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Conteúdo do Segundo Bimestre
CIDADANIA
UM EPISÓDIO TRISTE
No mês de abril de 1997, em Brasília, um
grupo de rapazes procurava um tipo de divertimento diferente
que a cidade grande não lhes podia proporcionar. Resolveram
brincar com fogo. Compraram álcool num posto de gasolina e,
com esse combustível, incendiaram um ser humano que, desorientado
pelo excesso de bebida, dormia no banco de um ponto de ônibus.
Ignorando valores fundamentais da vida em sociedade, entorpecidos
pela grife, pelo carro, pelo som... e, com certeza, por falta
de orientação, esses jovens levaram a "brincadeira"
longe demais.
Amplamente noticiado o fato, a maioria dos
brasileiros sentíamos vergonha de tal crueldade ter sido cometida
em nosso pais, e justamente na capital. O homem brutal-mente
queimado faleceu: era um índio da tribo Pataxó.
Com a fisionomia abatida e perplexa do "onde-foi-que-eu-errei?",
um Juiz de Direito, pai de um dos delinqüentes incendiários,
surpreendeu a todos, principalmente aos educadores, ao declarar
não saber o porquê da atitude de seu filho, pois, afinal,
pagava uma das melhores escolas de Brasília para o menor infrator.
É evidente que a escola não deve omitir-se de realçar a importância
dos valores fundamentais do ser humano, porém o valor da mensalidade
não isenta os pais da obrigação de também enfrentarem o desafio
diário de educar seus filhos e, em casa, provocar reflexões
sobre cidadania, ética, saúde, sexualidade, família, amor...
Por intermédio do diálogo e do exemplo,
portanto, os' esforços, tanto dos educadores quanto dos pais,
são indispensáveis, a fim de que os adolescentes não vivam
de forma individualista e arrogante num mundo onde imperam
o desrespeito ao próximo, a violência e o crime.
Repugnante, todavia, foi a afirmação de
um dos mos que praticaram a atrocidade: "Não sabíamos
que se tratava de um índio; imaginávamos ser apenas um mendigo".
O que ele quis dizer com isso é que um mendigo é menos importante
que um silvícola. Que se pode atear fogo num ser humano desfavorecido
financeiramente. Que pobre não é cidadão.
Ao queimar a ponta do dedo com fósforo ou
ao mexer no forno quente, sentimos dor. Que dor, não! É Impossível
imaginar as dores pelas quais passou Galdino (esse era o nome
do Pataxó). O seu martírio e a sua morte foram lastimáveis.
Pena que somente episódios tristes como esse nos levem a pensar
seriamente a respeito de um valor essencial para que o homem
inicie o século XXI com mais dignidade: a cidadania.
Mas
o que é cidadania?
O QUE É CIDADANIA
No Brasil, a palavra "cidadania"
vem sendo utilizada com maior freqüência nos últimos anos,
substituindo com mais vigor o termo "urbanidade".
Nos regimentos escolares das décadas de sessenta e setenta,
lá estava sempre no capítulo destinado a Deveres e Obrigações
do Corpo Discente "tratar os colegas com urbanidade",
isto é, com civilidade, cortesia, afabilidade.
Há bons dicionários de Filosofia que ainda
não apresentam os verbetes "cidadania" ou "cidadão".
Os dicionários de Língua Portuguesa também não valorizam esses
vocábulos, destinando-lhes poucas linhas.
Cidadania. 5. f. Qualidade ou estado
de cidadão: cidadania brasileira.
Cidadão. S. m. 1. Indivíduo no gozo dos
direitos civis e políticos de um Estado, ou no desempenho
de seus deveres para com este. 2. Habitante da cidade. 3.
Pop. Indivíduo, homem, sujeito: Esteve aí um cidadão procurando
por você. (Fem.: cidadã e cidadoa: pl.: cidadãos.)
Mas, como o termo cidadania já é de uso
comum, é interessante compreendê-lo desde o seu sentido etimológico.
Originalmente, cidadania define a condição
de quem reside na cidade. O significado literal da palavra
nos remete também, ao fato histórico de "ter acesso
à cidade", pois a cidade medieval era cercada por
muros que a protegiam dos forasteiros (camponeses, trânsfugas
e outros aventureiros).
Na Idade Moderna, a cidade cobrava do "estrangeiro"
uma espécie de entrada, obrigando-o a aprender um oficio artesanal,
sem o qual não poderia ter acesso a ela.
Henrique VIII, no inicio do século XVI,
chegou a decretar uma lei contra a vagabundagem, para coibir
a migração de camponeses que fugiam com fome, privados que
estavam de suas terras, buscando refúgio no citadino. (Aqueles
camponeses ingleses foram expropriados das terras que, após
terem sido cercadas, foram utilizadas para a criação de ovelhas.
O objetivo disso era a produção de lã para o mercado europeu
emergente.)
Ser cidadão, portanto, significava o direito
de viver na cidade, e nem todos tinham esse direito. Possuí-lo
era sinônimo de conquistá-lo de uma ou de outra maneira. O
artesão era protegido pela sua corporação de oficio, dirigida
pelo mestre que elegia seus aprendizes. Assim, o acesso a
essas corporações era muito controlado e seletivo. Quem não
possuía pendores de artesão ou proteção especial para permanecer
na cidade, tornava-se um não-cidadão, um suburbano.
