Home                Email

Captura do Navio Marquês de Olinda


Página 4



              A captura do Marquês de Olinda da maneira e circunstância em que foi realizada, não foi somente um crime por parte de López, mas um erro. Essa agressão de maneira tão inesperada e tão insultante não deixou espaço para acordos e arranjamentos de termos de paz. A partir deste momento o Brasil não poderia tratar com López sem incorrer ao desprezo e escárnio de todo mundo. O Brasil era um grande império e tinha uma população de nove a dez milhões, mais que 10 vezes a do Paraguai, e mesmo assim, esse país, sem nenhum aviso ou prévia declaração de guerra, prendeu um vapor brasileiro, fez prisioneiros seus passageiros e sua tripulação e, desafiante, esperou que os brasileiros viessem tomar satisfação. O Brasil tem uma grande província, tão grande quanto à metade da Europa, de difícil acesso, situada no norte do Paraguai, alcançada mais facilmente pela rota que o Marquês de Olinda estava seguindo na época em que foi capturado. López, sem nenhum aviso tomou o vapor, em violação clara de todas as normas de Guerra moderna, e insistia que tinha o direito de fazê-lo. Se tivessem tal direito, então poderia continuar fazendo e o Brasil seria virtualmente cortado de sua província noroeste e outro vapor jamais aventuraria fazer o mesmo percurso. Se ele não tinha esse direito, esta ação mostrou desrespeito às leis das nações, era então um inimigo comum. Ao lado disso, a atitude de desafio que tomou, certamente, fez com que a tentativa de algum acordo ou arrajamento fosse entendido como insulto, pela sua arrogância de ter imposto termos que o Brasil jamais poderia concordar. Para uma potência como o Brasil, aceitar negociar dentro de tais circunstâncias seria mostrar tão grande fraqueza que poria em perigo a própria integridade da própria nação brasileira.

              Por anos seguidos vinham ocorrendo situações de conflitos e descontentamento que ameaçavam a ruptura com o Império, mas esta indignidade com o navio de bandeira brasileira serviu para fazer calar toda discórdia e estimulou um sentimento universal, que nenhum acordo poderia ser feito entre as partes. A proposta de acomodar esta situação através de mediação ou por algum outro meio pacífico, teria encontrado um furor geral de indignação. Este furacão teria, com toda possibilidade, deixado o Império destroçado e daí surgido outras repúblicas sul-americanas originadas por esse descontentamento. A vida do Império estava em jogo, assim como durante toda guerra que se seguiu. O governo brasileiro sentia e estava convencido da necessidade acabar com López ou ver a nação brasileira desmembrada.

              Imediatamente após a captura do Marquês de Olinda, ordens foram dadas pelo Governo paraguaio, para nenhum barco deixar o porto, para evitar que o episódio fosse conhecido além da fronteira. Nesse ínterim um agente do governo foi mandado para avisar o representante paraguaio em Buenos Aires do que estava ocorrendo, para que ele tomasse as necessárias precauções em relação aos navios que traziam armas para o Paraguai. O mensageiro também levava o dinheiro tomado do Marquês de Olinda, 200 mil dólares em dinheiro brasileiro, relativo ao câmbio da época. Este dinheiro deveria ter uma assinatura adicional para passar para circulação e, se a notícia da tomada do barco tivesse chegado a Buenos Aires antes do próprio dinheiro, o público seria avisado e o dinheiro não seria aceito. Muitos dias se passaram, o agente paraguaio recebeu o dinheiro e o público não foi avisado dos eventos que ocorreram rio acima. Durante este tempo o dinheiro passou para mãos seguras de terceiras partes e foram aceitos pelos bancos sem questionamentos.

F I M