Organização Social e Política Brasileira
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O que ninguém pode deixar de ser: político

Não adianta fugir da questão: ou você assume que deve ser político, ou você tem de abdicar da vida em sociedade e tornar-se um alienado. É sobre isso que gostaria de refletir com você, Para iniciar, vamos discutir como pode e como deve ser entendido o Ser Humano. Vamos com calma e cuidado.

Existem várias maneiras distorcidas e ideológicas de conceber o ser humano. Alguns o definem como sendo um indivíduo, que é "um", singular, mas que é separado de todo o resto, isto é, não tem nada a ver com os outros. É a concepção liberal, que se manifesta, no dia-a-dia, em expressões como estas: "Quem pode mais, chora menos" ; "cada um por si... ninguém pelos outros" (alguns dizem: "...Deus por todos", mas é melhor deixar Deus fora dessa jogada).

Outros definem o ser humano como "peça de uma máquina", parte de um todo: em si ele não tem valor; o que tem valor é a máquina, a instituição, o partido, o Estado. O povo "é um detalhe" (lembram-se?}. O ser humano perde aqui sua criatividade, originalidade, subjetividade.

Mas, então, como pode ser compreendido o ser humano? Podemos dizer, a partir de uma sã filosofia e colocando os pés no chão, que nós somos singulares, sim, mas que somos construídos a partir das milhões de relações que estabelecemos no decorrer de nossa vida. O ser humano é pessoa-relação. Somos singulares, mas contendo em nós o universo. Micro-cosmos, como diria Santo Tomás.

A conclusão é de que o ser humano não pode ser entendida sem os outros. ou seja, ele se constitui a partir dos outros e sua vocação é viver com os outros. E isso significa ser político.

Ser social é ser político

Você já pensou como as sociedades foram se formando? Houve um tempo em que as sociedades não eram mais que grandes famílias. Quem organizava e co-ordenava a vida social eram os pais (patriarcas), os mais antigos e respeitados, como nos clãs etc. Mas houve um momento em que várias famílias igualitárias, isto é, com os mesmos direitos, começaram a viver juntas: eis o início do que podemos chamar de cidade, a polis. Enquanto eram só grupos familiares ou de clãs e tribos, não havia a necessidade de reunir a todos para decidir como as coisas comuns deviam ser organizadas. Quem decidia era o chefe. Mas com a existência de famílias iguais, era necessário instituir um modo de organizar o que era público: as estradas, a água, a comida etc Surgiu, então, o que chamamos de "política": a maneira de organizar as coisas que devem ser comuns. E como se fez? A maioria dos historia-dores costuma dizer que foram os gregos os que deram início ao que nós chamamos de política. Eles decidiram reunir as pessoas (na verdade, os chefes de família, pois mulheres, crianças, escravos, não tinham vez) numa praça para discutir e decidir como as coisas deveriam ser. Discutiam e, se não chegassem a um consenso, votavam e a maioria vencia. A isso eles chamavam de democracia.

Conclusão: ninguém pode ficar fora desse processo e ainda querer continuar a ser um ser humano. Até pode, mas somente isolando-se num fim de mundo, onde não poderá contar com ninguém, vi-vendo às próprias custas. É isso possível?

Ser humano é participar

Há um detalhe fundamental que poucas pessoas lembram, quando se fala em política, em democracia etc. É o seguinte: quando os gregos se reuniam para decidir sobre o que deveria ser comum e público, não eram todos que recebiam o título de cidadão. Era considerado cidadão somente o que falasse, isto é, aquele que, durante a reunião, se levantasse e apresentasse seu projeto, seu plano, sua sugestão, sua contribuição. Na verdade, isso é fundamental, pois se formos pensar um pouco, veremos que o que o ser humano possui de mais original, profundo, sagrado, fantástico, maravilhoso, é seu pensar, sua criação! E isso ele explícita em suas produções, mas principalmente no falar. Pois é nesse momento que somos verdadeiramente humanos, essencialmente humanos quando damos de nós aquilo que nenhum outro pode dar, pois é algo único e pessoal. Numa palavra, quando participamos.

Podemos dizer, então, que ser político e ser cidadão é participar. Mas cuidado com essa palavra, pois "participar" pode levar a alguns equívocos. A participação pode-se dar em vários níveis, como no planejamento, na execução, nos resultados. E o nível mais importante e imprescindível de participação, o que nos faz verdadeiramente políticos e cidadãos, é a participação no planejamento pois é da participação neste nível que depende a participação na execução (quem faz o quê) e a participação nos resultados (quem fica com o quê). lá notou? Já percebeu como é fundamental o que se costuma chamar de "planejamento participativo?" É esta participação que nos faz mais humanos e verdadeiramente políticos!

 

 
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