A Tradição
Cultural Antimaçônica
As tradições se formam ao correr dos séculos e se integram tão
profundamente ao complexo dos usos, costumes e crenças dos povos que
nem leis, nem campanhas e nem quaisquer outras ações as podem
erradicar ou mesmo abrandá-las de um momento para outro. Elas até
podem desaparecer, ou apenas se modificar e abrandar, mas sempre no
mesmo ritmo em que se formaram, lenta e progressivamente.
Por isso não se espere que a tradição cultural antimaçônica, tão
arraigada no mundo ocidental cristão, venha a se modificar radicalmente
ainda em nosso tempo. Os mentores religiosos não estão nem de leve
interessados em que isso aconteça, por um motivo muito simples: os
papas do Catolicismo há mais de dois séculos e meio condenam
oficialmente a Maçonaria como inimiga da Igreja, ou das igrejas cristãs.
A tão propalada modificação do Código do Direito Canônico na
verdade não modificou nada, pois a Igreja continua a excomungar os maçons.
É só ler os Estudos da CNBB - 66.
Sendo a Maçonaria exatamente a mesma dos tempos do Papa Clemente XII,
modificar agora a opinião equivocada oficial a seu respeito seria o
mesmo que admitir que os Papas que no passado sempre a condenaram
estavam errados, uma hipótese inadmissível para uma autoridade suprema
que se considera infalível.
Conviver pacificamente com a Maçonaria seria para as igrejas cristãs
excepcionalmente fácil. Bastaria simplesmente que suprimissem
oficialmente de suas instruções aos fiéis as restrições e as
condenações, como por exemplo, as contidas no opúsculo antes citado,
cujas declarações ainda estão em vigor, e onde está escrito
claramente que os maçons ainda continuam a ser excomungados.
O que na verdade as igrejas cristãs pretendem é que a Maçonaria deixe
de ser o que é e se adapte aos desejos das autoridades eclesiásticas,
de acordo com pensamentos medievalistas que ainda vigoram, infelizmente.
O que principalmente incomoda essas autoridades é o sigilo, que
gostariam ver extinto, pois ele impede a intromissão em nossas lojas. O
opúsculo Estudos da CNDD-66 é bastante claro a esse respeito ao propor
o diálogo entre a Maçonaria e a Igreja: "Mas um diálogo onde
todos se apresentem abertamente, sem esconder ou disfarçar nada, nem do
seu ser nem dos seus objetivos". Quem estaria escondendo o quê, se
as iniciativas de diálogo sempre partem da própria Igreja?
Vale acrescentar que as religiões cristãs não católicas que se
formaram a partir de dissidências da Igreja Católica, e cujos
primeiros pastores e ministros certamente já haviam absorvido a danosa
cultura antimaçônica, com raras exceções, seguem a mesma atitude da
Igreja da qual se originaram.
Assim, qualquer movimento para erradicar das comunidades das igrejas
cristãs a cultura antimaçônica somente poderia ser encetada a partir
de superiores hierárquicos do Catolicismo e de pastores ou dos
ministros das demais religiões. É sobejamente sabido que o contexto
popular de um modo geral não responde a argumentos e pregações lógicos,
mas apenas a apelos e pregações sentimentais de seus dirigentes
religiosos.
Entre os maçons, mesmo entre os que são cristãos, essas condenações
não surtem o efeito esperado porque os iniciados cedo percebem, através
do convívio com os irmãos em suas lojas, que não há nelas nada
contra religião alguma. Assim as sanções e as excomunhões caem no
vazio e no ridículo. Isso é comprovado pelo fato de uma alta
percentagem dos cinco milhões de maçons espalhados por toda a Terra
serem membros ativos de igrejas cristãs que condenam a Maçonaria.
Como teria começado essa cultura antimaçônica e porque estaria ainda
muito presente entre o povo cristão nestes dias finais do segundo milênio?
O primeiro grande passo foi dado pelo Papa Clemente XII no ano de 1738,
com sua constituição apostólica In Eminenti Apostolatus Specula. Os
motivos alegados no documento estão na verdade simplesmente ligados a
uma questão de poder civil, pois não devemos nos esquecer que o Papa
era, e ainda se considera assim, o rei dos Estados Pontifícios. Eles
ocupavam, durante todo o século XVIII, a parte central da Itália
atual. Portanto era civilmente um potentado absolutista, que defendia
seu poder com exércitos e manobras políticas e militares que nada
tinham a ver com a defesa da fé. Agia tal qual o faziam todos os outros
potentados. A Maçonaria foi olhada por aquele Papa simplesmente como um
possível inimigo do seu poder e não como inimigo da fé.
Ele condenou a Maçonaria porque outros soberanos já o haviam feito,
porque as suas reuniões secretas poderiam pôr em perigo o Estado, já
que se subtraiam ao poder de vigilância policial; exigiam juramentos, o
que Igreja considera exclusividade sua; porque o segredo poderia afastar
fiéis do controle pessoal da Igreja e desviá-los da sua "santa
obediência"; e porque "todas essas suspeitas tornavam os Maçons
suspeitos de heresia". A todo este fictício rol de suspeições
está acrescentada esta coisa muito estranha "...e por outras
causas justas e razoáveis por nós conhecidas", como se estivesse
sendo escrito "e qualquer outra causa que julgarmos
conveniente".
