21.DUAS UNIVERSIDADES
Débora Ribeiro (O Globo / 12 - 09 - 2001)
O geógrafo Milton Santos classifica as universidades em duas categorias; as produtoras e as consumidoras. As primeiras são aquelas onde os alunos escrevem, renovam idéias e lêem bons livros. Nas outras, os estudantes consomem as informações de forma insuficiente e indigesta. Para ele, os professores precisam deixar de se preocupar mais com as regras educacionais do que com o conteúdo. "Hoje a tendência é a sociedade do conhecimento, onde o exercício eficaz da cidadania depende da instrução orientada". Milton Santos, 74, é um dos maiores acadêmicos do Brasil, vencedor do Prêmio Internacional Vautrin Lud, considerado o Nobel da geografia.
Em seu mais recente livro, Por Uma Outra Globalização, o professor mostra que a globalização é "um fenômeno perverso, porque beneficia poucas pessoas e maltrata a maioria da humanidade". Para ele, a globalização deve implicar "um mundo para toda a humanidade, onde as posses materiais não sejam tão instituídas, onde não haja fome, nem doença, nem injustiça. Onde a vida seja bonita". O governo, afirma, tem medo que a sociedade descubra outras formas de aç ão, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que, porém, se torna negativa quando utiliza a violência. Sem esquecer da importância da era da Internet e da comunicação digital, Milton Santos afirma que "a técnica é muito sedutora porque permite saber o que o mundo é, multiplicar o conhecimento, reduzir as distâncias, enfim, ampliar os horizontes. Mas, a intoxicação técnica sem o sabor filosófico, a busca de uma mística, é o problema".