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LINHAS DE PENSAMENTOS

Este presente trabalho, tem a finalidade de detectar os possíveis pressupostos na linha de pensamento da geografia, achamos que não é demais lidar com tais temas( um exemplo disso na linha de pensamento abordada a seguir e do geógrafo francês Eliseu Reclus, a muito tempo esquecido pela escola francesa é que atualmente no mundo vem ganhando cada vez mais adeptos no qual se intitulava anarquista), e muito menos é uma presunção, ao contrário estes temas são de suma importância para o arcabouço, metodológico histórico e ideológico de qualquer ciência, daí a importância de salientar tais temas na ciência geográfica.

  O anarquismo:

  Qualquer pessoa que tenha lido a história da humanidade aprendeu que a desobediência é a virtude original do homem.

(Oscar Wilde)

  Eu aceito com entusiasmo o lema que afirma "O melhor governo é aquele que menos governa", e gostaria de vê-lo posto em prática de forma sistemática. Uma vez posto em prática, ele acabaria resultando em algo que também acredito: " O melhor governo é aquele que não governa"; e quando os homens estiverem preparados, será exatamente este tipo de governo que irão ter.

(Henry Thoreau)

  Proudhon (1809-1865) e Bakunin (1814), contemporâneo de Marx, com ele partilham as criticas ao sistema capitalista, à propriedade privada dos meios de produção e à exploração da classe proletária pela burguesia. Concordam também que as revoluções Francesas e Americanas forma mais políticas que sociais, pois elas teriam renovado os padrões de autoridade, dando poder às novas classes, mas não modificaram basicamente a estrutura social e econômica da França e dos Estados Unidos.

A relação de amizade e admiração de Proudhon e Baukunin com Marx rompeu-se, porém, a partir das divergências que se tornaram cada vez mais agudas. O nó do desentendimento encontra-se a teoria marxista da ditadura do proletariado. Como vimos, Marx preconiza um degrau necessário antes do advento do comunismo, quando a força do proletário, exercida através do partido, evitaria a contra-revolução da classe deposta. Só depois o poder se dissolveria rumo à sociedade sem Estado.

Bakunin acusa Marx de otimista, não considerando ser possível evitar a rígida oligarquia de funcionários públicos e tecnocratas que tenderiam a se perpetuar no poder.

Principais idéias do anarquismo:

É muito comum as pessoas identificarem anarquismo com "caos", "bagunça". Na verdade, não se trata disso. Etimologicamente, a palavra é formada pelo sufixo archon, que em grego significa "governante", e na, "sem", ou seja, "sem governante". O principio que rege o anarquismo está na declaração de que o Estado é nocivo e desnecessário, pois há formas alternativas de organização voluntária.

Se a religião, o Estado a propriedade contribuírem em determinado momento histórico para o desenvolvimento do homem, passam a ser restrições a sua emancipação.

No entanto, a tese anarquista da negação do Estado não deve levar as pessoas a pensarem que se trata de uma proposta individualista, pois a organização não coercitiva se funda na cooperação e na aceitação da comunidade. O homem é um ser naturalmente capaz de viver em paz com seus semelhantes, mas as instituições autoritárias deformam e atrofiam as tendências cooperativas. Surge, então, um aparente paradoxo, ou seja, a realização da ordem na anarquia; essa ordem na anarquia é uma ordem natural.

A sociedade estatal possui uma estrutura cuja construção é artificial, pois cria uma pirâmide em que a ordem é imposta de cima para baixo. A sociedade anarquista seria não uma estrutura, mas um organismo que cresce de acordo com as leis da natureza, e a ordem natural se expressa pela auto disciplina e cooperação voluntária e não pela decisão hierárquica.

Por isso, os anarquistas repudiam até a formação dos períodos, já que estes prejudicam a espontaneidade de ação, tendem a burocratizar e a exercer formas de poder. Também temem as estruturas teóricas, porque podem torna-se um corpo dogmático. Daí o anarquismo ser mais conhecido como movimento vivo e não tanto como doutrina. A ausência de controle e de poder torna o movimento anarquista oscilante, sempre frágil e flexível, podendo ficar inativo por muito tempo para surgir espontaneamente quando necessário.

A critica à existência ao Estado leva a tentativa de inversão da pirâmide de poder que o Estado representa; a organização social que deriva dessa inversão rege-se pelo princípio da descentralização procurando estabelecer a forma mais direta da relação, ou seja, a do contato "car a cara". A responsabilidade começa a partir dos núcleos vitais da vida social, onde também são tomadas as decisões: o local de trabalho, os bairros. Quando isso não é possível por envolver outros segmentos, formam-se federações. O importante, porém, é manter a participação, a colaboração, a consulta direta entre pessoas envolvidas.

