Parece que o
"nada" que se encontra na Maçonaria não deve ser tomado ao
pé da letra. O Neófito que entra no Templo encontra algo, porem não
encontra o que busca; isto dá margem a várias perguntas:
1º O "que busca"
o profano que solicita ser Iniciado?
2º O que a Maçonaria
"não pode oferecer"?
3º O que a Maçonaria
"pode oferecer"?
4º "O que
encontra" o Neófito ao dizer que "não tem nada"?
Procuramos responder estas
perguntas de um ponto de vista estritamente pessoal.
1º O "que busca"
o profano que solicita ser iniciado?
Pode solicitar seu ingresso
pôr vários motivos, desde o mais grosseiros materialismo, o desejo de
encontrar protetores para seus negócios de qualquer espécie, até o
motivo de mais elevado sentimento de humanitarismo. Em regra geral, é
mistura de tudo, acrescido de curiosidade; e freqüentemente haverá um
sentimento da própria imperfeição acrescido do desejo de melhorar-se
e de aperfeiçoar-se. Não é raro também que se espere encontrar na
Maçonaria um estímulo à ação para compensar a própria falta de
atividade; idéias extraordinárias e originais que ponham em
funcionamento o pensamento e a imaginação própria.
É um dos problemas da
Maçonaria que, pelo segredo e discrição que devem guardar seus
integrantes, o profano chega geralmente a nossas portas, desconhecendo
realmente o que o espera, vindo em contrapartida cheio de esperanças e
ilusões que vão do inadequado até o absurdo.
2º O que a Maçonaria
"não poder oferecer"?
A Maçonaria não é feita
à medida das ilusões do neófito.
Se este esperou uma
renovação completa de sua personalidade pôr meio de um remédio
amostra grátis e que se oferece a todo aquele que entra na Ordem,
equivocou-se, Damo-lhes a Luz, as ferramentas para trabalhar,
mostrando-lhes a Pedra Bruta e o modo de trabalhar nela. O resto é
assunto do Neófito. Tem que trabalhar para receber o "seu
salário" e este lhe é dado segundo a quantidade e a qualidade do
seu trabalho. Não poderá exigir que se lhe dê tudo de uma vez sem
fazer o menor esforço. Então acontece que o Neófito não acha o que
buscava.
Ele buscava um meio cômodo
para tornar sua vida mais fácil e agradável, para sentir-se importante
sem esforço algum, para viver em paz consigo mesmo. E como não acha o
que buscava, diz simplesmente: "Não encontrei nada". Com
isto, expressa que tudo o mais que encontra não tem importância para
ele; e que, aquilo que "não" encontra é o que ele queria e
nada mais. Dizer que a Maçonaria não faz nada é outra maneira de
revelar que se quer conseguir satisfações de amor próprio a baixo
custo. Se na Maçonaria estivesse se cristalizando uma obra de autentico
humanismo, poderíamos participar da glória de sua realização sem que
tivéssemos o trabalho de planejar e organizar sua execução. Se a
Maçonaria fosse aquilo que querem aqueles que se queixam de
não encontrar nada nela, ela seria idêntica às sociedades múltiplas
de beneficência e clubes de serviço. cujos principais objetivos
parecem ser que seus membros apareçam na imprensa escrita e falada a
qualquer pretexto. Todas estas satisfações de amor próprio, todas
estas ilusões e esperanças vazias, é que a Maçonaria não oferece.
Pôr isto é que, aqueles que buscam isto, não encontram
"nada".
3º O que a Maçonaria
"pode oferecer"?
Do ponto de vista das
pessoas mencionadas anteriormente, "nada", pois para elas o
trabalho, o estudo, não são nada, e se não tiverem a paciência
necessária, se afastarão.
Quanto mais irreais,
fantásticas forem suas esperanças, mais necessitarão para encontrar o
que oferece a Maçonaria, e que é: trabalho, ferramentas para
executá-lo, o "salário" que somente se obtém trabalhando. O
Neófito tem que aprender que na Maçonaria não encontrará
satisfação alguma senão em razão do seu próprio trabalho.
Através do seu aprendizado
se dará conta de que se a maçonaria lhe der, sem sacrifício, as
satisfações que estava procurando, então sim, poderá dizer "que
não é nada". O que acontece é que o homem moderno tem do
trabalho um conceito muito diferente que tinha as corporações de
construtores da antigüidade. Para a maioria, hoje, o trabalho é
escravidão, atividade mecânica, impessoal, algo que se faz porque tem
que se viver e comer, e sem trabalho, não há comida; algo que se faz
sem grande satisfação, esperando que o relógio marque a hora da
saída. Dali então partimos para o descanso, a diversão, as
comodidades. São poucos aos quais a sorte reservou um trabalho
construtivo e menos ainda existem pessoas capazes de buscar e achar o
descanso em uma atividade de tipo superior, uma atividade criadora. O
construtor medieval não se preocupava em apressar o tempo para terminar
a catedral, mas sim se detinha nos detalhes da construção,
acrescentando uma grande variedades de enfeites e esculturas tão belas
como indispensáveis para a arquitetura, simplesmente porque sentia o
gosto de criar algo belo e bonito.
Nós já não compreendemos
mais facilmente este prazer pelo trabalho, Queremos que o trabalho
termine o mais depressa possível, para que possamos nos dedicar a
outras atividades nas quais encontramos mais prazer.
Necessitamos voltar a
descobrir a vocação artística do homem - a única que lhe dá plena
satisfação - é de não servir unicamente de apêndice pensante da
maquina, e sim de procurar realizar um trabalho criador.
4º "O que
encontra" o Neófito ao dizer que "não tem nada"?
Bate à porta do Templo, se
abre a mesma para ele e não encontra nada. O que é este
"nada"?
Já dissemos, tomar a
palavra em sentido estrito é um absurdo. Algo ele encontra e se nós o
pressionarmos um pouco, ele nos dirá "Não há nada, somente
palavras, somente Ritualística, somente Símbolos, somente idéias
antiquadas". Algo portanto encontra, porem não "o que
buscava". E como o que ele encontra não é nada em comparação
com o que buscava, diz simplesmente que não há nada.
Porém, este
"nada" não é somente um fenômeno negativo. Este
"nada" e como um gérmen, algo novo e grande.
O Irmão que se afasta da
Loja queixando-se de "não haver encontrado nada", não se
limita somente a isto. Afasta-se desgostoso, decepcionado. O encontro
com o "nada" o afetou no mais profundo do seu ser. Não achou
o que buscava, porém achou precisamente seu próprio desgosto, sua
própria decepção.
Ainda que se vá de nosso
convívio, sua decepção o segue. E ainda que não o confesse, não
deixará de pensar, de vez em quando, que, para encontrar algo, se
necessitam duas coisas: algo que existe e alguém que saiba procurar. Ao
lado do seu orgulho, porque ele" não se deixou enganar",
estará a constante inquietude acerca do que terão encontrado os que
ficaram e que ele não soube encontrar. Se vê, assim, posto frente a
frente, com sua própria insuficiência. Com seu próprio NADA.
Se for sincero consigo
mesmo, reconhecerá que onde não encontrou nada, foi em si mesmo.
Este é o ponto onde começa
a germinar a idéia Maçônica. Se o Irmão chegar a este ponto,
começará a ser MAÇOM.
Autor desconhecido
Tradução do Ir.’. Kurt
Max Hauser
Or.’. de Porto Alegre - RS
Publicado no Livro
"Coletânea de Trabalhos A Trolha"
Editora A Trolha - 1993