POBRES E OPRIMIDOS

A despeito de tudo, este quadro não retira o otimismo do grande geógrafo brasileiro. O caráter perverso e os efeitos destrutivos da globalização, segundo Milton Santos, irão gerando resistências crescentes dos "espaços banais" e horizontais em que se encontra a grande massa do povo, contra os espaços integrados, verticais e excludentes dos fluxos globalizados do dinheiro e da informação. É nestes espaços -onde se desenvolvem as cidades e as culturas populares- que, segundo ele, estão sendo tecidas as bases de uma nova utopia globalitária, que deverá ser cidadã e democrática: "Estamos convencidos de que a mudança histórica em perspectiva provirá de um movimento de baixo para cima, tendo como atores principais os países subdesenvolvidos e não os países ricos; os deserdados e os pobres e não os opulentos e outras classes obesas; o indivíduo liberado partícipe das novas massas e não o homem acorrentado; o pensamento livre e não o discurso único. Os pobres não se entregam e descobrem a cada dia formas inéditas de trabalho e de luta; a semente do entendimento já está plantada e o passo seguinte é o seu florescimento em atitudes de inconformidade e, talvez, rebeldia".(2)

O professor emérito da Universidade de São Paulo, USP, tinha como uma de suas convicções que os pobres, por conhecerem a "experiência da escassez", têm de ser necessariamente criativos para sobreviver. Por esse raciocínio, Milton Santos via nos excluídos os legítimos portadores da "visão do real e do futuro", pois sentem cotidianamente na pele as mazelas da globalização e do neoliberalismo. Identificava neles os protagonistas de uma grande virada nesse jogo e, no Brasil, país que ostenta uma das piores distribuições de renda do mundo, um palco privilegiado para a guinada. Não à toa, nutria grande simpatia por movimentos como o MST.(4)

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