Os anarquistas criticam as formas tradicional de democracia parlamentar, pois a representação contém o risco de alçar ao poder um demagogo. Quando a decisão envolve áreas muitos amplas, havendo necessidade de convocação de assembléia , a proposta e de escolha de delegados por tempo limitado e sujeitos à revogação do seu mandato.

Além da critica ao Estado, os anarquistas prevêem que a supressão da propriedade privada dos meios de produção deve dar lugar a forma de organização que estimulem as ações dos indivíduos livres no corpo coletivo, que poderia se tornar possível na comuna livre e em empresas dirigidas coletivamente.

Da mesma forma repudiam a estrutura hierárquica da igreja e defendem o ateísmo como tradição de autonomia moral do homem, liberto de dogmas e da noção do pecado: "Para afirmar o homem, é preciso negar Deus".

  Representantes e movimentos:

  O mais brilhante anarquista foi Bakunin, filhos dos ricos aristocratas russos. Tornou-se revolucionário graças à influência de Proudhon. Participou das rebeliões que ocorreram em Paris, Praga e Dresden em 1848-1849, tendo sido preso por vários anos e depois exilado na Sibéria. De volta à agitação, em 1870 tomou parte das revoltas de Lyon e Bolonha. Fez cerradas criticas a Marx, tendo sendo expulso da Primeira Internacional m 1872. Com outros companheiros fundou a Internacional Saint-Imier. Sua obra é vigorosa e apaixonada, mas mal-organizada, pois dificilmente Bakunin terminava e começava, era sobretudo um ativista.

Kropótkin, ao contrario de Bakunin, defende a ação não violenta e luta pelo respeito à vida humana, condenando a pena de morte, a tortura e qualquer forma de castigo imposta ao homem pelo homem.

O romancista Leon Tolstoi(1828-1910), embora se intitula-se um "pacifista cristão", tinha opiniões sobre o governo e autoridade que o aproximam dos idéias anarquistas. A pregação de resistência não-violenta influenciou Gandhi na estratégia da desobediência civil durante a luta pela independência da Índia.

Entre defensores e simpatizantes, o anarquismo conta com artistas, jornalistas e intelectuais em geral como Oscar Wilde, George Orwell, Aldous Huxley, Picasso, Alex Comford, Herbert Read, Emma Golman, Malatesta e George Woodcock.

No final do século XIX, o movimento sindical deu sua ampla força ao anarquismo, gerando o movimento chamado anarco-sindicalismo, pelo qual os sindicatos não deveriam se preocupar apenas em conseguir melhores salários mas em se tornar agentes de transformação da sociedade. Segundo o espírito anarquista, os sindicatos não têm poder centralizado, mas se organizam em pequenos grupos de fábrica, e a ampliação de contatos em nível estadual e nacional deve sempre preservar a participação direta do trabalhador.

Foi na Espanha que o movimento atingiu maior expressividade, até quando não pôde mais resistir à ação dos exércitos do ditador Franco. Do mesmo modo, o advento do fascismo na Itália e do nazismo na Alemanha significou um enfraquecimento do movimento naqueles países.

O anarquismo ressurgiu timidamente depois da Segunda Guerra Mundial e recrudesceu na década de 60 com o ativismo de jovens de vários países da Europa e América, culminando com o movimento estudantil de 1968 em Paris.

O anarquismo no Brasil:

  Com a abolição da escravatura no final do século XIX, a necessidade da mão de obra livre favoreceu a imigração de europeus, sobre tudo italianos, que vieram inicialmente para as fazendas de café. Data do início da República Velha a vinda de um grupo de italianos que, autorizados pelo então imperador Pedro II, instalou-se no interior do Paraná fundando a colônia Cecília nos moldes de uma comunidade anarquista. Experiência efêmera e cheias de dificuldades, não conseguiu florescer.

No começo do século XX, com a urbanização decorrente da industrialização, organizou-se o anarco-sindicalismo, visando a atuação mais eficaz na luta contra a opressão patronal. Era um movimento atuante não só na preparação de greves, mas na difusão do ideal anarquista por meio de escolas e jornais.

