15.CIDADES
IBGE
O geógrafo Milton Santos estava interessado, havia anos, em entender, avaliar melhor o crescimento das cidades médias no Brasil. Boa parte do último livro, lançado em março (O Brasil, Território e Sociedade no Início do Séc. XXI, Record, em parceria com María Laura Silveira) estava dedicado à investigação dos "espaços que mandam e dos espaços que obedecem".
Santos insistia, nesse texto, que as cidades compõem uma espécie de "geometria variável", construída a partir do modo pelo qual as diferentes aglomerações participam "do jogo entre o local e o global". Cuidadoso, preocupado com a ausência de dados mais completos sobre o que estava observando, ele escreveu nesse texto que as cidades médias brasileiras estavam numa "encruzilhada".
Em maio, os dados da Sinopse Preliminar do Censo Demográfico 2000, divulgado pelo IBGE, revelavam um inesperado processo de desconcentração populacional:
entre 1991 e 2000, invertendo uma tendência histórica, o número de residentes nos municípios das capitais cresceu menos que a população do interior do País. Nesse período, a população nas cidades do interior (especialmente nas médias) crescera em 17,5 milhões de pessoas, enquanto nas capitais esse crescimento não ultrapassou 5,2 milhões.
Os técnicos do IBGE não arriscaram uma interpretação mais profunda desse movimento populacional. Em maio, a tentativa de entrevista já esbarrou na debilidade física de Milton Santos. Não foi possível conhecer a opinião do experiente geógrafo sobre os dados mais recentes do IBGE. O livro, publicado em março, oferecia algumas pistas. As cidades médias, em sua percepção, passaram a comandar, desde a década passada, aspectos técnicos essenciais da produção regional, deixando o "essencial dos aspectos políticos para aglomerações maiores do País". Santos considerava que o maior responsável por esse processo era o "papel" reservado às metrópoles de manter um contato "direto ou indireto com o chamado mercado global". E essa divisão de papéis, entre a cidade que comanda e a que obedece, o preocupava porque as cidades médias enfrentavam o que ele chamou de uma "demanda de racionalidades externas".
A ideia é instigante e Santos a explicou lembrando que o conjunto de exigências de origem "externa" às cidades médias, que os recursos financeiros provenientes da produção regional permitem consumir, podem fazer com que na cidade do interior o "mundo" lá de fora, inclusive da metrópole, seja visto como "inimigo", na famosa expressão de Raduan Nassar, que Santos menciona. Em outras palavras, o geógrafo alerta que a modernidade econômica não é suficiente para atender às novas demandas de racionalidade nessas cidades.
A cidade média localizada no campo, escreveu Milton Santos, hoje, é muito mais do que em outros períodos históricos o lugar de uma sociedade "complexa, dinâmica e contraditória". O geógrafo também apontou que essas cidades são autênticos "fóruns regionais", lugar preferencial de debate entre "as preocupações mais imediatas e os desígnios mais amplos" que revelam todo o constrangimento da política local face a nacional. As práticas eleitoreiras clientelistas nas cidades médias podem se enfraquecer com as novas demandas "externas". Com todos os riscos. O medo das demandas externas pode provocar coisa ainda pior que o clientelismo, como o perigoso provincianismo, típico das enriquecidas cidades do interior dos Estados Unidos. Para não falar do risco real da tragédia de Waco no Texas ou da bomba de Oklahoma, que nenhuma injeção fatal resolve.
No livro sobre o século 21, o geógrafo pensou outros problemas típicos do crescimento das cidades médias. Por exemplo, as oscilações sazonais de oportunidade de emprego podem fazer com que os calendários agrícolas regulados pela especialização moderna da produção sejam "tão marcados e inflexíveis quanto eram os calendários agrícolas de estrita obediência às condições naturais". A diversificação do consumo, escreveu Santos, fez dessas cidades médias lugares ideais para a localização de serviços, distribuição de bens e terceirização de tarefas; mas, as fez também um "repositório de mão-de-obra mais especializada". A qualificação é uma característica dos candidatos aos empregos possíveis, tornando-as "menos capazes de atrair e reter populações pobres". As metrópoles serão o destino natural deles, porque, como apontou Santos, essas imensas cidades "são mais capazes de acolher as atividades do que chamamos de circuito inferior da economia e seus respectivos agentes". Quem anda por São Paulo e Rio, em qualquer bairro dessas metrópoles, pode avaliar melhor se o experiente geógrafo tinha razão.