17.OS MIL... TONS DE MILTON SANTOS

Ariovaldo Umbeiro de Oliveira

A GENTE NÃO MORRE, ENCANTA

Fábio Gomes Pinto Rodrigues

 

Falar do intelectual MILTON SANTOS é falar de quem estudou o mundo e o Brasil, o Brasil e o mundo. MILTON resgatou a visão terceiro mundista de compreensão do mundo globalizado. Não a visão de um mundo cheio de cataclismas e armadilhas, mas de um mundo cheio de forças econômicas e regras de dominação. Regras que a consciência e a ação dos atores sociais poderiam e deveriam removê-las no encontro com o futuro.
MILTON resgatou também a visão brasileira do Terceiro Mundo, encontrando aqui as alternativas para a superação da globalização. Encontrou no Brasil os instrumentos e meios para entender o espaço, o território e sobretudo a NAÇÃO. O reencontro com a nação brasileira foi possível pela sua vivência mundial. Talvez por ter se tornado CIDADÃO DO MUNDO, reencontrou a nação, os pobres deste país gigante de uma elite cega e de muitos intelectuais igualmente cegos. Por isso MILTON tornou-se um intelectual que não se calou diante dos mitos e dos mecenas. Ergueu sua voz, criticou e deixou um legado teórico que os homens e mulheres do início do século XXI terão que ler e compreender para poderem entender o Brasil e o mundo. MILTON como intelectual colocou a Geografia brasileira na maioridade, como ele gostava de anunciar.

Falar do professor e colega MILTON SANTOS é falar daquele que fez de suas aulas verdadeiros textos e escola de aprendizado. MILTON não ministrava aulas como a maioria de nós. Ele fazia conferências, ditava cátedra, mostrava os problemas e indicava soluções. Os alunos inquietavam-se, queriam ouví-lo mais, mas ele prontamente anunciava "é preciso estudar mais... vocês têm que ler mais e mais ...". Foi sempre um colega intransigente com a burocracia universitária e avesso aos colegiados administrativos. O Departamento de Geografia-FFLCH-USP jamais poderá esquecê-lo, pois ele é parte da Geografia que aqui se produz, ele é uma de nossas estrelas maiores. Nós somos eternamente gratos por tê-lo conosco nestes tempos de certo obscurantismo.

Falar do amigo MILTON SANTOS, é falar daquele que fez parte intensa de nossa vida pessoal. Foi nosso crítico severo. Falou-nos de tudo e de todos. Aconselhou-nos nas horas difíceis e nos iluminou na escuridão. Foi muito bom poder encontrá-lo neste mundo. Foi muito bom conviver com ele, e será tarefa nossa cotidiana colocar sua obra no centro de nossas vidas.

MILTON,
Mil ...Tons vão colorir o mundo e o Brasil

E como disse o poeta:

"A Gente Não Morre, Encanta"

Obrigado por ter encantado todos nós geógrafos brasileiros e do mundo ...

EMOÇÃO NA HOMENAGEM PÓSTUMA A MILTON SANTOS

O auditório do Departamento de Geografia foi, nesse último dia 02 de julho, palco para uma homenagem póstuma ao Prof. Dr. Milton Santos, que veio a falecer em 25 de junho, aos 75 anos, vitimado pelo câncer. O professor dava aulas na Universidade desde 1977, ano em que regressou ao Brasil após passar anos lecionando em faculdades estrangeiras para fugir às perseguições promovidas pelo regime militar.
Baiano, descendente de escravos, negro e orgulhoso de suas origens, Santos sempre foi um referencial de sucesso e resistência de um representante dos grupos minoritários dentro do fechado universo científico e acadêmico. Tudo isso foi lembrado, em tom emocionado, nos discursos proferidos por parentes, amigos, colegas de trabalho.

Entre os pontos, a respeito da personalidade e da obra do Professor Santos, destacados como exemplares estão seu grande carisma e generosidade pessoal, além do seu rigor científico, e a grande erudição que ajudaram a confirmá-lo como o filósofo da geografia. Como bem recordaram seus alunos e colegas de profissão, tal rigor o fazia avesso aos modismos teóricos e aos elogios que recebia por sua obra, encarava ambos com a ironia e o deboche conhecidos por todos aqueles que tiveram a oportunidade de conhecer a intimidade de Milton Santos.

Encarando com verdadeira devoção as atividades de ensino e pesquisa, ele aplicava sua capacidade de indignação e suas armas intelectuais para denunciar as distorções que as tecnologias e a globalização estão impondo ao mundo atual.

Em seu discurso, o Prof. Dr. Francis Henrik Aubert, Diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, ressaltou que a perda de Milton Santos é inegável no nível da vida pessoal da FFLCH, mas que a perda acadêmica só aconteceria se a obra de Santos não fosse continuada de forma fiel, e que esta continuação deveria ser uma responsabilidade coletiva.


Fábio Gomes Pinto Rodrigues



BIBLIOGRAFIA

FALECEU, no dia 24 de junho, MILTON ALMEIDA DOS SANTOS. Era casado, dois filhos, nascido em 03 de maio de 1926, no Estado da Bahia, Brasil.

Publicou mais de 40 livros e 300 artigos em revistas científicas em português, francês, inglês e espanhol.


LIVROS

Organizador de diversos livros e números especiais de revistas científicas em português, francês e inglês. Fez pesquisas e conferências em diversos países, dentre os quais: Japão, México, Colômbia, Costa Rica, Índia, Argentina, Uruguai, Tunísia, Argélia, Costa do Marfim, Benin, Togo, Ghana, Panamá, Nicarágua, Espanha, Portugal, República Dominicana, Cuba, Estados Unidos, França, Tanzânia, Venezuela, Peru, Inglaterra e Suíça.


índice