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Marina Vale de Lobos

«A minha poesia não se prende a correntes»

Nasceu em Lisboa há 20 anos, mas passou quase toda a sua vida em Silves e foi na Escola Secundária desta cidade que descobriu o gosto por aquilo que hoje lhe é tão caro: a Poesia.
Marina Vale de Lobos lançou recentemente a sua primeira obra, "Cais de Embarque" (ver Livro do mês), que a revela como uma mulher sensível e cativante. Mas esta estudante universitária, que frequenta o terceiro ano de Estudos Portugueses na Universidade Nova de Lisboa, é muito mais: é segura e determinada e, por isso, tem visto o seu talento reconhecido.

«Conheci uma pessoa na minha Universidade - a Cecília Barreiro -, que viu o meu trabalho, interessou-se e gostou. Levou-o para a Editora Universitária e acharam que valia a pena fazer essa aposta».
É desta forma simples que Marina Vale de Lobos explica como nasceu a ideia de publicar os seus poemas. Fala rapidamente, mas não hesita na escolha das palavras. «Editar um livro tem duas dificuldades: o facto de ser Poesia e a minha idade. São dois argumentos que, no nosso mercado, são complicados de gerir. Os editores sentem que vai ser um investimento um bocado a longo prazo, uma experiência», diz e refere, também, que por ser «um bocado nova», surgiram algumas reticências: haveria ou não qualidade na sua escrita ou esta não seria apenas os desabafos da adolescência? Mas todos foram unânimes em atribuir-lhe um valor relevante e a prova disso é que o livro está disponível e com um prefácio de Lídia Jorge, um nome indiscutível entre os grandes da Literatura nacional.
«A Lídia Jorge foi à Universidade falar do livro "Vale da Paixão", o último que escreveu»
, conta Marina. «Eu tive a oportunidade de falar com ela. No livro que me autografou pôs o número de telefone, a morada e disse-me que lhe telefonasse assim que soubesse de alguma coisa [em relação à publicação do livro] Mais tarde, ao saber que a obra ia ser editada, Lídia Jorge prontificou-se a fazer o Prefácio. «Foi uma pessoa extremamente simpática e que se põe à disposição das pessoas», comenta e considera mesmo «a avaliação dela [em relação ao livro] muito sincera, muito crua, não diz nem que é muito bom, nem que é muito mau...».

Com um brilhozinho nos olhos, mas sempre serena, Marina revela-nos o seu processo criativo. Escreve em casa, nas aulas, qualquer lugar lhe serve para pôr no papel as emoções e diz que sempre que faz um poema, o faz «de choque», porque sente «alguma coisa um bocado forte» e escreve. Mas não é só desta forma que trabalha. «Gosto de escrever como um exercício, gosto de sentir essa pressão. Eu tive aulas com a professora Esmeralda Alves (na Escola Secundária de Silves) e ela dizia: "Agora faz um poema sobre uma porta" e apanhava-me, assim, de surpresa. Gosto de conseguir abstrair-me daquilo que tenho à volta e criar um ambiente, que é o poema», conta. E afirma que não é «daqueles escritores que dizem: "Escrevo e nunca mais mexo", porque sempre que lê um poema, acha que «há qualquer coisa que se pode ajeitar e ficar melhor», pois já o lê «com outra experiência, com outros olhos». Por isso, muito poucos dos textos que escreve ficam como foram escritos pela primeira vez.

Quanto a influências, vai apontando algumas, mas com reticências, porque, diz, «a minha Poesia não se prende a correntes , nem a autores». Gosta de Virgílio Ferreira e sente que foi buscar um pouco a Luísa Neto Jorge e a Al Berto, mas essa influência fica apenas pela reflexão, que depois espelha no que escreve e não na forma, ou no estilo. Considera que a sua redacção é «muito experimental» e, também, por isso, o livro tem o nome de "Cais de Embarque". «É o embarque para mim, porque é o início e é o embarque, porque os meus poemas têm uma característica: não prendem as pessoas; são um ponto de partida, tanto em termos do assunto, do ambiente que criam, que depois pode levar à nostalgia, ao pensamento, à reflexão, como em termos de leitura», refere e salienta: «Vários poemas não têm pontuação, porque isso fica a cargo do leitor e há outros que são construídos de forma a poderem ser lidos de várias maneiras. São bastante curtos, porque têm de ser mais incisivos do que extensos, para não se perder a intensidade da mensagem».

Também conta que começou a escrever «umas rimas» no 2° Ciclo, quando teve de fazer um postal de Natal na disciplina de Trabalhos Manuais. Mas rapidamente a Poesia e a escrita passaram a ocupar um papel fundamental na sua vida. «Eu moro no campo e a Poesia tornou-se uma maneira de estar com as pessoas, de absorver esses conhecimentos que elas me davam e, ao mesmo tempo, de estar comigo mesma. Não é bem uma paixão... É mais uma maneira de estar. Escrever tornou-se uma forma de observação da realidade, um escape, uma filosofia própria... Acho que se tornou isso, uma filosofia própria de vida», assegura-nos, com uma tranquilidade e uma confiança, que nos fazem pensar que esta jovem não pode ter apenas 20 anos. Talvez por isso, para ela um poeta é alguém que «busca paz consigo mesmo, busca uma maneira de se definir, de se encontrar» e a Poesia (e a Literatura em geral) é o caminho ideal para isso, pois «busca uma forma de auto-conhecimento e de absorção da realidade, uma maneira de perceber como o mundo funciona».

Entretanto, Marina Vale de Lobos tem já outros projectos: está a preparar uma Gramática de Latim e um novo livro, que já tem nome - PROESIA ou Partituras de Um Ser -, ainda mais experimental que este primeiro, porque visa dissolver a prosa na Poesia. Deve sair daqui a um ano, já que neste próximo mês de Fevereiro a autora parte para Itália, onde vai estudar durante seis meses com uma bolsa do Projecto Erasmus.

Sandra Moreira

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