UNIVERSIDADE

A Universidade é importante na medida em que é capaz de codificar e entregar à sociedade o discurso que as pessoas desejam, necessitam. É preciso produzir algo que seja crível, audível, utilizável e eficaz politicamente.(7)

Combativo, o geógrafo levou a sério sua missão de homem de idéias e encarou a atividade de professor com a importância que ela pode ter.(1)

Como seria bom se todos os acadêmicos e estudiosos brasileiros tivessem parte da dignidade e dos compromissos do professor Milton Santos. Mas, dá para entender, para chegar a ser como ele é preciso conhecer na pele seu povo.(4)

Milton diz, por exemplo, que na universidade, local por excelência do livre pensar, a pluralidade de idéias vem sendo substituída pelo pensamento único. Na opinião do geógrafo, o contexto atual não favorece a liberdade de pensamento. "Nesta fase de globalização, onde as coisas mais importantes são precedidas por um discurso ideológico, as idéias são apresentadas de forma confusa. Fica difícil criticá-las", diz. Ao explicar as causas do "enfraquecimento da universidade", surpreende. "Uma das razões de hoje existir a tendência ao pensamento único, está dentro da própria instituição de ensino". Para ele, a crescente burocratização instaurada na universidade, que submete professores à regras, cria obstáculos a produção de novas ideologias. O resultado é a profusão de letrados - sujeitos que, ao contrário dos intelectuais, são incapazes de ampliar e aplicar os conhecimento que possuem. A globalização também contribui, segundo o professor, para o aumento da violência. Sua idéia parte do princípio de que as pessoas sejam competitivas. Ao aceitarem a competição, elas são, naturalmente, estimuladas a ter um comportamento violento. "A regra vigente é a regra do resultado. Não existe ética nesse contexto".(6)

A universidade é o lugar de intelectuais, o sujeito que dedica todo o tempo a busca da verdade, e também de letrados. Você pode ser um bom professor e um pesquisador. Tem espaço para os dois na universidade. Mas, é verdade também que, embora ela esteja formando intelectuais, ela tem produzido em maior número letrados. O espaço universitário se define por ser o lugar do livre pensar, de criar idéias e discutí-las. Esse é sentido real da vida universitária. No entanto, acho que o clima atual não favorece a liberdade de pensar.(6)

O sistema universitário, no qual deveria prevalecer a diversidade de idéias, tem sido vítima da doença da globalização, isto é, a tendência a um pensamento único. E a universidade não tem defesa completa contra essa doença. Nesta fase de globalização, onde a realização hegemônica e as coisas mais importantes que são feitas são precedidas por um discurso ideológico, o trabalho de análise e crítica fica muito mais difícil. O aparelho do estado decidiu adotar, sem críticas, o processo globalitário e busca aplicar os princípios dessa globalização perversa na universidade.(6)

Nesse processo as realizações dependem da fabricação de idéias. A universidade, a fábrica de idéias por excelência, torna-se, então, um lugar estratégico. Só que para a produção da globalização. Em países onde há cidadania, uma idéia de democracia social e onde a vida intelectual tem mais densidade, é mais fácil a universidade resistir a essa tendência. Em lugares onde a idéia de cidadania e a preocupação com o bem estar das maiorias nunca existiu, como aqui no Brasil, a universidade se enfraqueceu. A burocracia também contribuiu para enfraquecê-la.(6)

É isso. A forma como as universidades estão sendo geridas atualmente é burocrática, amarrada a regras. Em cada departamento, que deveriam gerir as coisas e não as pessoas, vigoram leis, às quais os professores devem se submeter, e prêmios, concedidos àqueles que cumprem as regras. A cooptação é feroz. O resultado disso é a redução da autonomia intelectual do corpo docente e da capacidade de se fazer uma autocrítica. Os professores estão imobilizados. Cada vez que um colega passa para o lado da burocracia é um caminho sem volta. Eu costumo dizer que o "buroprofessor" é pior do que o burocrata simples. Isso porque ele detém o conhecimento. A burocracia dentro da universidade tem a tendência de dar mais importância aos meios do que aos fins, de privilegiar o resultado ao invés do conjunto. Isso a universidade não suporta. Ela é a única instituição que não suporta ser institucionalizada.(6)

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