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Textos Complementares
O
que ninguém pode deixar de ser: político
Não adianta fugir da questão: ou você assume
que deve ser político, ou você tem de abdicar da vida em sociedade
e tornar-se um alienado. É sobre isso que gostaria de refletir
com você, Para iniciar, vamos discutir como pode e como deve
ser entendido o Ser Humano. Vamos com calma e cuidado.
Existem várias maneiras distorcidas e ideológicas
de conceber o ser humano. Alguns o definem como sendo um indivíduo,
que é "um", singular, mas que é separado de todo o resto,
isto é, não tem nada a ver com os outros. É a concepção liberal,
que se manifesta, no dia-a-dia, em expressões como estas:
"Quem pode mais, chora menos" ; "cada um por si... ninguém
pelos outros" (alguns dizem: "...Deus por todos", mas é melhor
deixar Deus fora dessa jogada).
Outros definem o ser humano como "peça de
uma máquina", parte de um todo: em si ele não tem valor; o
que tem valor é a máquina, a instituição, o partido, o Estado.
O povo "é um detalhe" (lembram-se?}. O ser humano perde aqui
sua criatividade, originalidade, subjetividade.
Mas, então, como pode ser compreendido o
ser humano? Podemos dizer, a partir de uma sã filosofia e
colocando os pés no chão, que nós somos singulares, sim, mas
que somos construídos a partir das milhões de relações que
estabelecemos no decorrer de nossa vida. O ser humano é pessoa-relação.
Somos singulares, mas contendo em nós o universo. Micro-cosmos,
como diria Santo Tomás.
A conclusão é de que o ser humano não pode
ser entendida sem os outros. ou seja, ele se constitui a partir
dos outros e sua vocação é viver com os outros. E isso significa
ser político.
Ser social é ser político
Você já pensou como as sociedades foram
se formando? Houve um tempo em que as sociedades não eram
mais que grandes famílias. Quem organizava e co-ordenava a
vida social eram os pais (patriarcas), os mais antigos e respeitados,
como nos clãs etc. Mas houve um momento em que várias famílias
igualitárias, isto é, com os mesmos direitos, começaram a
viver juntas: eis o início do que podemos chamar de cidade,
a polis. Enquanto eram só grupos familiares ou de clãs e tribos,
não havia a necessidade de reunir a todos para decidir como
as coisas comuns deviam ser organizadas. Quem decidia era
o chefe. Mas com a existência de famílias iguais, era necessário
instituir um modo de organizar o que era público: as estradas,
a água, a comida etc Surgiu, então, o que chamamos de "política":
a maneira de organizar as coisas que devem ser comuns. E como
se fez? A maioria dos historia-dores costuma dizer que foram
os gregos os que deram início ao que nós chamamos de política.
Eles decidiram reunir as pessoas (na verdade, os chefes de
família, pois mulheres, crianças, escravos, não tinham vez)
numa praça para discutir e decidir como as coisas deveriam
ser. Discutiam e, se não chegassem a um consenso, votavam
e a maioria vencia. A isso eles chamavam de democracia.
Conclusão: ninguém pode ficar fora desse
processo e ainda querer continuar a ser um ser humano. Até
pode, mas somente isolando-se num fim de mundo, onde não poderá
contar com ninguém, vi-vendo às próprias custas. É isso possível?
Ser humano é participar
Há um detalhe fundamental que poucas pessoas
lembram, quando se fala em política, em democracia etc. É
o seguinte: quando os gregos se reuniam para decidir sobre
o que deveria ser comum e público, não eram todos que recebiam
o título de cidadão. Era considerado cidadão somente o que
falasse, isto é, aquele que, durante a reunião, se levantasse
e apresentasse seu projeto, seu plano, sua sugestão, sua contribuição.
Na verdade, isso é fundamental, pois se formos pensar um pouco,
veremos que o que o ser humano possui de mais original, profundo,
sagrado, fantástico, maravilhoso, é seu pensar, sua criação!
E isso ele explícita em suas produções, mas principalmente
no falar. Pois é nesse momento que somos verdadeiramente humanos,
essencialmente humanos quando damos de nós aquilo que nenhum
outro pode dar, pois é algo único e pessoal. Numa palavra,
quando participamos.
Podemos dizer, então, que ser político e
ser cidadão é participar. Mas cuidado com essa palavra, pois
"participar" pode levar a alguns equívocos. A participação
pode-se dar em vários níveis, como no planejamento, na execução,
nos resultados. E o nível mais importante e imprescindível
de participação, o que nos faz verdadeiramente políticos e
cidadãos, é a participação no planejamento pois é da participação
neste nível que depende a participação na execução (quem faz
o quê) e a participação nos resultados (quem fica com o quê).
lá notou? Já percebeu como é fundamental o que se costuma
chamar de "planejamento participativo?" É esta participação
que nos faz mais humanos e verdadeiramente políticos!
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