Contemplou o monte de prendas: o boneco insuflável
(mais uma das piadas parvas do primo Boris), a caixinha de prata
para guardar os caninos postiços, a edição especial do Drácula
de Bram Stoker em encadernação de luxo, as garrafas de Pure Blood,
oferta da prima Teodosya...
Procurou no sofá uma posição mais cómoda e relanceou
um olhar pela mudez exasperante do telefone: será que "ele" não
lhe telefonava? Desde manhãzinha que fazia a si própria essa mesma
pergunta. E ainda não fora capaz de ousar uma resposta. Um facto
é que telefonara toda a gente e mais alguma, inclusivé uns primos
em quadragésimo grau que viviam algures no norte europeu. Sim,
telefonara toda a gente e mais alguma... menos quem deveria ter
telefonado. Mas enfim, convinha manter a calma, afinal de contas
o dia (perdão: a noite) ainda não tinha acabado.
Acendeu um cigarro, cujo fumo foi alegremente
juntar-se à atmosfera embaciada que reinava na sala. Tinha sido
uma bela festa. E não era só ela a ter tal opinião: parte dos
convidados não se tinha ido embora e ressonava agora placidamente
em qualquer canto disponível. Pôs os óculos escuros e aproximou-se
da janela, que abriu com cuidado: sim, o sol estava prestes a
nascer, eram mais que horas de ir deitar-se e tratar do seu soninho
de beleza... agora, com 325 anos recém-cumpridos, já não era nenhuma
adolescente. Havia que cuidar-se, se é que queria chegar aos 500
em boa forma.
Tinha mesmo sido uma bela festa, apesar de Drak'linha,
o morcego bebé, se ter quase afogado na taça do ponche, isto enquanto
o gato ficara preso num dos lustres e Sinatra, o pombo-correio
que ocasionalmente desempenhava as funções de mordomo, ter apanhado
uma valente bebedeira com os bombons de licor. Mas isto não era
nada comparado com o que sucedera com a prima Markolyna: a senhora
em questão servira-se de uma generosa porção de bolo de aniversário.
Comera-a com apetite e com as três velinhas que tinham calhado
na fatia. Dava-se infelizmente o caso de estarem acesas.
Coisa que não fizera muita mossa: com efeito,
no dizer da D. Markolyna, tal facto apenas contribuíra para realçar
o sabor do bolo.
Tinha sido uma bela festa (para que raio estava
constantemente a repetir isso para si própria? Será que tinha
dúvidas?). Adiante: tinha sido uma bela festa. Estreara um vestido
novo, de veludo negro e decote vertiginoso. Tinha pintado as unhas
de preto e armado o cabelo num penteado arrepiante, cheio de laca
e paciência. Mas tinha ficado o máximo! Palavra que até lhe custava
ir-se deitar. Bem, não era só pela toilette, convenhamos. Era
muito provavelmente porque, enquanto não se fosse deitar, ainda
guardava a ilusão de que o telefone iria tocar e seria "ele" do
outro lado do fio... a desejar-lhe parabéns e a lamentar não ter
podido comparecer, gostara tanto do convite mas infelizmente não
lhe fora possível...mas de maneira nenhuma queria ficar sem lhe
desejar o melhor dos aniversários e já agora, porque não haveriam
de combinar tomar um copo um dia destes... não, melhor dizendo,
porque não haveriam de jantar os dois um dia destes? Havia tanto
tempo que não se encontravam que certamente teriam uma miríade
de coisas que dizer um ao outro... estava justamente a pensar
naquele restaurantezinho que tinha aberto há pouco, o "Chez le
vampire", ela conhecia? Ainda lá não tinha ido? Então ficava já
assente...
O cigarro terminou de se consumir no cinzeiro
enquanto ela sonhava de olhos abertos. Caiu em si e suspirou.
Enfim... era apenas uma questão de esperar.
Acendeu mais um cigarro, aspirou o fumo com força,
descontraiu os músculos e estendeu-se no sofá de couro, não sem
antes tirar os sapatos de cetim preto, cuja biqueira afilada,
juntamente com os saltos agulha de doze centímetros, eram os responsáveis
por três dolorosas bolhas e um incipiente calo. Os olhos foram
esbarrar com a capa, de um dourado puído, do álbum de fotografias
da sua adolescência. Ainda nessa tarde estivera a vê-las e a comentar
com a prima Aldyna: a moda da época, que agora se lhes afigurava
assaz ridícula, os penteados idem, a própria postura que adoptavam
frente à câmara, de ar contrafeito e caninos arreganhados...
Mais recentes eram os instantâneos de passadas
festas de aniversário, em que ela se via mais gorda e invariavelmente
pouco atraente. Porém a prima Aldyna não comungava de tal opinião:
"És até muito gira, rapariga". Claro que tal afirmação, saída
de uma boca torta que albergava dentes irregulares, boca essa
situada num rosto adornado com várias verrugas, rosto esse emoldurado
por uns cabelos que mais pareciam palha não seria muito fiável,
mas se formos a ver...o retinir do telefone cortou-lhe o fio do
pensamento e catapultou-a do sofá. Era ele!
-Está? - perguntou ansiosamente, quase sem fôlego.
-Parabéns!!! É com o maior prazer que lhe comunicamos
que o seu nome foi sorteado e foi premiada com um telemóvel que...
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