Na Idade Contemporânea, o conceito de cidadania
se ampliou extraordinariamente: de "habitante da cidade"
o homem passou a adquirir o status de "cidadão
do país" e, por fim, de "cidadão do planeta".
Com as declarações dos Direitos Humanos oriundas da Independência
dos Estados Unidos da América e da Revolução Francesa e, mais
recentemente, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos
da Organização das Nações Unidas, a idéia de cidadania se
associou intimamente à de igualdade: "todos os homens
são iguais". E, por serem iguais, são livres e portadores
de direitos e obrigações. É bom salientar, neste momento,
que tudo o que se disse até agora não aconteceu num piscar
de olhos. Indispensável é o estudo da história para se verificar
que, por motivos ideológicos, raciais, econômicos ou quaisquer
outras causas, num processo lento e penoso, milhões (é exageros)
de vidas foram ceifadas.
A noção de cidadania ganha, na atualidade,
um sentido menos literal (o camponês também pode considerar-se
cidadão) e, ao se unir às idéias de igualdade, de direito
e de obrigação, torna-se algo mais complexo.
A igualdade entre os homens, por exemplo,
não é ab-soluta. Não é difícil constatar basta abrir
um jornal na seção de notícias internacionais que há
ainda muitas discriminações e que variam de pa(s para pa(s.
Os analfabetos, as mulheres, os menores, os estrangeiros,
os silvícolas, os deficientes físicos, os alienados mentais,
os desempregados, os idosos... estão longe de conquistar,
em muitas sociedades contemporâneas, a "igualdade de
oportunidades". É importante compreender, também, que
essa igualdade é um ideal que nunca será alcançado de uma
vez por todas. À medida que as "velhas" desigualdades
vão desaparecendo, surgem as "novas", num processo
contínuo, aparecendo os "sem-terra", os "sem-feto",
os "sem-internet", os "sem-celular", os
"sem-carro-importado"...
Por ser uma noção em amadurecimento, é impossível
"definir" cidadania, como exige o rigor da Lógica
("dizer tudo a respeito de um ser e apenas a respeito
deste ser"). Provisoriamente, portanto, fiquemos com
a noção de que cidadania é um conjunto de direitos e obrigações
que o homem vem conquistando ao longo da história. Quais são,
concretamente, esses direitos e obrigações é problema para
uma discussão sem fim.
Ser cidadão é ter direito:
- à liberdade de ir e vir;
- à liberdade de pensamento;
- à liberdade de expressar pensamento;
- à liberdade de fé;
- aos serviços de saúde;
- de reivindicar um salário justo;
- de participar no exercício do poder
político.
Amor, fraternidade, respeito e justiça são
alguns valores reconhecidos como fundamentais para a sobrevivência
da espécie humana. Só nos resta rezar e lutar para que o conceito
de cidadania ocupe um lugar privilegiado nessa hierarquia
de valores, em todas as partes do mundo, num breve futuro.
Somos todos cidadãos?
No bimestre anterior, ao falarmos a respeito
da política, observamos que para algumas pessoas não importa
que alguém decida por elas. Indiferentes, desestimuladas,
pessimistas, céticas, acham natural a existência de ricos
e pobres e que é destino, no Brasil, a perpetuação dessa desigualdade.
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O
BICHO
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa, Não examinava
nem cheirava: Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
(Manuel Bandeira)
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Atormentados pelo estresse da vida moderna,
em alguns momentos, somos influenciados por essas pessoas
e, egoisticamente, deixamos "o barco correr. Mas,
ao nos depararmos com mendigos catando comida no lixo, com
crianças cheirando cola na esquina, com famílias inteiras
dormindo no chão duro e frio das calçadas, com a violência
dos assaltos e dos seqüestros, com o índio Pataxó sendo queimado
vivo, com os escândalos de desvios de verbas públicas, com
a poluição dos rios... sentimos (bom ainda termos a capacidade
de 'sentir") que esse quadro não é justo e somos levados
a refletir sobre as causas e as conseqüências dessas injustiças.
Nasce aí a reflexão filosófica sobre a cidadania. Nasce af
a exigência de pessoas ativas que, como nós, desejam construir
uma "Agenda de Cidadania" para os próximos tempos,
no Brasil.
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Diz uma fábula que os animais
riam do beija-flor que tentava trazer, em seu bico,
água para apagar o incêndio da floresta. O beija-flor
respondeu-lhes que se cada um fizesse a sua parte a
floresta não arderia até o último tronco.
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Somos todos cidadãos?
Pela Constituição da República Federativa
do Brasil, felizmente, SIM! Pelas leis ordinárias que
regulamentam e esmiúçam a lei maior , infelizmente,
NÃO! As leis são insuficientes para garantir a todos os brasileiros
a possibilidade de se auto-realizarem e de terem acesso aos
bens econômicos e socioculturais disponíveis.
Somos todos cidadãos? De fato, na prática,
infelizmente, NÃO.
- Mas, afinal, o que pesa no fato
de uns serem mais cidadãos do que os outros?
- Quais as reais causas que grande
parte dos brasileiros conseguirem o passaporte para a cidadania?
- Alcançar a cidadania para todos
os brasileiros é uma utopia?
- Todos os homens serem cidadãos
é uma utopia?
Está lançado o desafio para que surjam novas
análises e muitas outras reflexões. Para transformar a realidade,
é necessário, acima de tudo, pensamento positivo. O importante,
como dizia Lennon, é não parar de sonhar.
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