnicos ajudam a globalização: o
trem e o barco à vapor encurtam as distâncias, o telégrafo e , em seguida,
o telefone, aproximam os continentes e os interesses ainda mais. E,
principalmente depois do vôo transatlântico de Charles Lindbergh em 1927,
a aviação passa a ser mais um elemento que permite o mundo tornar-se
menor.
Nestes cem anos da segunda fase da globalização
(1850-1950) os antigos impérios dinásticos desabaram (o dos Bourbons em
1789 e, definitivamente, em 1830, o dos Habsburgos e dos Hohenzollers em
1914, o dos Romanov em 1917). Das diversas potências que existiam em 1914
(O Império britânico, o francês, o alemão, o austro-húngaro, o italiano, o
russo e o turco otomano) só restam depois da 2ª Guerra Mundial, as
superpotências: os Estados Unidos e a União Soviética.
Feridas pelas guerras as metrópoles deram para desabar,
obrigando-se a aceitar a libertação dos povos coloniais que formaram novas
nações. Mesmo assim, umas independentes e outras neocolonizadas,
continuaram ligadas ao sistema internacional. Somam-se, no pós-1945, os
países do Terceiro Mundo recém independente (a Índia é a primeira a
obtê-la em 1947) às nações latino-americanas que conseguiram sua autonomia
política entre 1810-25, ainda no final da primeira fase da globalização.
No entanto nem a descolonização nem as revoluções comunistas, a da Rússia
de 1917 e a da China de 1949, servirão de entrave para que a mais longo
prazo o processo de globalização seja retomado.
(*) Os países industrializados defendem o livre-cambismo
(o preço melhor vence) quando se sentem fortes, como foi o caso da
Inglaterra nos séculos 18 e 19 e hoje é a posição dominante dos E.U.A. Mas
para aqueles que precisam criar sua própria industria ou proteger a que
está ainda se afirmando, precisam recorrer à política protecionista com
suas elevadas barreiras alfandegárias para evitar sua
quebra.
A Globalização recente (pós-1989) :
"O conceito do direito mundial de cidadania não os
protege (os povos) contra a agressão e a guerra, mas a mútua convivência e
proveito os aproxima e une. O espirito comercial, incompatível com a
guerra, se apodera tarde ou cedo dos povos. De todos os poderes
subordinados à força do Estado, é o poder do dinheiro que inspira mais
confiança e por isto os Estados se vêm obrigados - não certamente por
motivos morais- a fomentar a paz..." - I.Kant - A paz perpétua, 1795
No decorrer do século 20 três grandes projetos de
liderança da globalização conflitaram-se entre si: o comunista, inaugurado
com a Revolução bolchevique de 1917 e reforçado pela revolução maoista na
China em 1949; o da contra-revolução nazi-fascista que, em grande parte,
foi uma poderosa reação direitista ao projeto comunista, surgido nos anos
de 1919, na Itália e na Alemanha, extendendo-se ao Japão, que foi esmagado
no final da 2ª Guerra Mundial, em 1945; e, finalmente, o projeto
liberal-capitalista liderado pelos países anglo-saxãos, a Grã-Bretanha e
os Estados Unidos.
Num primeiro momento ocorreu a aliança entre o
liberalismo e o comunismo (em 1941-45) para a auto-defesa e, depois, a
destruição do nazi-fascismo. Num segundo momento os vencedores, os EUA e a
URSS, se desentenderam gerando a Guerra Fria (1947-1989), onde o
liberalismo norte-americano rivalizou-se com o comunismo soviético numa
guerra ideológica mundial e numa competição armamentista e tecnológica que
quase levou a humanidade a uma catástrofe (a crise dos mísseis de
1962).
Com a política da glasnost, adotada por Mikhail Gorbachov
na URSS desde 1986, a Guerra Fria encerrou-se e os Estados Unidos
proclamaram-se vencedores. O momento símbolo disto foi a derrubada do Muro
de Berlim ocorrida em novembro de 1989, acompanhada da retirada das tropas
soviéticas da Alemanha reunificada e seguida da dissolução da URSS em
1991. A China comunista, por sua vez, que desde os anos 70 adotara as
reformas visando sua modernização, abriu-se em várias zonas especiais para
a implantação de industrias multinacionais. A política de Deng Xiaoping de
conciliar o investimento capitalista com o monopólio do poder do partido
comunista, esvaziou o regime do seu conteúdo ideológico anterior. Desde
então só restou hegemônica no moderno sistema mundial a economia-mundo
capitalista, não havendo nenhuma outra barreira a antepor-se à
globalização.
