31.NEGRO TAMBÉM É GENTE
Luis Iasbeck
No capítulo XI de sua obra " A Origem da Imoralidade no Brasil", curiosamente intitulado "Devassos no Paraíso", o sociólogo/antropólogo/pesquisador e cientista político Abelardo Romero relata e interpreta a natureza receptiva do povo brasileiro desde a chegada dos primeiros colonizadores europeus.
Esse livro – única edição, de 1967 – é, hoje, uma raridade. Publicado equivocadamente pela extinta Editora Conquista, do Rio de Janeiro, na singela e patriota coleção "Terra dos Papagaios" (com certeza o Conselho Editorial não leu o livro), a obra traz interessantes e gástricas observações sobre o Brasil pré-cabraliano, passando pela medicina indígena, pelas preferências nacionais ao ócio e ao ódio, desenvolvendo conceitos aparentemente desencontrados que irão se acertar quando o autor se dedica a falar sobre os preconceitos de raça no Brasil colônia.
"Índios" (tal como os portugueses denominavam os nativos, não conformados com a frustração de terem de desviado da rota das Índias) dóceis, índios antropófagos, mongóis, caucasianos, portugueses negróides, escravos africanos "de sangue branco", holandeses morenos e demais nativos "alóctones", constituíam a feliz e confusa população local, no relato dos colonizadores jesuítas, que aqui vieram servir – primeiramente - aos interesses de Portugal e - secundariamente – a Deus.
Os jesuítas foram os primeiros a afirmar – sabiamente - que por aqui não haveria de sobreviver qualquer "raça pura". Nossa civilização morena, mulata, híbrida e multirracial foi tomando corpo desde o século XVI, proporcionando interessantes e inusitados cruzamentos de crença, valores e hábitos. E foi essa a fórmula que nos proporcionou uma grande inversão de expectativas: os dominadores europeus tornaram-se reféns voluntários da população local.
Encantados com as maravilhas por aqui encontradas – tais como as índias popozudas - , os primeiros turistas sexuais da história do Brasil fizeram muitos filhos, montaram seus barracos e fincaram raízes na terra de Vera Cruz.
Enquanto isso, na outra América, a hispânica, os invasores eram recebidos a paus, fechas e pedras. Retribuíam com pólvora e baionetas. Houve resistência e insistência de ambos os lados. Muito sangue rolou. O genocídios promovido e patrocinado pelos Reis de Espanha custou aos nossos vizinhos andinos, por exemplo, os tristes hinos, a expressão melancólica e um irresistível dominação pelo pessimismo e pela fatalidade.
Assimilando raças, famílias e costumes estranhos, a dinâmica da civilização brasileira funcionou, durante muito tempo, como um liquidificador cultural. O poderoso texto de Irlemar Chiampi na introdução à obra de Lezama Lima "A Expressão Americana" (Brasiliense, 1988). traduz bem a síntese que resultou na identidade cultural de nosso povo: fomos fabricados sob o signo da mestiçagem, o que nos rendeu, durante muito tempo, um enorme complexo de inferioridade perante as louras civilizações européias e americanas lá de cima.
Se raça pura é sinônimo de competência e inteligência, os esquimós teriam dominado o mundo, ironiza Abelardo Romero. Algumas diferenças antropométricas responderam durante muito tempo, pela sensação de inferioridade que nos levou a assumir, com muita humildade, um lugar apenas superior ao antropóide e ao orango, nossos ancestrais filogenéticos.
Com o passar do tempo, a Colônia foi criando juízo, entendendo-se como nação, país, república, etc ... O estranho, o estrangeiro, o esquisito ... todos eram recebidos muito bem aqui na terrinha. A gente até fazia bonito " para inglês ver"! Só mesmo num lugar como esse poderia ter surgido o primeiro e mais definitivo fenômeno de globalização consensual: a abertura dos povos às nações "mui" amigas, em 1808.
Enquanto isso - e muito depois - , as selvagens guerras européias dizimavam – junto com as pestes – as alvas e rubras peles que cobriam os corpos dos puros franceses, ingleses, alemães, austro-húngaros, etc... O mesmo não podemos afirmar dos espanhóis e portugueses, salpicados pela tez morena de seus agressivos vizinhos norte-africanos.
Já os capitalistas da América de Cima foram formados por imigrantes europeus gananciosos, ávidos empreendedores e terríveis assassinos de peles-vermelhas. Diligentes, roubaram terras, extinguindo, pela força bruta e cavalar, as tímidas culturas locais. Tudo em nome do poder terreno e do poder de um deus velhaco que os levou, entre outras conseqüências, a criar o Blues e o Jazz.
