9.DISSERTANDO MILTON SANTOS
Pablo A. Maurutto
A compreensão do conceito de espaço para a análise da diluição espaço-sociedade se faz essencial sob a ótica do todo ou de sistema. Dentro desse conceito o espaço expressa-se , segundo Milton Santos, como instancia da sociedade; e, como tal, interage num conjunto de instancias ( economia, política, cultura) agindo dialéticamente como continente e conteúdo, paradigma e sintagma.
O espaço é muito mais um evento que um elemento físico. Ele define-se segundo uma multiplicidade de conceitos que interagem na e com a forma. É como se forma tivesse corpo e alma. Ela é resultante e resultado de um conteúdo e é alterada com o movimento social de modo que um conteúdo se encaixa e interage a cada nova forma que por sua vez renova a sua concepção formal. Isso exemplifica-se na transgressão tipológica que se deu na cidade do Salvador. Quando ela era tida como Cidade do Comércio, nos sobrados estabeleciam-se moradias e comércio numa ocupação mista. Com a dinâmica urbana, o centro da cidade passou a adquirir uma especificação como zona do trabalho. Essa passagem da Cidade do Comércio para Cidade do Trabalho modificou o contexto social na região do centro e os donos dos estabelecimentos comerciais deslocaram-se para outras áreas e passaram a habitar os solares. Os antigos sobrados tornaram-se exclusivamente reservados ao comércio, sugerindo uma nova concepção tipológica e formal dentro e fora dos seus limites físicos. Essa segregação se deu em forma e função e ocasionou um novo conteúdo social.
A interação é a essência do conceito de espaço, é o seu movimento dialético que o define como sistema.
Essa capacidade de transformação e reconceitualização de um espaço justifica a localização como algo dinâmico. Deve-se entender que o conceito de localização e de lugar são distintos . A localização é uma apreensão categórica ou conceitual de um lugar em meio a uma rede de interferências relacionais. Segundo Milton Santos "lugar é o objeto ou o conjunto de objetos. A localização é um feixe de forças sociais se exercendo em um lugar." Isso caracteriza o lugar como estático e a localização como dinâmica.
Roberto Da Matta , em A Casa & A Rua, exemplifica esses conceitos segundo as diferenças das noções básicas de endereço ou da localização cronológica entre diferentes grupos sociais. Em cidades pequenas ou vilas brasileiras, por exemplo, os endereços são especificados popularmente segundo relações socio-culturais : "...fica numa casinha amarela ao lado da casa de D. Maria, a doceira, na primeira esquina depois do cajueiro." e essa explicação ,sem dúvidas, esclarece de maneira muito mais satisfatória do que ,por exemplo, "SMIN ,ql. 02, conj. 12, casa 14, lago norte" endereço convencional em Brasília. Podemos observar como o primeiro exemplo é suscetível à transformações em função do movimento social, ou das mudanças dos "feixe de forças sociais" de que fala Milton Santos, e portanto tal especificação está mais relacionada ao conceito de localização. Já o segundo exemplo apresenta uma predeterminação nominal rígida e a priori sem nenhuma relação com as interferências sociais.
Da Matta ainda exemplifica o conceito de localização cronológica ou histórica ao comentar a tribo dos Apinayés cuja noção de tempo se dá através de relações ou eventos socio-culturais: "... no tempo que meu Geti (avô) era vivo...".
Essa noção de localização nos vai permitir, portanto, que um mesmo lugar mude de localização através dos movimentos sociais na história.
A localização seria portanto pontos de intercessão das relações e valores sociais ou humanos, dilatando-se à níveis sistêmicos enquanto os lugares definem-se pontualmente por relações físicas.
Essa complexa estrutura do espaço sugere que ,para a sua análise, seja utilizado um método que é baseado na apreensão de paradigmas e ,num confronto inverso, na decomposição do sintagma. Essa decomposição resulta no que M. Santos chama de elementos. Os elementos do espaço são os homens, as firmas, as instituições, o meio ecológico e as infra-estruturas. Esses elementos não são rígidos; eles podem intercambializarem-se e reduzirem-se. Assim, os homens podem agir como firmas, as firmas como instituições, etc. Essa intercambialidade salienta o caráter sistêmico do espaço, seu funcionamento polimórfico é reflexo da polivalência de seus elementos.
Dentro das interações dos elementos, M. Santos polemiza o meio ecológico afirmando que este define-se em parte como meio técnico ou infra-estrutural e até mesmo a dita "natureza selvagem" ou "cósmica" já foi substituída pela artificial. Isto porque, a partir do momento que o homem tornou-se "homem social" com a produção social, o raio de ação da sua interferência no espaço extinguiu qualquer suspiro da natureza primeira.
Chegamos então à conclusão que os elementos que compõe o espaço são estruturados pelos seus papéis, seus estados, relações e condições e não pela sua representação particular e física. O exemplo de Kuhn ilustra com clareza essa definição: "em sistemas que envolvem pessoas não é a pessoa que é um elemento, mais os seus estados de fome, de desejo, de companheirismo ,de informação ou um outro traço de qualidade relevante para o sistema". O que reafirma uma outra colocação de Milton Santos de que o homem mesmo sem participar diretamente da produção (aposentado, desempregados e crianças) caracteriza-se como elemento do espaço já que estruturam o contexto social, o que representa sua condição de elemento. Isso nos leva a concluir que o elemento está sujeito a transformações no momento em que desloca-se no tempo. Isso porque o movimento histórico lhe soma qualidades e quantidades segundo essa ordem, segundo Milton Santos. Os valores qualitativos são os primeiros que devem ser captados pois são as necessidades sociais que resultam numa expressão quantitativa.
Os elementos são mutáveis no tempo assim como transformam-se com o deslocamento do lugar. Um elemento sob as mesmas condições, em lugares diferentes desenvolve-se de formas diferentes.
Deve-se frisar que na análise do espaço ou da sociedade não são os elementos na natureza que lhes dará forma. Para sair do nível do abstrato e compreender o espaço como um sistema e como um todo deve-se compreender os elos entre os elementos ou suas estruturas. Esses elos ocorrem de várias maneiras e são categorizadas de duas formas: "relações simples" e "relações globais". As relações simples estruturam-se segundo causa e efeito, são definidas por David Harvey como relações seriais. Nesse tipo de relação os elementos interagem uns nos outros de forma sucessiva e cíclica.
As relações globais são definidas por elementos que influenciam relações pré-existentes , no caso das paralelas, segundo D. Harvey ou quando a estrutura interna do elemento é quem modifica o próprio elemento, que é mais recente, e chamada por Harvey de Feed Back.
Devemos compreender essa constituição sistêmica , com as relações ocorrendo simultaneamente e em conjunto estruturando uma enorme teia de relações de elementos que por sua vez desdobram-se em sub-sistemas. O que complexibiliza mais o espaço já que estes sub-sistemas estão conectados às relações gerais. Por isso podemos afirmar que o nível de abstração, ao contrário do que parece, é muito maior na análise empírica e pontual daquilo que é fisicamente concreto e que as evidências e a concretização da análise de um fenômeno está na compreensão de um todo ou de um sistema que extravasa os limites físicos e alcança horizontes cósmicos.