Mercê destaque a atuação de José Oiticica(1882-1957), que, além de teórico divulgador das idéias anarquistas, foi ativista e por isso exilado. Professor universitário e também do colégio D. Pedro II, no Rio de Janeiro, tentava aplicar uma aula os princípios anarquistas . Homem erudito, foi autor de obra variadíssima; alem dos textos políticos, escreveu poesias, contos, teatro e desenvolveu trabalhos lingüísticos-filologicos de primeira linha.

A ditadura do relógio:

Não há nada que diferencie tanto a sociedade ocidental de nossos dias das sociedades mais antigas da Europa e do Oriente do que o conceito de tempo. Tanto para os antigos gregos e chineses quanto para os nômades árabes ou para o peão mexicano de hoje, o tempo é representado pelos processos cíclicos da natureza, pela sucessão dos dias e das noites, pela passagem das estações. Os nômades e os fazendeiros costumavam medir e ainda o hoje fazem seu dia do amanhecer até o crepúsculo e os anos em termos de tempo de plantar e de colher, das folhas que caem e do gelo derretendo nos lagos e nos rios. O homem do campo trabalha em harmonia com os elementos, como um artesão durante tanto tempo quanto julgasse necessário. O tempo era visto como o processo natural de mudança e os homens não se preocupam, em medi-lo com exatidão. Por essa razão, civilizações que eram altamente desenvolvidas sob outros aspectos dispunham de meios bastantes primitivos para medir o tempo; a ampulheta cheia que escorria, o relógio do sol inútil num dia sombrio, a vela ou lâmpada onde o resto de óleo ou cera que permanecia sem queimar indicava as horas.(...)

O homem ocidental civilizado, entretanto, vive no mundo que gira de acordo com os símbolos mecânicos e matemáticos das horas marcadas pelo relógio. É ele que vai determina seus movimentos e dificultar suas ações. O relógio transformou o tempo, transformando-o de um processo natural em uma mercadoria que pode ser comprada, vendida e medida como um sabonete ou um punhado de passas de uvas. E, pelo simples fato de que, se não houvesse um meio para marca as horas com exatidão, o capitalismo industrial nunca poderia ter se desenvolvido, nem teria continuado a explorar trabalhadores, o relógio representa um elemento da ditadura mecânica na vida do homem moderno, mais poderoso do que qualquer outro explorador isolado ou de qualquer outra maquina.

(...) A principio, esta nova atitude em relação ao tempo, este novo ritmo imposto à vida foi ordenado pelos patrões, senhores do relógio, e os pobres o recebiam a contragosto.

E o escravo da fábrica reagia, nas horas de folga, vivendo na caótica irregularidade que caracterizava os cortiços encharcados de gim dos bairros pobre e início da era industrial do século XIX.

Os homens se refugiavam no mundo sem hora marcada da bebida ou do culto metodista. Mas, aos poucos, a idéia de regularidade espalhou-se, chegando aos operários. A religião e a moral do século XIX desempenharam um papel, ajudando a proclamar que "perder tempo" era um pecado. A introdução dos relógios, fabricados em massa a partir de 1850, difundiu a preocupação com o tempo entre aqueles que antes se haviam limitado a reagir ao estimulo do despertador ou à sirene da fábrica. Na igreja e na escola, nos escritórios e nas fabricas, a pontualidade passou a ser considerada como a maior virtude.

E dessa dependência servil ao tempo marcado nos relógios, que se espalhou insidiosamente por todas as classes sócias do século XIX, surgiu arregimentação desmoralizante que ainda hoje caracteriza a rotina das fábricas.

O homem que não conseguir se ajustar-se deve enfrentar a desaprovação da sociedade e a ruína econômica a menos que abandone tudo, passando a ser um dissidente para o qual o tempo deixa de ser importante. Refeições feitas às pressas, a disputa de todas manhãs e de todas as tardes por um lugar nos trens e nos ônibus, a tensão de trabalhar obedecendo horários, tudo isso contribui, pelos distúrbios digestivos e nervosos que provoca, para arruinar da saúde e encurtara vida dos homens.

(...) O operários transforma-se, por sua vez, num especialista em "olhar relógio", preocupado em apenas saber quando poderá escapar para gozar as escassas e monótonas formas de lazer que a sociedade industrial lhe proporciona; onde ele, para "matar o tempo", programara tantas atividades mecânicas com tempo marcado, como ir ao cinema, ouvir rádio e ler jornais, quanto permitiu seu salário e o seu cansaço. Só quando se dispõe a vier em harmonia com sua fé ou com sua inteligência é que o homem sem dinheiro consegue deixar de ser um escravo do relógio.

(G. Woodcock, A rejeição da política , in Os grandes escritores anarquistas, p. 120 e segs.)