Um édito do Cardeal Firrao, de janeiro de 1739, confirmou a condenação
esclarecendo que todos os que tivessem relacionamento com as lojas maçônicas
e com os maçons pessoalmente seriam excomungados e condenados a morte
com o confisco de seus bens. Era a voz de uma Inquisição felizmente já
enfraquecida.
A condenação papal seguinte foi a constituição apostólica Providas,
do Papa Bento XV, de maio de 1751, que reproduziu quase integralmente a
de Clemente XII. Estas condenações papais foram seguidas de muitas
outras, todas reproduzindo as mesmas condenações baseadas nas mesmas
suspeitas de Clemente XII. A presença do espírito da Inquisição está
claramente delineada nas atitudes da Igreja contra a Maçonaria. Mas
felizmente o seu poder já declinara e não permitia mais executar
hereges ou suspeitas de heresia.
As notícias dessas condenações papais se espalharam rapidamente por
todo o mundo ocidental cristão, e os eclesiásticos do primeiro degrau
da escala hierárquica, os vigários e os curas, celeremente trataram de
difamar os maçons e a Maçonaria perante os fiéis de suas paróquias,
dizendo-os mancomunados com o diabo para destruir a Igreja e o Papado.
A mente popular assim insuflada deu asas à sua fantasia e
estabeleceu-se essa cultura antimaçônica tão conhecida de todos.
Muitos, ainda hoje, acreditam piamente que os maçons ao serem iniciados
entregam sua alma ao diabo assinando com seu próprio sangue um terno de
compromisso e outras tolices mais desse jaez. São coisas tão
ignorantes e tolas que comprometem por demais o conceito de seriedade
das autoridades da Igreja ao não se empenharem decididamente em combatê-las.
Apesar das afirmações em contrário dos representantes da Igreja,
ainda hoje os maçons continuam sob excomunhão, um resquício medieval
que ninguém mais leva a sério, que nenhum efeito mais produz e que de
há muito deveria estar abolido se as intenções de boa convivência
fossem realmente sérias.
Além das igrejas cristãs também nos países do mundo ocidental onde
imperou o Comunismo foi a Maçonaria sempre tradicionalmente considerada
inimigo público e drasticamente abafada ou eliminada com o confisco de
seus bens e a desapropriação de suas sedes, com a prisão de seus
membros e a eliminação ou banimento de seus dirigentes. Os motivos
alegados pelos governantes são em tudo semelhantes aos alegados na bula
In Eminenti...de Clemente XII.
Parece haver consenso geral entre os ditadores de que aqueles que se reúnem
discreta ou secretamente devem estar presumivelmente conspirando contra
as autoridades, uma razão muito forte em regimes ditatoriais. Houve
entre esses países uma exceção honrosa, Cuba, por motivos pessoais de
seu mandante supremo, Fidel Castro.
O Comunismo e as religiões cristãs têm sido secundados pelos regimes
totalitários, como o Nazismo e o Fascismo, e as ditaduras pró-católicas
como as do Chile, de Portugal e da Espanha. Isso não ocorre nos meios
religiosos não teístas orientais, como no Hinduismo, Budismo e outros,
nem no Islamismo ou no Judaísmo, porque neles não se estabeleceu uma
cultura antimaçônica.
Como o comunismo e os regimes ditatoriais praticamente deixaram de
existir no mundo ocidental, e os governos democráticos de um modo geral
ignoram a existência da Maçonaria, os problemas do relacionamento Maçonaria/Sociedade
estão atualmente restritos ao mundo do Cristianismo. Dessa forma, os
fatos de aversão à Maçonaria estão bem regionalizados e delimitados
ao Ocidente histórico, ou seja à Civilização Ocidental Cristã.
Todas essas condenações à Maçonaria foram deflagradas a partir da
entrada da Maçonaria no continente europeu no segundo quartel do século
XVIII (1725-1750). Quando ainda restrita à Inglaterra, que se subtraíra
a influência de Roma, ela floresceu com liberdade porque nesse país a
Inquisição não mais podia agir. Na Europa continental esse profundo e
forte sentimento de desconfiança e de oposição à Maçonaria se fixou
especialmente entre as pessoas menos cultas, isto é, aquelas que
aceitam com facilidade e sem prévia análise racional crenças,
crendices e histórias fabulosas.
Estas pessoas menos cultas não estão apenas entre os analfabetos.
Podem ser encontradas em todas as camadas sociais e em todos os níveis
de instrução, desde os alunos das escolas secundárias até os níveis
universitários mais avançados. Ser culto é saber usar a razão, e nem
todos os homens instruídos, mesmo os de alto nível, sabem desenvolver
a sua racionalidade com respeito aos elementos de sua tradição
cultural.
Para melhor compreender o sentido da expressão tradição cultural a
que nos referimos com certa freqüência, esclarecemos que assim se
compreende o conjunto dos conhecimentos, usos, costumes, lendas e crenças
que se transmitem e se ampliam de geração em geração, tanto
sustentados pelos grupos ou clãs familiares como por associações
civis e pararreligiosas, mas principalmente pelos apelos de mandatários
religiosos.
Ir.∙.
Ambrósio Peters.
A.∙.
R.∙.
L.∙.
S.∙.
Os Templários
GOB/Paraná
Or.∙.
de Curitiba – PR
Escritor, Historiador, Filosofo e Livre Pensador.
Extraído do Livro
Maçonaria História e Filosofia
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