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BUDISMO:
 
O significado do Nam-myoho-rengue-kyo

O título do Sutra de Lótus é Myoho-rengue-kyo. Nitiren Daishonin acrescentou a palavra Nam, que significa devoção ou dedicação, consta em uma de suas escrituras: "Somente praticar os sete caracteres do Nam-myoho-rengue-kyo pode parecer limitado, mas desde que esta Lei é o mestre de todos os Budas do passado, presente e futuro, o professor de todos os bodhisattvas do universo, e o guia que capacita todos os seres humanos atingir o estado de Buda, sua prática é incomparavelmente profunda".

Em outras palavras, o título, Myoho-rengue-kyo contêm a essência dos ensinos do Sutra de Lótus na qual contém dentro de si, todos os ensinos budistas. Nas escrituras de Nitiren Daishonin consta o seguinte trecho: "dentro do título, Nam-myoho-rengue-kyo, está incluso todo o sutra que consiste em todos os oitos volumes, vinte e oito capítulos e 69.384 caracteres sem nenhuma exceção".
Assim, em poucas palavras se torna impossível estudar todos os aspectos do significado do Nam-myoho-rengue-kyo, já que como exposto acima, implicaria em explanar toda a filosofia budista. Desta forma, somente iremos destacar os pontos básicos.

Myoho é geralmente traduzido como Lei Mística. A palavra místico significa, difícil de discernir. Myo se refere a iluminação inerente e ho, a ignorância inerente. Myo representa a morte e ho, a vida. Ho, corresponde a todos os fenômenos na qual pode ser percebido pelos nossos sentidos, enquanto myo, se relaciona aos aspectos da vida que não podem ser percebidos. Por exemplo, se alguém está triste, se torna óbvio através de sua expressão facial e reações. Mas, quando está mesma pessoa se torna feliz e começa a sorrir, para onde vai a tristeza ? Não podemos dizer que a tristeza existe como antes, mas ela continua existindo em algum lugar dentro da vida desta pessoa e pode reaparecer a qualquer momento. Este é o chamado estado de "nem existência, nem não-existência", e é descrito como místico. Logo, a vida em todas as suas miríades manifestações, tanto físicas como não–físicas, é acompanhada por um contínuo ciclo de myo e ho, do latente ao manifesto, da morte para a vida.
Myo também engloba outros três significados na qual Nitiren Daishonin explica na carta "Sobre o Daimoku do Sutra de Lótus": abrir, ser dotado e perfeito, e reviver. A energia inerente da vida é a expansão. Isto é o que significa abrir. Ser dotado e perfeito significa que todo e qualquer elemento da vida apresenta esta qualidade. Por exemplo, cada gota do oceano contém as propriedades e elementos do próprio oceano. E por último, reviver, se refere a força vital de regenerar-se e recriar-se.

Myo descreve a vida em sua totalidade, embora esta seja de difícil compreensão e por esta razão é chamada mística. Ho se refere ao aspectos do indivíduo, enquanto Myo se refere ao ritmo universal da vida, na qual se harmonizam e se unificam entre si. Ho, representa os dez estados de vida, enquanto myo, o estado de Buda. Naturalmente, ambos os aspectos são inseparáveis. Esta é a razão para que uma vida baseada somente no ho, que representa a aparência externa, tende a destruição enquanto que uma vida baseada no myoho é sempre voltada para a harmonia e criatividade.

