13.MILTON SANTOS NA UFRGS
Milton Santos nasceu em Brotas, sertão da Bahia, onde seus pais trabalharam como professores primários. Viveu dos três aos 10 anos em Alcaçoba, sul da Bahia e dali saiu para o que denominava "o seu primeiro exílio". Um colégio de Salvador, num grande esforço de seus familiares para que seguisse seus estudos.
No ginásio, conheceu a obra de Josué de Castro e, com admiração por João Mangabeira, apesar de reconhecer suas limitações, vinculou-se ao movimento estudantil e entrou na Faculdade de Direito em 1944. Formou-se em 1948, e fez concurso para professor em Ilhéus, onde foi catedrático do colégio Municipal. Criou a seção da Bahia na Associação dos Geógrafos Brasileiros. Em 1958, tornou-se doutor em Geografia pela Universidade de Strasburgo (França).
Na ditadura militar era redator do jornal "A Tarde", de Salvador, e professor universitário, defendendo posições nacionalistas. Isto lhe valeu uma demissão da Universidade Federal da Bahia e uma prisão por 60 dias em Salvador. Libertado por problemas de saúde, aceitou convite para trabalhar no exterior.
"Filósofo da Geografia", "revolucionário", são alguns dos elogios feitos à obra e à personalidade de Milton Santos. Exilado, não podia transmitir seus conhecimentos e suas idéias no Brasil. Percorreu o mundo como professor. Lecionou nas Universidades de Toulouse, Bordeaux e Paris (França); Toronto (Canadá); Lima (Peru); Dar-Es-Salam (Tanzânia); Columbia (EUA), Central de Venezuela e Zulia (Venezuela) Voltou ao Brasil somente em 1977. Foi professor da UERJ e da USP, da qual se tornou professor emérito. Nas duas deu aulas até o ano passado.
A experiência internacional lhe possibilitou a propagação de suas idéias humanistas e humanitárias que resultaram em 20 títulos Honoris Causa pelo mundo, entre os quais o concedido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Foi o único pesquisador fora do mundo anglo-saxão a receber em 1994, o prestigiado prêmio Vautrid Lud, o "Prêmio Nobel" da geografia.
Intelectual comprometido com a sociedade, tinha ritmo intenso de trabalho. Publicou mais de 40 livros e 300 artigos.
Ao tomar contato com o filósofo francês, Jean Paul Sartre, durante o exílio que seguiu ao golpe de 1964, Milton incorporou a idéia de intelectual com independência total o que o distanciou da militância. Mas, a energia permanente do esquerdista convicto – que nunca se filiou a partido – sempre o manteve preocupado com os excluídos e com a minoria. Era com serenidade que manifestava sua opinião quando lhe perguntavam coisas como – "o que fazer contra a discriminação dos negros no Brasil?". Com sabedoria e delicadeza aconselhava aos de sua etnia: que estudassem, trabalhassem e buscasse o seu caminho e parassem de apenas se lamentar. Na África enquanto professor começou a fazer a crítica do preconceito e descobriu a cultura brasileira. "Creio que o movimento negro é um pouco equivocado nessa extrema vocação externa, em olhar para os Estados Unidos e para a África. Evidentemente que viemos todos de lá, mas somos outra coisa".
Chamava a globalização de fábrica de perversidades "De um certo ângulo, vejo uma globalização da qual não gosto. A que está aí é um fenômeno perverso e tento mostrar que é possível fazer de outro modo. Beneficia poucas pessoas, maltrata a maioria da humanidade. Essa história de globalização, aldeia global, é um vocabulário enganoso" - disse numa entrevista publicada no ano passado. Suas idéias lúcidas conquistaram seguidores que concordam com suas análises críticas.
