5.SOBRE OS LUGARES DO MUNDO: FALANDO DOS SANTOS
Maria Adélia Aparecida de Souza (Profª Titular de Geografia Humana da USP e Profª Concursada do Instituto de Geografia da UNICAMP)
Incrível e triste coincidência esta. Incrível pois, neste ano de 2001, tinha eu a enorme esperança de promover o encontro de dois SANTOS: um deles, velho e querido amigo, o Milton, mestre sobre a vida e a Geografia, que nos deixou. O outro, o Toninho, que conheci neste ano e que aprendi a respeitar não apenas por ser um prefeito exemplar, mas por ter me cativado pela sua proposta para governar Campinas e por ser um leitor cuidadoso de Milton.
O que une os dois é sem dúvida a POLÍTICA e o encantamento pelo LUGAR, este espaço do acontecer solidário, fragmento do mundo e fundamento da resistência de toda ordem.
Coincidentemente, o lugar como fragmento está marcado na colcha de retalhos símbolo do movimento recém lançado pela Prefeita Izalene - COSTURANDO A PAZ em Campinas, onde cada retalho representa esta solidariedade dos lugares, este fragmento do mundo, esta forma de resistência.
Para Milton, estamos vivendo o mundo da racionalidade política em substituição a esgotada racionalidade econômica. Nesta perspectiva, o lugar passa a ser o principal na construção de uma nova ordem, neste período popular da história.
Sua obra nos dá pistas importantíssimas para estudar Campinas. Ensina Milton Santos que as metrópoles do Terceiro Mundo são uma cristalização de nova lógica em pontos de território, correspondente ao novo momento histórico. É aí que confluem resultados contraditórios de um processo de modernização que impõe novas formas de atraso. Por isso, diante dessas enormes máquinas, em que a existência é penosa para a maioria da população pergunta-se por que tais cidades não são ainda mais críticas, por que ainda funcionam relativamente bem? Por que essas metrópoles definitivamente não explodem?
Quando a cidade mata seu Prefeito, será que ela não começou definitivamente a explodir? Falo da cidade, essa massa física oriunda do embate de interesses de toda ordem. Aprendi com Milton a ser rigorosa nos conceitos. É a cidade e não o lugar, quem mata.
Para Toninho a POLÍTICA foi sua razão de ser e de viver e o LUGAR ele pretendia ajudar a construir em Campinas. A cidade, no entanto, executou sua sentença de morte. Mas, o lugar, como nos ensina Milton Santos, se constitui também no principal fundamento para a compreensão (não a aceitação) de seu desaparecimento: ele indica que as solidariedades sociais que necessitam ser gestadas para a construção de uma sociedade digna em Campinas, ainda não foram construídas. Esta gestação se dá historicamente pelos pactos que a sociedade, no lugar, vai amealhando, através da construção histórica do poder político, através das transparências dessas ações que realiza em nome do povo. A situação em que nos encontramos em Campinas demonstra que a cidade é palco de lutas sem lei e que o lugar, está abandonado. A sociedade campineira abandonou o lugar e a cidade, que ficaram sob os cuidados da violência.
Conheci pouco TONINHO, pois estive com ele pessoalmente apenas quatro vezes neste ano de 2001. Mas, impressionou-me seu estilo político: em público fugia ao tradicional discurso para o aplauso. Corajoso e destemido dizia o que precisava ser dito e não o que a platéia adoraria ouvir. Assim o vi, firme, em uma reunião do Conselho Municipal do Meio Ambiente.
Campinas perdeu um de seus filhos queridos. O Brasil perdeu um político sério, um de seus estadistas. Eu certamente perdi mais um amigo que pretendia guardar e com ele me solidarizar.
Toninho insistia em dizer que a Cidade de Campinas queria homenagear Milton Santos, o grande geógrafo brasileiro. Insistia sempre, nas poucas vezes em que nos encontramos, que eu trouxesse Milton para ser festejado em Campinas.
Nem um, nem outro puderam me dar este privilégio de vê-los juntos. Decidiram se homenagear no céu, com nossos aplausos eternos e repletos de gratidão, daqui de Campinas, dos nossos lugares à partir dos quais forjamos nossa incansável resistência.
Para isso, antes de deixar-nos, Toninho criou o PROJETO MILTON SANTOS que prossegue com o apoio firme, decidido e feminino de Izalene, nossa Prefeita e da Comunidade Negra.
Prosseguiremos festejando, como ambos gostavam de ser.
Certamente os SANTOS, nos dirão AMÉM.