
OS LUSÍADAS
- Luiz Vaz de Camões -
CANTO I
"As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram Novo Reino,
que tanto sublimaram;
E também as memórias gloriosas Daqueles Reis,
que foram dilatando A Fé, o Império,
e as terras viciosas De África e de Ásia andaram
devastando;
E aqueles, que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando;
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Cesse tudo o que a Musa antígua canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
Invocação às Ninfas do Tejo ..."
INDIFERENTE
(A.D)
Eu amava.
Amava-o loucamete
Mas ele de amor por mim nada sentia.
Quando triste a suspirar me via
Sorria desdenhoso e indiferente.
Como quem se aborrecia
Passava ele por mim ligeiramente e
nem adeus ao menos me dizia.
Mas o tempo passou e sem vê-lo
Procurei e até que enfim pude esquecê-lo
E hoje ...
Que já não sinto por ele mais paixão nem dores
Ele passa por mim a suspirar de amores
E eu passo por ele ...
Indiferente.
DEUS
- Casemiro de Abreu
-
Eu me lembro! eu me lembro! — Era pequeno
E brincava na praia; o mar bramia
E, erguendo o dorso altivo, sacudia
A branca escuma para o céu sereno.
E eu disse a minha mãe nesse momento:
“Que dura orquestra! Que furor insano!
Que pode haver maior do que o oceano,
Ou que seja mais forte do que o vento?!”
— Minha mãe a sorrir olhou pr'os céus
E respondeu: — “ Um Ser que nós não vemos
É maior do que o mar que nós tememos,
Mais forte que o tufão! meu filho, é — Deus!”—
SER POETA
- Florbela Espanca -
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

PEGUE
- Mahatma Gandhi -
Pegue seu "sorriso"
E presenteie a quem nunca teve um.
Descubra uma "fonte"
e banhe quem vive na lama.
Use sua "valentia"
Para dar força e ânimo a quem não sabe lutar.
Tenha "esperança"
E viva em sua luz.
Descubra o "amor"
E passe a conhecer o mundo.
Pegue um "raio de sol"
E faça-o brilhar onde reina a escuridão.
Pegue uma "lágrima"
E ponha-a no rosto de quem nunca chorou.
Descubra a "vida"
E ensine-a a quem não sabe entendê-la.
Pegue sua "bondade"
E dê-a a quem não sabe dar!

NOSSO MEDO
- Nelson Mandela -
Nosso medo mais profundo
não é o de sermos inadequados.
Nosso medo mais profundo
é que somos poderosos além de qualquer medida.
É a nossa luz, não as nossas trevas,
o que mais nos apavora.
Nós nos perguntamos:
Quem sou eu para ser Brilhante,
Maravilhoso, Talentoso e Fabuloso?
Na realidade, quem é você para não ser?
Você é filho do Universo.
Você se fazer de pequeno não ajuda o mundo.
Não há iluminação em se encolher,
para que os outros não se sintam inseguros
quando estão perto de você.
Nascemos para manifestar
a glória do Universo que está dentro de nós.
Não está apenas em um de nós: está em todos nós.
E conforme deixamos nossa própria luz brilhar,
inconscientemente damos às outras pessoas
permissão para fazer o mesmo.
E conforme nos libertamos do nosso medo,
nossa presença, automaticamente, libera os outros.
SONETO DA
SEPARAÇÃO
- Vinícius de Moraes -
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
OS POEMAS
- Mário Quintana -
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti ...
MOTIVO
- Cecília Meireles -
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
DANÇANDO
PELA VIDA
- Silvana Duboc -
É, eu andei dançando pela vida
Foram tantos os passos que aprendi
Tantos os pares que eu escolhi
Tantos os ritmos que me levaram
Tantas as músicas que me embalaram
Dancei valsas
Deslizei lentamente
Num passo doce e envolvente
Bailei ao som do tango
Sensual e ardente
Me recordo quando o samba tocou
Aquele som me contagiou
Desfilei pela avenida
Como se fosse o destaque da vida
Depois veio o bolero
E escolhi um par sincero
Quando chegou o funk...
Que ritmo dançante!
Saí pelas pistas alucinada
E em seguida
Rodopiei na lambada
Me entreguei
Quando me achei
Num corpo de ballet me encaixei
Tive centenas de pares
De especiais a vulgares
Dancei um milhão de ritmos
E sempre gostei disso
Até, que em meio a uma música suave
Você me convidou
Aceitei e aqui estou
Virei cinderela
Colorida como aquarela
Você, meu príncipe encantado
Pedido e esperado
Me tornei também a Bela
E não importa se você é a Fera
Me leve na direção que quiser
Da forma que você souber
Nos seus braços
Não me interessa o ritmo
Não existe cansaço
Não tem baile que termine
Nem orquestra que não se ilumine
Me leve por todos os cantos do salão
Me carregue ao centro dele com emoção
E quando a música acabar
Pediremos bis
Pra que ela possa recomeçar
E eu e você, dançando pela vida
Possamos continuar.

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