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Química & Farmacologia |
Em relação a compostos com interesse farmacológico as esponjas também ocupam uma posição única. Estes organismos bentônicos ocupam um ambiente onde a competição por espaço é extremamente agressiva. Isto não só à nível físico, pelo recobrimento daquelas espécies menos capazes, mas principalmente a nível químico, pela produção de diversas substâncias tóxicas, ou alelopáticas, que fornecem a vantagem competitiva necessária contra espécies concorrentes ou predadores (e.g. Becerro et al, 1997; Thacker et al, 1998). Possuem reconhecidamente um metabolismo secundário extremamente diversificado e também uma imensa variedade de microorganismos associados, com os quais desenvolvem relações intrincadas, e que podem também ser fontes de novos elementos.
Em vista disso, as esponjas são um dos grupos mais promissores no que diz respeito a produção de novos compostos de interesse. Atualmente tem sido um dos organismos mais estudados do ponto de vista químico (Dumdei et al, 1997) e a atividade dos seus extratos vem sendo bem documentada em diversos programas de pesquisa. Como conseqüência, nos últimos 20 anos centenas de substâncias foram isoladas a partir de esponjas, muitas das quais já foram identificadas e apresentam fortes atividades biológicas e farmacológicas. Diversos grupos de pesquisa acadêmicos e industriais, como a Hoffmann-La Roche (através de sua divisão na Austrália, o Roche Research Institute of Marine Pharmacology) e, mais recentemente, o Harbor Branch Oceanographic Institute, e as companhias SeaPharm e PharmaMar, têm dedicado crescentes esforços ao seu isolamento. Um exemplo claro desses esforços pode ser notado nas recentes avaliações realizadas pelo NCI (National Cancer Institute, EUA), relativas a obtenção de extratos orgânicos de origem natural. Nelas observou-se que, dentre os diversos grupos de organismos pesquisados, as esponjas são os que apresentam o maior número de extratos com altas porcentagens de atividade anti-tumoral (Garson, 1994; Munro et al, 1994).
Apesar do maciço número de substâncias já pesquisadas e descritas, existem vários problemas e diversas questões ainda devem ser respondidas. Boa parte dos trabalhos em química se baseia em identificações taxonômicas superficiais, apenas a nível de gênero, ou pouco fundamentadas. Por outro lado, parte dos artigos se limitam a indicar a presença de alguma atividade biológica em extratos brutos, sem que haja a identificação do componente responsável. Da mesma forma, são ainda raros os casos onde à identificação da espécie produtora e de seu respectivo elemento de interesse farmacológico se segue a caracterização deste composto dentro do contexto orgânico do animal. As subpopulações celulares responsáveis pela sua produção ou mesmo as áreas de acúmulo destes compostos dificilmente são identificadas. Dessa forma, as diversas informações que poderiam ser obtidas a respeito do papel fisiológico e ecológico destes componentes são desperdiçadas. Perdem-se também dados que poderiam auxiliar no entendimento das vias biossintéticas destes componentes em outros animais.
Da região sudeste cerca de 40% das espécies encontradas têm propriedades farmacológicas conhecidas, e muitas dos restantes 60% certamente o terão, tão logo pesquisadas sob este prisma. Apenas duas espécies endêmicas (Arenosclera brasiliensis e Clathrina aurea) já demonstraram possuir atividades antimicrobianas. Os compostos bioativos de A. brasiliensis já foram isolados, mas seus mecanismos de ação ainda precisam ser caracterizados. As quatro espécies com espectro de atividade mais amplo na região Sudeste (Amphimedon viridis, Cliona celata, Scopalina ruetzleri e Tedania ignis) são também muito abundantes e amplamente distribuídas no litoral brasileiro e no Caribe. A esponja Amphimedom viridis produz a amphitoxina e a halitoxina, alcalóides guanidínicos com atividade antibacteriana, citotóxica, ictiotóxica e hemolítica, além de causar redução do nível de glicose no sangue em cobaias. Extratos brutos de Cliona celata têm atividade antibacteriana, antifúngica, citotóxica, antimitótica, antiviral e ictiotóxica. Scopalina ruetzleri produz a ulosantoina, um potente inseticida, e compostos indólicos reguladores do crescimento de plantas. Tedania ignis produz um macrolídeo citotóxico chamado tedanolide, e seu extrato bruto metanólico tem atividade antibacteriana, antifúngica, citotóxica e antitumoral. As espécies Aplysina fulva e Dysidea aff. fragilis, conhecidas do litoral sudeste, apresentam respectivamente atividade antimicrobiana e cito e ictiotóxica.
Retirado do site:
http://acd.ufrj.br/labpor/2-Linhas/Linhas.htm#quimica