20.MAIS QUE UM MESTRE, UM AMIGO

Autor(a) Desconhecido(a)

Eu tive a oportunidade de conhecer o professor Milton Santos na segunda metade da década de 1980 quando ele ainda não era a unanimidade dos últimos anos de sua vida. Como o Muro de Berlim ainda não havia desabado, muitos alunos e professores o consideravam "carreirista", ou seja, alguém preocupado apenas em fazer palestras e escrever anualmente um novo livro. O "bom" professor, naquela época, era aquele "engajado" nos movimentos sociais e que utilizava a sala de aula para fazer propaganda de partidos políticos. E o professor Milton Santos não compartilhava dessa "práxis". Ele até costumava ironizar os "engajados" e "militantes" alunos que esbanjavam nos discursos pedantes - quase sempre autoritários e fascistas - e se esqueciam que precisavam também fincar a bunda nas cadeiras da biblioteca e estudar.

Apesar de, durante a graduação, eu me encaixar mais no primeiro grupo, nós construímos uma boa relação afetual e eu me tornei seu aluno de iniciação científica no ano de 1989 ou 1990, não me lembro ao certo. Com aquela bolsa de iniciação científica fornecida pelo CNPq eu imaginava que finalmente teria um pouco de segurança econômica para poder estudar, porém, estávamos em um momento em que a bolsa costumava atrasar e muito, e às vezes ficávamos dois ou três meses sem receber um tostão.

Quando tentávamos conversar com o professor Milton Santos sobre isso ele nos dizia: "para que vocês querem dinheiro? para consumir?" Na verdade, agíamos com duplicidade. O atraso na bolsa era um álibi perfeito para esconder a nossa incompetência pelos relatórios sofríveis que escrevíamos.

Sua equipe de pesquisa era formada por uns três ou quatro alunos de iniciação científica, um de aperfeiçoamento e por seus mestrandos e doutorandos. Se não me engano, fora os mestrandos e doutorandos que já tinham um projeto próprio de pesquisa, os demais alunos estavam envolvidos em uma pesquisa do próprio professor Milton Santos sobre a modernização agro-industrial de São Paulo e ele definia quem iria estudar a agroindústria canavieira, a da laranja e assim por diante.

Com meu espírito espanhol e anarquista ou com a teimosia taurina, eu passei a defender a autonomia dentro do grupo e que cada aluno trabalhasse no seu próprio ritmo. O professor aceitou a minha proposta talvez para testar aquele jovem ingênuo.

Como nem sempre a autonomia é acompanhada pela responsabilidade o resultado no final do ano foi catastrófico: poucos alunos entregaram o relatório final dentro do prazo estabelecido e ele ficou furioso. Da última reunião que participei como membro da equipe me lembro perfeitamente da bronca que levamos e de suas palavras: "a partir do ano que vem será diferente. Eu digo o quê e como deve ser feito o trabalho. E quero que todos elaborem uma agenda semanal para me entregar colocando os dias e as horas dedicadas ao projeto. E quem não estiver contente com a mudança que saia!"

Como um jovem Prometeu egocêntrico, levantei as mãos e disse que não me sentia bem continuando na equipe já que a proposta de trabalho que não funcionou foi minha. É claro que eu falei aquilo esperando por uma outra resposta, algo mais ou menos assim: "Você não vai sair. Você é indispensável para a equipe!" Mas é claro que ele jamais falaria isso. Sua resposta foi seca: "tudo bem, pode ir embora!". A partir daquele momento não havia mais alternativas e me afastei da equipe de pesquisa. Eu não sei se ele implantou aquela linha dura que havia dito ou se tentava apenas intimidar aqueles jovens prepotentes e incompetentes.

O tempo foi passando e nossa amizade permaneceu intacta apesar desse "incidente". Assim, sempre que nos encontrávamos na faculdade ele me convidava para bater um papo em sua sala. Nosso último encontro foi no 2o semestre de 2000 quando eu estava coordenando um curso de Geografia em uma faculdade particular no interior do estado de São Paulo e aquele seria o último ano do curso. Como a procura era pequena, desde 1999 não havia mais vestibulares e, com a formação daquela última turma, o curso seria fechado definitivamente.

Nós estávamos em sua sala e ele estava muito abatido. Mesmo assim o convidei para fazer uma palestra na faculdade. Como os alunos foram obrigados a ler vários de seus livros, eu acreditava que a palestra poderia ser uma forma mais nobre de terminar um curso. Apesar da saúde bem debilitada, ele disse: "eu vou! mas é por você e pelos alunos..."

Depois de algumas digressões contra as faculdades particulares ele me pediu para agendar a data com a sua secretária e deixou claro também que não cobraria nada, mas que a faculdade deveria se responsabilizar pelas despesas de viagem. Eu peguei o telefone dela e disse que conversaria primeiro com a direção antes de marcar uma possível data. Lá chegando, apresentei a proposta do professor Milton Santos e ouvi a resposta mais óbvia possível. Ele deveria viajar por sua própria conta, guardando todas as notas de despesas para um posterior reembolso. O problema é que eu já havia vivido a mesma situação com uma amiga fotógrafa que lá foi expor. O reembolso das despesas para levar os quadros saiu três ou quatro meses depois. Resultado: eu fiquei com vergonha de falar isso para ele e nem me preocupei em ligar para a sua secretária. Possivelmente ele até aceitasse, mas a falta de consideração e o desrespeito por sua pessoa eram difíceis de engolir. Assim, deixei para lá a palestra e passei a esperar pelo último suspiro do curso para eu começar uma vida nova a partir de 2001.

Hoje, porém, se eu soubesse como terminaria essa fase de nossa amizade, eu teria insistido e realizado a palestra e diria, seguindo os seus passos: "em respeito aos alunos".

São Carlos, junho de 2001

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