Estamos no século XXI e a Universidade de Brasília, por iniciativa de alguns iluminados pesquisadores e líderes acadêmicos do curso de Antropologia, cujo mestrado mereceu recentemente a nota máxima (7) da CAPES (o que significa "excelência universal") propõe ao mundo brasileiro civilizado a atribuição de cotas-reservas nos bancos universitários aos estudantes de tez negra.
Em tempos de apagão, essa não foi uma iniciativa isolada. Já existem leis brasileiras, inspiradas em iluminados iluministas dos Países frios e desenvolvidos, que asseguram cotas de acesso especial – nas empresas e universidades - aos deficientes físicos e estrangeiros.
Não somos tão levianos a ponto de pensar ou insinuar que a segunda situação tem a ver com a primeira. Mas se não for por alguma analogia do gênero (de muito mau-gosto, por sinal), como explicar a proposta instituição dessa discriminadora (do verbo discriminar: ato ou efeito de distinguir, separar, discernir) medida no "seio" de uma sociedade mestiça, que aprendeu historicamente a conviver divertidamente com as diferenças? Ou será que os antropólogos brasilienses resolveram reescrever a história brasileira segundo a lógica da América de Cima e da Alemanha Nacional Socialista?
Temos de melhorar as provas vestibulares ou acabar definitivamente com elas? Com certeza! Temos de democratizar o ensino? Com certeza! Temos de criar condições de o povo ter acesso à Educação Básica, Fundamental e Superior? Não resta dúvida!!! Mas por que temos de dar acesso privilegiado aos estudantes de tez negra, como se fossem eles incompetentes para competir (ih!) em igualdade de condições com os demais brasileiros mestiços (uma vez que não existe brasileiro puro)?
Serão os nosso queridos negros incapazes de assumir postos sociais e politicamente relevantes, sem uma ajudazinha paternalista dos antropólogos da UnB?
O gênio baiano e liberal do conspícuo intelectual negro brasileiro, professor Doutor Milton Santos, recentemente falecido, deve ter sido substituído pelo fantasma abolicionista de Castro Alves, encarnado num imaginário viajante do túnel do tempo que por aqui desembarcou equivocadamente.
Nossa cultura não precisa de leis protecionistas para nos lembrar de que não estamos libertos do perigo do segregacionismo. Precisamos, sim, de leis que coíbam a ganância e a corrupção que campeiam em almas embasbacadas pelos "cases" de sucesso do primeiro mundo.
Necessitamos urgentemente que os antropólogos nota máxima da UnB nos orientem a assumir nossa riqueza híbrida e a termos orgulho de possuir, nas veias e na alma, a síndrome da tolerância ampliada para com as diferenças que nos fizeram brasileiros.
Não há porque cedermos às soluções de inspiração alienígena sem antes nos darmos conta das competências que desenvolvemos para viver uma outra democracia, ainda que sacana: aquele na qual as diferenças promovem, no abraço ou na porrada, não uma igualdade ou uma fraternidade de bandeiras desfraldadas, mas uma rodada adicional de cerveja num bar qualquer da esquina ao lado. Isso é, também, liberdade.
Cartola, Jackson do Pandeiro, Grande Otelo, Neguinho da Beija Flor, Zé Kéti, Gilberto Gil, Pixinguinha, Bezerra da Silva ... imaginem esses poderosos brasileiros negros-mestiços com lugar assegurado por lei, num banquinho de uma UnB, desenvolvendo teses sobre raça.... É muito menos do que eles merecem ... e muito mais cruel do que o povo brasileiro pode suportar.
Não ... não somos todos iguais. Gostamos da diferença e dela fazemos nosso valor. Lugar na universidade ainda será uma questão de competição, enquanto nossas lideranças políticas sentirem-se confortáveis com a impossibilidade fabricada de "vagas para todos".
Desse jeito, será que não daria para os antropólogos da UnB sugerirem uma singela lei que mude a destinação das verbas asseguradas aos bancos para investimentos na ampliação do número de vagas nas universidades federais .. vagas para todos ou, pelo menos, para muito mais?
Difícil? Talvez impossível enquanto formos indolentes diante da prepotência de nossos governantes e negligentes ao eleger coronéis e bacharéis para repartirem entre si o resultado de nossos tributos.
O buraco é mais embaixo. Nossas universidades podem e devem ser abertas a todos: negros, brancos, amarelos, pálidos, róseos, marrons, escarlates ... Não dá para recriar humanitários navios negreiros, relembrando-nos caridosamente (isso é que é pior) que negro também é gente.
Para brigar por isso é preciso estar acima dos preconceitos. É preciso ter força, é preciso ter garra, é preciso ter RAÇA.
SEMPRE!