Rengue representa a flor de lótus e significa a simultaneidade da lei de causa e efeito, pois o lótus é uma das únicas espécies do reino vegetal que a flor e a semente nascem no mesmo instante. Rengue indica a simultaneidade do myo (estado de Buda) e ho (nove estados: Inferno, Fome, Animalidade, Ira, Tranquilidade, Alegria, Erudição, Absorção, Bodhissatva). Em termos de nossa prática budista, os nove estados são a causa e o estado de Buda é o efeito.
Na verdade, existem duas causas, a causa inerente e a causa externa, e dois efeitos, o efeito latente e o efeito manifesto. Todos nós apresentamos a causa inerente para a iluminação. A causa externa é o Gohonzon e nossa relação se estabelece ao recitarmos o Nam-myoho-rengue-kyo. Este ato cria o efeito manifesto do estado de Buda e com isto, surge uma tendência (efeito latente) para que possamos evidenciar o estado de buda no futuro. Mas, isto não significa que nossas ações não gerem um efeito imediato. Rengue explana a simultaneidade da lei de causa e efeito e Nitiren Daishonin escreveu:
"Para a questão, onde está exatamente o inferno ou a terra do Buda. Um sutra diz que o inferno existe abaixo de nós e outro sutra diz que o Buda está no Oeste. Entretanto, um exame minucioso revela que ambos existem dentro de nós. A razão para que eu veja desta forma, é que o inferno está no coração de um homem que despreza seu pai e desrespeita sua mãe, assim como a semente do lótus, na qual desabrocha a flor e o fruto ao mesmo tempo."

Por último, desde que a flor de lótus nasce em pântanos, rengue também representa a capacidade da própria vida em purificar-se.

Kyo significa o sutra, ensino, som ou vibração. O som nunca se interrompe, há uma reação em cadeia que se expande por todo o universo. "Kyo denota as vozes e sons de todos os seres vivos. Nos Ensinos Orais de Nitiren Daishonin consta: "a voz é uma parte essencial da prática budista". Isto é chamado kyo e as três existências da vida também são chamadas de kyo."

Assim, kyo também significa interligar, como o ato de costurar uma peça de roupa, simbolizando a continuidade ou o fluir do passado, presente e futuro. Em breves palavras, o perfeito ensino na qual explana o eterno fluir da vida.

Embora esta explanação possa ser limitada, podemos dizer que o Myoho-rengue-kyo possui uma infinita profundidade. Todos os princípios budistas, assim como a sua filosofia, emergem através de um contínuo e profundo estudo destes caracteres. Mas, como podemos usá-los em nossas vidas ? Caso o Myolho-rengue-kyo se torne uma mera teoria, se tornará inútil. Neste ponto reside o significado do Nam.

Nam é derivado da palavra Namas, que em Sanscrito, significa devoção ou saudação. Em chinês, é traduzido como kimyo. Ki, significa retornar para a imutável e verdade inabalável e myo (diferente do myo de myoho) significa ter a sabedoria para agir de acordo com as circunstâncias. Logo, Nam, incorpora o ato de devotar ou concentrar-se no ato de recitar o Nam-myoho-rengue-kyo ao Gohonzon. E nesta ação retornamos para a verdade imutável do Myoho-rengue-kyo e começamos a viver nossas existências com sabedoria, para agir da melhor forma em todas as circunstâncias da vida diária. Em suma, significa unir a vida individual com o ritmo universal. Desta forma, a felicidade não depende de nada externo a nós. Um bom emprego, casamento ou qualquer outra situação da vida pode ser tanto um fonte de alegria como de sofrimento. Esta é a razão para recitarmos o Nam-myoho-rengue-kyo: assegurar uma inabalável condição de vida.

(Por Pat Allwright - SGI-UK)

 

Preciosa Colaboração de Charles Tetsuo Chigusa chigusacharles@hotmail.com Tóquio - Japão

 

Perguntas & Respostas

P.: O Budismo de Nitiren tem regras ou mandamentos?
R.:
Por ser uma religião, tem todo um conjunto de conceitos. Mas não se tratam de regras ou mandamentos que exijam obediência absoluta. O livre-arbítrio é um exercício básico e fundamental no budismo, pois ao compreender o mecanismo de "causa e efeito" pode-se decidir a atitude a ser tomada diante de uma determinada circunstância. Todas as causas geram efeitos. É impossível fugir dessa lei básica. Não basta dizer "não faça isso!" para uma pessoa pois ele o fará caso se sinta impelido a isso. Por essa ótica, ao tomar uma atitude automaticamente o efeito irá se manifestar. Às causas positivas sucederão efeitos positivos. Para as causas negativas, teremos igualmente efeitos negativos.

