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Textos Complementares
Das
carícias proibidas à tragédia nacional
De como os amores entre duas mulheres
podem ter influenciado no suicídio de Vargas
Um enlace amoroso entre duas mulheres estaria
na origem do episódio mais dramático da história republicana,
o suicídio do presidente Getúlio Vargas. Eis a hipótese contida
num livro recentemente lançado, Getúlio, do jornalista gaúcho
Juremir Machado da Silva (Editora Record). A alemã Ingeborg
ten Haeff, casada com o filho mais velho de Getúlio, Lutero,
um dia foi surpreendida pelo marido em brincadeiras libidinosas
com uma amiga. Esse episódio vai conduzir, anos depois, ao
famoso atentado da Rua Tonelero contra o jornalista Carlos
Lacerda, que por sua vez conduzirá ao suicídio do presidente.
Difícil de acreditar? Não tanto, quando se tem em conta o
delírio daqueles dias, protagonizados por personagens movidos
a paixão e fúria.
Getúlio, outra vez. E Ingeborg, outra vez.
Vai-se falar pela terceira vez nas últimas semanas, neste
espaço, do mais discutido presidente que o país já teve, e
pela segunda da alemã que foi sua nora. O livro de Juremir
Machado, instigante e bem armado, o justifica. Trata-se de
um romance. Ou melhor: de um intenso trabalho de pesquisa
em torno dos eventos, personagens e circunstâncias da era
Vargas, embalado sob a forma de romance. Juremir mergulhou
fundo no tema. Leu tudo, entrevistou parentes de Getúlio e
antigos colaboradores. Esteve com figuras que vão de Alcino
João do Nascimento, o pistoleiro do célebre crime da Rua Tonelero,
a Guilherme Arinos, sobrevivente da assessoria de Getúlio
que - surpresa - vem a ser o pai de Gustavo Franco, ex-presidente
do Banco Central. Sobretudo, esteve com Ingeborg, que, sessenta
anos depois de terminado o casamento com Lutero e cinqüenta
depois da morte do sogro, vive, em Nova York, os 89 anos de
uma vida intensa e fecunda.
Lutero Vargas conheceu Ingeborg, natural
de Düsseldorf, num restaurante de Berlim, ao tempo em que
aperfeiçoava os estudos de medicina na Alemanha. Os dois casaram-se
em 1940, estabeleceram-se no Rio de Janeiro e tiveram uma
filha. Em 1944, o casamento chegou a brusco final. Ingeborg
foi posta num avião - isso ela própria conta no livro - e
despachada do Brasil, escoltada por quatro homens. Disseram-lhe
que ia para a Suíça, mas, depois de uma escala de 33 horas
em Belém, desembarcou em Nova York. Foi uma deportação sem
esse nome. Até hoje, Ingeborg diz que não sabe por que isso
aconteceu. Na família Vargas e no governo, deu-se como explicação
a mentira de que a mulher de Lutero seria espiã do regime
nazista. Confessar que o verdadeiro motivo eram carícias com
outra mulher seria desgraça demais para uma família curtida
nos sagrados valores do machismo.
Dez anos depois, quando Carlos Lacerda esticava
ao máximo, em seu jornal, Tribuna da Imprensa, a corda das
denúncias contra o governo, ele é tocaiado em frente à sua
casa, na Rua Tonelero, num atentado em que morre o militar
que o acompanhava, o major Rubens Vaz. Não tarda para que
se identifique como articulador do atentado o próprio chefe
da guarda pessoal de Getúlio, Gregório Fortunato. Mas Gregório
teria agido por conta própria? Ou por trás dele haveria peixe
mais graúdo? Já na época o nome de Lutero surgiu como suspeito.
As investigações nesse sentido nunca deram em nada. O livro
de Juremir não só retoma a hipótese, mas dá-lhe uma justificativa:
Lutero teria sabido que Lacerda se preparava para publicar
a verdadeira história de sua separação. A manchete já estaria
pronta: "Lutero corno de mulher". Nesse momento, teria decidido
matar o jornalista.
Ingeborg ten Haeff vive hoje num apartamento
da Washington Square, no coração do Greenwich Village, e é
artista plástica de sucesso. Depois de Lutero, casou-se outras
duas vezes, uma com um arquiteto que foi parceiro de Le Corbusier
e outra com um professor de russo. Ganhou prêmios e a cidadania
americana, expôs em galerias prestigiosas e teve seu trabalho
comentado por intelectuais como Gilles Deleuze e Félix Guattari.
Em maio, foi homenageada com a abertura de uma retrospectiva
e o lançamento de um livro sobre sua obra. Sua filha com Lutero,
Cândida Darcy, que morreu no ano passado no Rio Grande do
Sul, cresceu entre os Vargas e nunca a aceitou. Uma neta,
Alexandra Manoela, casou-se com um americano e mora em Nova
York.
Fotos de Ingeborg podem ser vistas na internet.
Numa delas (www.nabiarts.com/Nabi/ithcurvit.htm)
aparece de vestido longo, echarpe, foulard e chapéu, tudo
enfaticamente vermelho. Noutra (www.washingtonlife.com/backissues/archives/
00apr/ebsworth_collection2.htm) está num coquetel, igualmente
de vestido longo, do gênero bata indiana, e chapéu. Ingeborg
se veste como se espera que se vista uma artista plástica
do circuito do Village. Estaria à vontade numa cena de Woody
Allen. O Brasil só ocupou quatro anos de sua vida, que prosseguiu
em contextos muito diversos. No Brasil, conforme sugere o
livro de Juremir Machado, pode ter causado um furacão. Mas
a recíproca não parece verdadeira. O país não lhe teria soprado
ao rosto senão uma ligeira brisa.
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