Naquele 10 de abril de 1996, quando rece- beu o título de doutor honoris causa da UFRGS, Milton Santos começou assim sua Aula Magna: "Quando, em 1977, buscava reinstalar-me no Brasil, esta foi a primeira Universidade que me fez um apelo, que me ofereceu trabalho. As circunstâncias não me permitiram permanecer aqui e hoje estou muito contente de dizer isso publicamente, porque estou chegando aqui para ficar. Porque este título me associa, de forma permanente e honrosa ao destino desta casa." Estava muito feliz, muito orgulhoso, porque recebia, na ocasião, duas homenagens raras na vida acadêmica: as possibilidades de se tornar nela um Doutor Honorário e de falar a toda Universidade na Aula Inaugural. "São dois momentos muito importantes da vida acadêmica e vivê-los no mesmo dia temo que seja mais do que a minha emoção pode agüentar", disse. Milton Santos lembrou que "as honras acadêmicas têm esse papel na vida universitária, que é o de oferecer o reconhecimento, coisa que todos nós necessitamos. É um equívoco imaginar que é democrático abolir as formalidades dentro da vida acadêmica. Porque senão a gente não sabe avaliar exatamente o que recebe e não sabe o que buscar. Não sabendo o que buscar a vida acadêmica perde o norte e se diminui. Mas também eu creio que homenagens como esta constitui uma mensagem aos mais jovens, indicando-lhes que trabalhando – e trabalhando na vida acadêmica – é possível fazer coisas a partir da produção das idéias". Advertiu, entretanto que "é preciso que o homenageado se saiba mostrar humilde." Recordou uma frase que lhe era repetida com freqüência pelo amigo e colega Gui Lacerd, professor de Geografia na Universidade de Bordeaux. Lacerd dizia "o meu passado é o meu futuro" falando do passado como um capital a render juros. Contestou, porém, "que com o passado pouco temos o que fazer e, em qualquer que seja a etapa da vida, o fundamental é olhar para frente". Admitiu que "a minha ambição sempre foi a continuação, a de produzir uma geografia, uma disciplina do espaço dentro de uma teoria social crítica. E anunciou: ´É disso que vou falar, ainda que rapidamente, isto é, do meu trabalho atual: a minha visão do futuro."
Começou com duas perguntas: "O que é o espaço? O que é a geografia?" Ele mesmo, respondeu: " Um colega inglês chamado Johnson escreveu que há tantas geografias quanto geógrafos, quer dizer, cada geógrafo propõe uma geografia. Outras disciplinas têm escolas e vêem sempre surgir novas, mas em torno do mesmo objeto. Daí vem para essas disciplinas a possibilidade de um debate interno e externo." E mostrou que "a geografia, tem sido, durante um século, vítima de um desencontro de preocupações, de um despedaçamento do objeto limítrofe da perda de sentido e, certamente, responsável pela perda de terreno da disciplina, assaltada por todos os lados pelas outras disciplinas, que vão, pouco a pouco, tomando o seu campo de trabalho. E isso vem de uma certa imprecisão do objeto, que faz com que, conversando com os demais colegas da universidade, a gente já não se admira que esses colegas não saibam muito o que estamos fazendo.
Milton Santos lembrou que "a história é longa" e que "ela vem da ambição desarrazoada dos primórdios da geografia que se queria científica, quando os nossos pósteros viam a geografia em si mesma como uma interdisciplinaridade. E, às vezes, como a interdisciplinaridade, essa pretensão doentia dos geógrafos do começo do século de ser a geografia a única encruzilhada.
Situou a geografia de hoje como "uma disciplina modesta, que nem mais quer ser ciência’ pois na sua opinião, "o estatuto da ciência atual é tão precário que o desejar ser ciência já não é mais uma meta para disciplinas do homem." E relaciona: "A geografia tem algo como uma vangloria que também pode ser considerado como um auto-escárnio, isto é, ela é quase tão humilde quanto a filosofia. A única arrogância da geografia neste fim de século pode vir do valor que tem para todas as atividades do homem, o espaço do homem, até esse caminho controverso, a chamada consciência ecológica. Esse caminho, às vezes equivocado, a chamada produtividade do lugar, mas sobretudo que vem do fato de que o espaço registra todos os dramas do mundo. A realidade, sabemos, ela é uma e é múltipla. Sabemos que ela pode ser reconhecida segundo diversos ângulos e aspectos. Daí a produção científica acadêmica das províncias do saber, que são uma construção intelectual muito mais do que uma construção da história. Tanto que não nasceram ao mesmo tempo, os limites se desfazem e os conteúdos também. E a proposta sistemática de um autor sozinha muda o destino do