P.: O que o budismo oferece de concreto?
R.:
O budismo oferece a possibilidade de mudar a vida do indivíduo ensinando-lhe como viver corretamente. Em outras palavras, o que foi feito não é mais possível ser "apagado" do carma, mas pode-se modificar a vida de hoje em diante e produzir uma vida futura melhor, mais equilibrada e, por que não dizer, mais correta e permeada por efeitos positivos. O budismo ensina a viver a fim de atingir essa vida melhor.

P.: No budismo acredita-se em Deus?
R.:
Não há no budismo o "Deus" no sentido ocidental da palavra. Há uma lei natural ou uma lei universal natural, única para tudo e todos. Por uma questão de conceituação, surgem em meio a parábolas e definições personagens e situações que são denominadas como deuses ou demônios, mas num sentido figurativo. Ou seja, deuses e demônios são funções da natureza (meio ambiente) ou da vida do indivíduo, ou ainda das condições sociais. A questão, portanto, não é se no budismo acredita-se em Deus ou se ele existe, e sim que no budismo não existe um ente superior ou inferior ao qual as pessoas devem obediência. Além disso, o auge que o budismo proporciona é a conquista do equilíbrio da unidade (pessoa), e a conseqüente consciência de interdependência entre a pessoa e o meio ambiente e os seres e fenômenos que compõem esse meio ambiente.

P.: Do ponto de vista do budismo, há vida após a morte?
R.:
No budismo há a eternidade da vida. Enquanto a visão ocidental vê a morte como o fim, e vê a vida e a morte com certo imediatismo, o budismo considera a vida como algo eterno, pontilhada por momentos de atividade e latência. Somente nos períodos de atividade é possível produzir "causas". Portanto, o budismo ensina a agir corretamente enquanto ativo (vivo) porque na forma "latente" (morto), não é possível mudar o carma. Mesmo de acordo com o conceito budista provisório, essa "eternidade" foi também considerada de maneira fatalista como uma prisão. Ou seja, a vida, por ser eterna, era também imutável e não havia como parar de sofrer. Somente o Sutra de Lótus revelou o mecanismo da amenização do efeito cármico com ações concretas para essa finalidade. Portanto, não é uma questão de "vida após a morte" mas de "eternidade permeada por momentos de latência e momentos de atividade".

P.: Qual é a prática básica do Budismo de Nitiren? Em que, exatamente, consiste essa prática?
R.:
O Budismo Nitiren ensina dois tipos de prática: a prática para si e a prática para os outros. A prática para si é a prática da oração individual, o momento em que nos sentamos diante do oratório e oramos o sutra e o Nam-myoho-rengue-kyo e refletimos. A prática para os outros é o exercício dessa fé, ou seja, se recitamos o Sutra e o Nam-myoho-rengue-kyo e acreditamos em sua função benevolente, enseja-se então uma reação correspondente, ensinando ou apoiando outras pessoas a trilhar o mesmo caminho do aperfeiçoamento.
Nitiren foi socialmente muito ativo. Além de escrever seus tratados, em que traduzia o budismo para leigos, fazia questão de visitar e incentivar cada um de seus seguidores. São históricas as viagens que fazia a fim de orientar uma única pessoa, como também a procura de seus discípulos, mesmo quando Nitiren se encontrava exilado e perseguido.
Nesse sentido, a prática do Budismo Nitiren não é uma prática passiva e voltada somente para si próprio, mas um processo pelo qual compreendemos a filosofia praticando-a na vida diária, na realidade social em que vivemos e junto às pessoas que nos cercam. Em outras palavras, poderíamos dizer que "não basta orar, é necessário praticar o que estamos orando" e não há outro ambiente para praticar senão aquele em que vivemos diariamente. Por isso, a ação budista empreendida pela Soka Gakkai e pelas suas afiliadas da Soka Gakkai Internacional estão totalmente permeadas pelo auxílio às pessoas, com as reuniões de palestra e atividades que têm como objetivo levar o indivíduo a dar, a cada evento, um passo em direção a uma melhor compreensão de sua própria vida e realidade.