Chegamos desta forma a situação presente onde sobreviveu
uma só superpotência mundial: os Estados Unidos. É a única que tem
condições operacionais de realizar intervenções militares em qualquer
canto do planeta (Kuwait em 1991, Haiti em 1994, Somália em 1996, Bosnia
em 1997, etc..). Enquanto na segunda fase da globalização vivia-se na
esfera da libra esterlina, agora é a era do dólar, enquanto que o idioma
inglês tornou-se a língua universal por excelência. Pode-se até afirmar
que a globalização recente nada mais é do que a americanização do
mundo.
Desequilíbrios e perspectivas da globalização:
O processo produtivo mundial é formado por um conjunto de
umas 400-450 grandes corporações (a maioria delas produtora de automóveis
e ligada ao petróleo e às comunicações) que têm seus investimentos
espalhados pelos 5 continentes. A nacionalidade delas é majoritariamente
americana, japonesa, alemã, inglesa, francesa, suíça, italiana e
holandesa. Portanto, pode-se afirmar sem erro que os países que assumiram
o controle da primeira fase da globalização (a de 1450-1850), apesar da
descolonização e dos desgastes das duas guerras mundiais, ainda continuam
obtendo os frutos do que conquistaram no passado. A razão disso é que
detêm o monopólio da tecnologia e seus orçamentos, estatais e privados,
dedicam imensas verbas para a ciência pura e aplicada.
Politicamente a globalização recente caracteriza-se pela
crescente adoção de regimes democráticos. Um levantamento indicou que 112
países integrantes da ONU, entre 182, podem ser apontados como seguidores
(ainda que com várias restrições) de práticas democráticas, ou pelo menos,
não são tiranias ou ditaduras. A título de exemplo lembramos que na
América do Sul, na década dos 70, somente a Venezuela e a Colômbia
mantinham regimes civis eleitos. Todos os demais países eram dominados por
militares ( personalistas como no Chile, ou corporativos como no Brasil e
Argentina).Enquanto que agora , nos finais dos noventa, não temos nenhuma
ditadura na América do Sul. Neste processo de universalização da
democracia as barreiras discriminatórias ruíram uma a uma (fim da exclusão
motivada por sexo, raça, religião ou ideologia), acompanhado por uma
sempre ascendente padronização cultural e de consumo.
A ONU que deveria ser o embrião de um governo mundial foi
tolhida e paralisada pelos interesses e vetos das superpotências durante a
Guerra Fria. Em conseqüência dessa debilidade, formou-se uma espécie de
estado-maior informal composto pelos dirigentes do G-7 (os EUA, a GB, a
Alemanha, a França, o Canadá, a Itália e o Japão), por vezes alargado para
dez ou vinte e cinco, cujos encontros freqüentes têm mais efeitos sobre a
política e a economia do mundo em geral do que as assembléias da ONU.
Enquanto que no passado os instrumentos da integração
foram a caravela, o galeão, o barco à vela, o barco a vapor e o trem,
seguidos do telégrafo e do telefone, a globalização recente se faz pelos
satélites e pelos computadores ligados na Internet. Se antes ela
martirizou africanos e indígenas e explorou a classe operária fabril, hoje
utiliza-se do satélite, do robô e da informática, abandonando a antiga
dependência do braço em favor do cérebro, elevando o padrão de vida para
patamares de saúde, educação e cultura até então desconhecidos pela
humanidade.
O domínio da tecnologia por um seleto grupo de países
ricos, porém, abriu um fosso com os demais, talvez o mais profundo em toda
a história conhecida. Roma, quando império universal, era superior aos
outros povos apenas na arte militar, na engenharia e no direito. Hoje os
países-núcleos da globalização (os integrantes do G-7), distam, em
qualquer campo do conhecimento, anos-luz dos países do Terceiro Mundo
(*).
Ninguém tem a resposta nem a solução para atenuar este
abismo entre os ricos do Norte e os pobres do Sul que só se ampliou. No
entanto, é bom que se reconheça que tais diferenças não resultam de um
novo processo de espoliação como os praticados anteriormente pelo
colonialismo e pelo imperialismo, pois não implicaram numa dominação
política, havendo, bem ao contrário, uma aproximação e busca de
intercâmbio e cooperação.