conhecimento. Por conseguinte, as disciplinas todas têm uma autonomia, que é, como autonomia, uma autonomia relativa. Mas concilia a especificidade da geografia entre as ciências sociais. Milton Santos acha que essa especificidade vem de que os geógrafos tratam a sociedade a partir de um casamento indissolúvel entre os objetos e as ações. "Lembro que há disciplinas que trabalham apenas com os objetos, há disciplinas - e aí está a maioria das ciências sociais – que trabalham com as ações". E acrescenta que a geografia é obrigada a trabalhar com objetos e ações e, por isso, tem o privilégio de ser, possivelmente, a disciplina que, por seu própria labor, é obrigada a romper com essa epistemologia da modernidade que tanto peso teve na produção científica no mundo inteiro. E mais ainda, talvez, na América Latina e que tem sido obstáculo à aproximação da verdade. Com relação a essas oposições entre a sociedade e natureza, entre dedução e indução, entre objetividade e subjetividade, entre universalidade e particularidade, ele acredita que quando nós tratamos a sociedade como algo que se faz através do movimento conjunto e indissolúvel do sistema de objetos e do sistema de ações, descobrimos que dedução e indução são movimentos que se dão de forma comum; que a universalidade e a particularidade se reconhecem no mesmo movimento; que a velha oposição sociedade e natureza é um equívoco que o marxismo agravou e que o movimento ecológico, mantém. Porque não há isso de relação na sociedade/natureza, o homem não tem relação com a natureza, o homem se relaciona com a sociedade. Milton Santos chama atenção para essa oposição entre objetividade e subjetividade que impediu o mundo chamado ocidental de alcançar o entendimento dele mesmo, essa epistemologia da modernidade da qual a universidade latino-americana é uma herdeira, que constitui um obstáculo à produção de conhecimento que seja capaz de interpretar o mundo. E alertou para as próprias correntes de esquerda, cujo discurso do interesse aos pobres é tão conhecido, mas que também trabalha com essa separação entre a objetividade e a subjetividade, por conseguinte, excluindo os pobres. Constata que os pobres é que têm o privilégio, no mundo de hoje, do exercício da subjetividade enquanto que para nós outros todos, que não somos pobres, a luta é pela aproximação cada vezes maior com a chamada objetividade, e com a recusa a introduzir a emoção como centro da produção do conhecimento. Ora, o espaço banal da geografia, que é o espaço de todos os indivíduos, de todas as empresas, de todas as instituições, corporifica esse espaço banal, exemplifica a recusa a todos os dualismos. O espaço de todos os homens, o espaço de todas instituições não distingue entre sociedade e natureza. Nele, os homens são objetivos e ricos de subjetividade, que de resto lhes permite encarar o futuro. Não há como separar dedução e indução e, tampouco, essa oposição entre universalidade e particularidade pode parecer, mas apenas como uma regra de método. Como, a partir desse quadro, produzir um saber particular que não se desgarre de todo. Eu creio que a solução é a de buscar ver as coisas se realizando porque a verdade não está no resultado, que é o grande equívoco deste fim de século. A verdade está, e apenas está, no processo. É o processo que é real, porque o processo é o atual. Uma velha lição de Aristóteles; só o atual é real. Só o processo é total, só o processo é atual e por isso que ele é a realidade. E somente o espaço banal dá conta da realidade do processo. Ele defini o espaço banal como mãe de todos os processo, espaço de todos os indivíduos, o espaço de todas as empresas, o espaço de todas as instituições, ele é realidade, resultado e é processo. Como resultado, ele já não é real porque resultado é o ontem. O que o faz real é o processo, a atualidade, a sua inserção no todo e a sua existência como parcela. É isso o que o espaço oferece. O espaço acolhe a todos os indivíduos, não importando as suas classes, ele acolhe a todas as empresas, as maiores e as mais pequenas; ele testemunha o trabalho de todas as instituições. É isso o espaço banal. Não quero tirar daí razão para um novo ufanismo da geografia, para uma nova vontade de vangloria, para uma nova bobagem, que nos levasse a acreditar numa prioridade, mas eu creio que isso permite, através do espaço, à geografia, de se comunicar com todas as disciplinas, e é a partir daí que a interdisciplinaridade se dá, se realiza. Ressalta porém, que a interdisciplinaridade não se dá através das disciplinas. As disciplinas não são suficientes para produzir interdisciplinaridade. Considera um