3.A MORTE DE UM HOMEM RARO
Átila Roque (Coordenador de Políticas Públicas e Globalização do Ibase)
Milton Santos foi um tipo de intelectual cada vez mais raro no mundo de hoje. A experiência de vida e os anos de estudo o tornaram um exemplo de pensador que se preocupava até as últimas conseqüências com a condição humana. Um cientista que foi capaz de reinventar a geografia a partir da experiência histórica de homens e mulheres. Reconhecido internacionalmente como um inovador que não se deixou fascinar pelos modismos intelectuais de nosso tempo.
Elaborou no decorrer dos últimos anos uma das mais consistentes reflexões críticas sobre a chamada globalização. Sem ser dogmático, mantendo-se aberto às contradições inevitáveis ao exercício intelectual, contribuiu como poucos para o debate público, sem cair em armadilhas ideológicas ou partidárias. Era apaixonado pela palavra e combatente incansável a favor da justiça social. Democrata e humanista.
Milton Santos também era negro. Não fazia grandes estardalhaços por isso. Mas incorporou ao seu pensamento e à sua vida a crítica radical das desigualdades produzidas pelo racismo. E o fez sem rancor, transformando as adversidades sofridas ao longo da vida em altivez e orgulho. Não era possível estar em sua presença sem sentir a força quase física da sua história pessoal. A conquista do respeito e o reconhecimento público foi um longo processo que gerou nele uma consciência visceral a respeito da indignidade do racismo. Uma consciência que, esperamos, continuará a iluminar a sociedade brasileira.