32.MILTON SANTOS É CONVOCADO POR MARTA SUPLICY

 

Ele está com 74, obviamente aposentado, mas não para de trabalhar. Dá aulas na pós-graduação da USP, orienta estudantes, lidera um grupo de pesquisas que reúne vinte estudiosos e nos próximos dias lança o livro "O Brasil: território e sociedade no inicio do século 21", elaborado em parceria com Maria Laura Silveira e outros de seus alunos.

Como se ano bastasse, aceitou integrar a comissão que vai estudar os efeitos do processo de globalização e seu impacto na cidade de SP, certamente a convite da nova prefeita, Marta Suplicy.

A comissão deve trabalhar com total independência e sem qualquer compromisso com as idéias da administração municipal ou de seu partido.

Como o próprio Milton Santos dá claramente a entender, o papel da comissão "é pensar e exprimir com força esse pensamento".

O trabalho da comissão, segundo ele, terá dois aspectos principais: "A própria organização da cidade, como ela é, como é a situação, qual a sua relação com o processo de globalização, e a outra é a relação da cidade com a federação."

Ele explica ainda que trata-se de "um grupo de pessoas vindas de diferentes horizontes intelectuais", mas que "ainda não há nada a falar", pois "é um plano" a ser desenvolvido.

A propósito deste trabalho, o renomado geógrafo concedeu longa entrevista à jornalista Célia Chaim, da "Folha de SP", publicada nesta segunda-feira.

Selecionamos alguns trechos desta entrevista:

"Não há um mercado global e é por isso que também não há uma regulamentação global."

"A política deixou de ser feita por institutos, instituições, governos, e passou a ser feita por grandes empresas."

"São as grandes empresas que governam o território e os governos perdem a autonomia de decisão."

"O que parece existir no Brasil é uma educação em duas ou três velocidades diferentes: segundo o lugar que estou na sociedade, posso receber uma educação qualitativamente boa ou qualitativamente ruim, e aí as minhas oportunidades no mundo do conhecimento são condicionadas por essa formação."

"O Brasil nunca teve um cidadão brasileiro mesmo. Algumas pessoas recebem tratamento privilegiado e as outras são coisas."

"Essa formidável burocracia das Universidades, essa idéia de que a Universidade é uma instituição como qualquer outra, o que inclui até mesmo a sua associação com o mercado, tudo isso constitui uma atitude de dificuldade muito forte para a produção desse pensamento. Paralelamente, constitui um estímulo muito forte para quem decide resistir."

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