equívoco imaginar que é possível obtê-la assim, " e defende que a interdisciplinaridade somente se dá a partir das metadisciplinas, isto é, cada domínio do saber, cada província do conhecimento produz a sua própria transdisciplina. Aquilo que Barchelar chamava de filosofia espontânea dos sábios, isto é, essa vontade transcendência que não é um privilégio dos filósofos, cada vez menos o é. E que passa a ser uma possibilidade aberta a todos os chamados especialistas desde que não se queiram confinar nos limites estreitos da sua própria disciplina." Passa a questionar como conciliar essa idéia de ontologia, que é muito mais abrangente, com ontologia de uma disciplina? Será que eu posso a partir da ontologia da sociedade encontrar uma ontologia do espaço? Nossa missão é muito maior. É, a partir da ontologia do espaço, contribuir para que a ontologia da sociedade se amplie. É uma forma de retrucar, de responder, de dar, ainda que uma longínqua, resposta ao desafio de Giddens, quando ele delicadamente escreveu que, se a geografia não contribuiu ainda para ampliar os horizontes da sociologia, é porque a geografia se contenta com a contribuição da sociologia. Ora, a sociedade chamada global no âmbito de um país, na realidade não chega a existir. Quem já encontrou alguma sociedade global brasileira? Não existe isso. Milton diz que esse encontro se dá por intermédio dos lugares, isto é, retomando o filósofo de que eu gosto mais, Jean Paul Sartre – o filósofo no qual se considera viciado – a sociedade seria essência, um conjunto de possibilidades que ficam pairando e que são colhidas pelos diversos indivíduos, pelas diversas empresas, pelas diversas instituições e que se realizam no território, tornando-se existentes. A sociedade é apenas o ser, o existir vem do espaço. Daí há a proposta, que hoje é minha, de uma epistemologia da existência. Uma epistemologia existencial e, desde que a palavra deixou de ser obscena, uma epistemologia existencialista. Que, no meu modo de ver, pode ser aplicada às outras disciplinas do homem incluindo as outras disciplinas que não são as do homem.
Porque as disciplinas que não são as do homem se realizam através da aventura humana e são interpretadas pelas disciplinas do homem, que têm, hoje mais do que nunca, o papel de fiscalização das disciplinas exatas e biológicas. Considera que a grande tarefa da universidade é essa obrigação que é feita aos cientistas sociais de, todos os dias, acompanhar e fiscalizar o trabalho dos outros colegas das outras disciplinas sobretudo neste fim de século. E crê que pela técnica que vai elaborar essa epistemologia existencial. A técnica é a velha companheira do homem desde o começo da história. Não haveria história sem a técnica. A técnica ela se dá como produção de coisas. Hoje, ela se dá até como produção dos homens. A técnica também está incluída nas ações, que cada vez mais subordinadas à técnica. Sempre estiveram e agora mais ainda, a partir do extremo pragmatismo das relações entre os homens. As técnicas de toda natureza se dão historicamente e se tornam através do espaço, do espaço banal. As técnicas mais díspares obedecendo às lógicas mais diferentes, ou antagônicas mesmo, o espaço as faz algo que tem um funcionamento comum. As técnicas de todas as cidades, todas as qualidades, nos lugares, elas se subordinam a essa construção que é a base da vida de homens que também são desiguais. Por fim, enaltece o valor da disciplina no qual é especializado, a geografia. A geografia brasileira é aquela que é a mais dinâmica porque o seu trabalho parte da realidade de baixo. Os geógrafos brasileiros não estão preocupados quanto a serem positivistas ou funcionalistas ou estruturalistas. O que é central na geografia brasileira é a partir daquilo que os homens todos juntos constróem como território. Essa geografia seria, então, uma filosofia das técnicas. Creio que se a gente leva em conta que, em nenhum momento da história nenhuma técnica se deu sozinha, a técnica na sua realização é filha da política. Porque a realização das técnicas sempre foi resultado da política. Isso nos permite construir, em lugar da epistemologia do conformismo, que é a nossa atual, baseada naquilo que era chamado de tecnologização, isto é, a submissão à técnica como se ela fosse um deus-máquina diante do qual nada pudesse ser proposto como alternativa, a gente vai produzir essa epistemologia da produção do futuro. Eu creio que esse é o papel que a geografia está chamada a realizar. Somente realizará esse papel a partir de uma produção teórica vigorosa porque não há idéia que se sustente que não seja a partir das teorias.