Esponjas marinhas podem fornecer substâncias antitumorais

 

Brasília, 04 (Agência Brasil - ABr) - Segundo país com a maior costa contínua no mundo, o Brasil tem um litoral que se estende por cerca de 8 mil quilômetros e só perde para o da Austrália. É uma posição privilegiada para a exploração racional de recursos marinhos, o que inclui a obtenção de substâncias com potencial de uso em sistemas biológicos, como as que foram pesquisadas num projeto temático sobre recursos renováveis do litoral paulista.

Pesquisadores de várias instituições, que se concentraram no estudo de poríferos (esponja) e tunicados, descobriram num desses seres vivos duas substâncias com potencial farmacológico inédito em tumores, para as quais já se fez pedido de patente. Encontradas no organismo de um tunicado - a ascídia Didemnum granulatun -, as substâncias granulatimida e isogranulatimida são apenas dois dos compostos inéditos que foram isolados e identificados.

Antes do estudo, havia só 34 espécies de esponjas identificadas na área. Coletas que os pesquisadores, fizeram no canal e na costa da ilha de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, aumentaram esse número para mais de 140 espécies - quase metade das cerca de 300 já registradas na costa brasileira. Das esponjas retiradas numa faixa de cerca de 50 quilômetros de extensão, no perímetro do canal, dez eram inéditas para a ciência - entre elas a Aplysina caíssara, também com potencial antitumoral.

Para coletar e estudar esponjas e tunicados, o biólogo e taxonomista Eduardo Carlos Meduna Hadju mergulhou mais de 200 vezes na costa de Ilhabela, no litoral paulista. Ele, que é pesquisador do Museu Nacional da Universidade do Brasil (ex-UFRJ) e no início do projeto estava vinculado à Universidade de São Paulo (USP), recebia duas ou três vezes por ano a visita de Roberto Gomes de Souza Berlinck, um pós-doutorado em química de animais marinhos da USP de São Carlos. Com Hadju, que havia levantado a distribuição das espécies na região, Berlinck selecionou os animais coletados para a extração de substâncias e enviou os extratos para o laboratório do biólogo José Carlos de Freitas, coordenador do projeto, para testes farmacológicos.

Os extratos das substâncias coletadas são feitos de modo muito simples. O animal é posto no álcool - etanol ou metanol - e as substâncias que contém se dissolvem nesse meio. Depois que o álcool evapora, o extrato é submetido a um teste farmacológico preliminar pela equipe de Freitas, que dirige o Centro de Biologia Marinha (Cebimar) da USP. Durante estágio no exterior, Berlinck também submeteu 40 extratos a um teste novo, descoberto no Canadá. Alguns extratos se revelaram ativos e o que mostrou melhor desempenho - ou seja, maior atividade na menor concentração - foi justamente o retirado da ascídia Didemnum granulatum encontrada no litoral de São Paulo e Paraná.

Junto com Raymond Andersen, da Universidade da Colômbia Britânica, no Canadá, Berlinck descobriu a granulatimida e a isogranulatimida, substâncias com potencial farmacológico inédito em tumores. Em março de 1998, a universidade canandense fez em nome de ambos um pedido de patente dessas substâncias, o que está em avaliação.

O teste farmacológico foi feito em células humanas de câncer de mama e detectou, basicamente, a interferência das substâncias na organização do DNA (ácido desoxirribonucléico, potador do código genético) durante o processo da divisão celular. Nesse processo, as substâncias inibem o chamado ponto de checagem G2.

As células fazem duas paradas para verificar a integridade do material genético. A primeira parada, ou ponto de checagem G1, acontece logo depois da divisão celular, para verificar se o material genético não foi danificado no processo. Então a célula tem um certo tempo de vida, que nos mamíferos é de 24 horas, antes de se dividir novamente.

Nesse período, cada célula faz nova verificação bioquímica, o ponto de checagem G2. "Cerca de 50% das células de tumores sólidos", explica Berlinck, "não têm o ponto de checagem G1 ativo e esse é um dos motivos pelos quais elas são, digamos, anormais. Se você inibe o ponto de checagem G2 - como fazem a granulatimida e a isogranulatimida -, começa uma alta mortalidade de células durante a divisão, porque o DNA já está muito danificado e não serve mais para manter a célula viva", explica.

Os pesquisadores associaram radioterapia às novas substâncias para inibir totalmente o funcionamento do DNA e garantir a morte das células. A dose de radiação foi baixa e o resultado mostrou a ação seletiva da granulatimida e da isogranulatimida.

Entre os compostos inéditos isolados durante as pesquisas estão quatro alcalóides - baliclonaciclamina E, arenosclerina A, B e C - obtidos na esponja Arenosclera brasiliensis, que só existe no Brasil. Esses compostos mostraram atividade citotóxica e antibiótica contra microrganismos resistentes a antibióticos - os que causam infecções hospitalares.

Noutra esponja, a Aplysina caissara, também só encontrada no Brasil, a equipe detectou grande quantidade do alcalóide aeroplisinina-1, também com potencial de ação antitumoral. Nos anos 60, pesquisdores italianos já haviam encontrado noutra esponja a mesma substância, que hoje passa por testes clínicos em seres humanos. Caso os resultados sejam positivos, o Brasil poderia fazer maricultura da Aplysina caissara e se tornar fornecedor desse alcalóide.

Para o coordenador Freitas, quanto mais se conhece a biodiversidade marinha, maior a probabilidade da descoberta de substâncias com potencial farmacológico, porque a diversidade química está diretamente ligada a biológica. Poríferos e tunicados, em especial, são fontes potenciais de compostos bioativos. O pesquisador acentua que "esses grupos também têm importância estrutural em diversos ecossistemas e são uma das prioridades globais no estudo da biodiversidade marinha". (Pesquisa Fapesp)

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