P.: O que é a iluminação proposta pelo budismo?
R.:
Poderíamos traduzir a condição de "iluminação" como a perfeita compreensão e domínio da realidade, ou ainda como uma condição de vida livre da ilusão. O budismo não apresenta a possibilidade da iluminação como algo remoto, mas sim como uma condição perfeitamente possível neste momento. E pelo fato de a iluminação ser uma condição do Buda, o budismo é a única religião em que o praticante pode atingir a condição máxima e nunca a imediatamente inferior. Portanto, enquanto em outras religiões não se pode ser ou tornar-se Deus, no budismo a condição de Buda é inerente e própria do ser humano, ou seja, ele é um buda em potencial e aprende a manifestar essa condição. Do ponto de vista da iluminação como uma possibilidade para todos, no budismo não há hierarquia, mas igualdade dentro da diferença, coexistência consciente mesmo que em meio à diferença natural, e valorização da individualidade como manifestação única, porém parte inseparável de um todo. Os papéis desempenhados por nós variam continuamente, mas a nossa verdadeira entidade da vida é eterna e imutável; ela é a natureza eterna do buda, que não possui início nem fim.

P.: Por esse raciocínio, Buda seria então um ser inferior a Deus ou sob o domínio de Deus?
R.:
Não. Pelo ponto de vista do budismo, não existe inferioridade. Buda é a condição da igualdade e da consciência plena; Buda é uma condição de liberdade e felicidade absolutas. Não há nada que supere esse estado. É domínio e compreensão completos do micro e do macrocosmo na vida em condição real, nunca fora da vida e da realidade diária. Há outra definição para a condição de Buda: plena fusão e equilíbrio entre pessoa (a pessoa humana) e Lei (Universo); e dentro dessa condição, uma constante troca e influência recíprocas.

P.: Qual o significado de Nam-myoho-rengue-kyo?
R.:
Nam-myoho-rengue-kyo é a expressão da verdade máxima da vida, ou a realidade essencial da vida. Nam (ou Namu) significa "devotar-se", "vincular-se", "reconhecer" o essencial. Myoho, literalmente, significa "Lei Mística". Myo traduz-se por "substância da verdade eterna", difícil de compreender ou além da compreensão, portanto, místico. Ho traduz-se literalmente como "lei". A junção de Myo e Ho resulta resumidamente em "Lei Mística" (que pode ser chamada também de lei da razão ou verdade oculta). Em outras palavras, a junção Nam-Myoho significa reconhecer o essencial, vincular e devotar a vida a essa verdade essencial.
A palavra rengue traduz-se por Lótus, daí a origem do título "Sutra de Lótus". O lótus inclui-se no contexto com o significado de "simultaneidade de causa e efeito" por ser uma planta que produz flor e semente ao mesmo tempo e floresce em lugares sujos como os pântanos. Em sentido figurado, significa "existir" em meio à realidade, ou ainda, desprender-se da ilusão e enxergar a realidade essencial. Complementando-se o sentido de Nam-myoho-rengue, temos "reconhecer e devotar-se à Lei Essencial de Causa e Efeito Simultâneos".

A palavra Kyo significa "fenômeno vital universal" ou "continuidade sem fim em constante transformação". Se assim juntarmos os significados, temos ao final: "reconheço e devoto minha vida à lei essencial da simultaneidade de causa e efeito em meio à eternidade da vida".
Os ensinamentos budistas têm, genericamente, esse sentido prático expresso nessa tradução simplista de Nam-myoho-rengue-kyo, embora na variedade de interpretações também sejam citados outros pontos como sendo essenciais. Mas Nitiren foi o único a buscar e revelar uma "essência" budista, e a revelou como o Nam-myoho-rengue-kyo.
Fazendo um paralelo, poderíamos dizer que os ensinos budistas, até que Nitiren revelasse o Sutra de Lótus como ensino essencial, eram parábolas apropriadas à capacidade de compreensão das pessoas da época.