(*) Quanto à exportação de produtos da vanguarda
tecnológica (microeletrônica, computadores, aeroespaciais, equipamento de
telecomunicações, máquinas e robôs, equipamento científico de precisão,
medicina e biologia e químicos orgânicos), Os EUA são responsáveis por
20,7%; a Alemanha por 13,3%; o Japão por 12,6%; o Reino Unido por 6,2%, e
a França por 3,0% , etc..logo apenas estes 5 países detêm 55,8% da
exportação mundial delas.
Imagina-se que a Globalização, seguindo o seu curso
natural, irá enfraquecer cada vez mais os estados-nacionais surgidos há
cinco séculos atrás, ou dar-lhes novas formas e funções, fazendo com que
novas instituições supranacionais gradativamente os substituam. Com a
formação dos mercados regionais ou intercontinentais (Nafta, Unidade
Européia, Comunidade Econômica Independente [a ex-URSS], o Mercosul e o
Japão com os tigres asiáticos), e com a consequente interdependência entre
eles, assentam-se as bases para os futuros governos transnacionais que,
provavelmente, servirão como unidades federativas de uma administração
mundial a ser constituída. É bem provável que ao findar o século 21,
talvez até antes, a humanidade conhecerá por fim um governo universal,
atingindo-se assim o sonho dos filósofos estóicos do homem cosmopolita,
aquele que se sentirá em casa em qualquer parte da
Terra.
Bibliografia:
Braudel, Fernand - Civilização material, economia e
capitalismo: séculos XV-XVIII- Editora Martins Fontes, São Paulo, 1996, 3
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Carrion, Raul K.M., Vizentini, Paulo G. - Globalização,
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Chaunu, Pierre - Conquista y explotación de los nuevos
mundos - Editorial labor, Barcelona, 1973
Herkscher, Eli F. - La epoca mercantilista - Fondo de
Cultura Económica, Mexico, 1943
Kennedy, Paul - Preparando para o século XXI - Editora
Campus, Rio de Janeiro, 1993
Mauro, Frédéric - La expansión europea ( 1600-1870) -
Editorial Labor, Barcelona, 1968
Wallerstein, Immanuel - El sistema mundial, Siglo XXI
editores, México, 1984, vol I e II
GEOMORFOLOGIA:
A Geomorfologia é a parte da Geografia Física que se
dedica à análise da gênese e evolução do relevo terrestre.
A análise das formas de relevo pressupõe uma descrição do
modelado e uma consideração dos complexos físicos e fisico-biológicos.
Pressupõe ainda um conhecimento geológico razoável, bem como noções sobre
os processos morfoclimáticos atuais e pretéritos.
As divisões da Geomorfologia:
A Geomorfologia Geral objetiva estudar as formas de
relevo originadas pela interação dos processos endógenos e exógenos
estabelecendo métodos de investigação e cartografia do relevo.
A Geomorfologia Regional analisa a disposição das grandes
formas de relevo numa determinada região, buscando compreender sobretudo a
história evolutiva da compartimentação geomorfológica.
A Geomorfologia Aplicada visa à aplicação dos
conhecimentos para a solução dos problemas econômicos ligados ao
relevo.
A antiga divisão estabelecida entre Geomorfologia
Estrutural e Geomorfologia Climática justifica-se, na atualidade, apenas
para atender aos objetivos meramente didáticos, haja vista que a
Geomorfologia Geral a englobou.
O objeto de estudo da Geomorfologia:
O objeto de estudo da Geomorfologia é o relevo da
superfície do planeta, em seus aspectos genéticos, cronológicos ,
morfológicos, morfométricos e dinâmicos. Esse objeto ocorre numa zona de
contato entre entre a litosfera , a atmosfera e a biosfera. A porção mais
superficial da litosfera , palco dos fenômenos geomorfológicos, está
submetida às ações de forças opostas desencadeadas em cada meio em que se
encontram. Materializa-se , assim, a lei dialética da luta dos contrários,
que permite descobrir as causas do eterno movimento e desenvolvimento do
mundo natural. O relevo terrestre corresponde ao conjunto de
reentrâncias e saliências observadas na superfície do planeta, formado por
inúmeros processos. Esses processos podem ser provenientes do interior da
Terra ( endógenos), englobando os movimentos tectônicos as manifestações
vulcânicas , e das forças externas à litosfera , mediante interferências
dos fenômenos climáticos , da gravidade e da cobertura vegetal. O relevo
terrestre é um dos mais importantes componentes do quadro natural. As suas
peculiaridades condicionam a distribuição dos solos , a vegetação e até
algumas possibilidades de aproveitamento dos recursos hídricos.
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