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Provável aspecto de Cartago na época do Cisma
Paulo Avelino
http://www.oocities.org/br/melquita
A última grande perseguição
aos cristãos aconteceu sob o Imperador Diocleciano. Como é natural alguns
dos perseguidos se comportaram bravamente, outros se acovardaram. Isso gerou
mágoas que estão na raiz do cisma.
A
perseguição já havia então amenizado quando morreu Mensúrio, bispo de
Cartago, no ano 311 d.C. A diocese de Cartago era a segunda em grau e rendas
entre todas as sedes episcopais do Ocidente, atrás apenas de Roma. Seu bispo
era o primaz do norte da África.
O povo de Cartago em assembléia escolheu um prelado por nome Ceciliano para seu bispo. Porém um grupo de sacerdotes da cidade não aceitou a decisão. Ceciliano tinha inimigos poderosos, como uma mulher chamada Lucila, muito rica, com quem Ceciliano tinha uma velha rusga por ela beijara relíquias de pessoas que não eram consideradas oficialmente mártires da Igreja pela hierarquia. Esse grupo dissidente se reuniu e acusou Ceciliano de ter entregue escritos sagrados aos pagãos durante a perseguição. Elegeram um parente de Lucila, Majorino, como bispo de Cartago. A divisão se espalhou e logo no norte da África muitas dioceses
Quando Constantino
derrotou Maxêncio em 28 de outubro de 312 e se tornou senhora da África,
encontrou-a toda dividida. Muitas dioceses tinham dois bispos, cada um fiel a um
dos dois grupos. Um grupo de bispos convidou Ceciliano para impor-lhe as mãos,
com a intenção de não só impor-lhe as mãos mas quebrar seu pescoço.
Ceciliano não aceitou o convite. (A imposição de mãos é a forma tradicional
de sagração de um noivo bispo, usada até hoje).
A igreja da África estava
por demais dividida para emitir um veredito imparcial. Assim os julgamentos
aconteceram fora de lá, em Roma, em Arles, e mais três outros tribunais, todos
dando ganho de causa ao grupo de Ceciliano, que foi considerado o verdadeiro
grupo católico. O Imperador Constantino exilou os líderes donatistas e ordenou
que as igrejas por eles ocupadas fossem entregues ao outro grupo.
Mas o cisma continuava,
resistindo aos concílios de Arles e Roma, e ao poder civil. Em parte a
continuidade refletia o carisma de uma nova liderança, Donato de Casae Nigrae,
chamado O Grande, que sucedera Majorino quando este faleceu. Seus escritos foram
perdidos. Mas parece que sua eloqüência e força de vontade empolgavam as
pessoas e impediam qualquer rendição. Até mesmo Santo Agostinho se enfureceu
contra sua arrogância e a quase adoração que inspirava aos seus seguidores.
Depois de sua morte as pessoas lhe pediam milagres.
Ao ver que o tempo passava
e sua política de apoio total a Ceciliano não trazia a paz ao seu Império,
Constantino relaxou sua política em 321 e pediu tolerância ao partido de
Ceciliano. Em certa cidade os donatistas ocuparam uma basílica. A solução do
imperador foi construir outra.
Os donatistas recusavam
obediência aos outros, negando seus poderes espirituais. Excomungaram o resto
da Humanidade. Declararam que a sucessão apostólica tinha sido quebrada e que
todos os bispos da Europa e da Ásia eram cismáticos. A fé cristã estaria
agora apenas neles mesmos.
Quando convertiam alguém,
os donatistas o rebatizavam, pois não viam validade no batismo dos outros. Até
bispos, mulheres e crianças deviam fazer uma penitência pública antes de
serem aceitos. Se alguém da outra facção entrasse em uma de suas igrejas eles
o expulsavam e lavavam com sal o chão onde pisara. Ao se apossarem de uma
igreja lavavam o chão, raspavam as paredes, queimavam o altar (geralmente de
madeira), fundiam o metal dos objetos sagrados e jogavam as hóstias para os
cachorros.
O ponto máximo do
radicalismo foi o surgimento dos Agonistas, ou Circunceliões, bandos de
briguentos que circulavam sem rumo pelo norte da África fazendo violências
contra os não-donatistas. O primeiro nome é o que eles davam a si mesmos (de
Agon = luta), e o segundo era o que os seus inimigos lhe conferiram (de “circum
cellas euntes”, por que sempre estavam em torno dos camponeses). Não
tinham ocupação. Atacavam gritando Deo
Laudes! (louvai ao Senhor). Como Cristo disse a Pedro para manter a espada
na bainha, eles não usavam espadas. Preferiam porretes. Davam porretadas na vítima
sem matá-la e a deixavam lá. Se morresse depois presumivelmente consideravam
que não era mais com eles. Jogavam suco de limão e vinagre nos olhos dos
padres. Protegiam os que tinham dívidas. Gostavam de atacar nas estradas.
Quando encontravam uma carruagem punham os escravos dentro da carruagem e
obrigavam os senhores a puxá-la.
Os circunceliões freqüentemente
buscavam a morte. O suicídio contava como martírio. Um circuncelião que
anunciava que queria ser mártir era bem tratado pelos outros, que davam a ele
muita comida, como acontece com os animais que vão para o sacrifício. Seu meio
preferido era se jogar de precipícios. Era um método particularmente popular
entre as mulheres. Também se jogavam na água para se afogar, e no fogo. Outras
maneiras eram provocar juízes e induzi-los a condená-los à morte, e
comparecer a cerimônias pagãs para serem martirizados. Presumivelmente quando
tudo isso falhava pagavam um homem para matá-los. Ou capturavam alguém numa
estrada e ofereciam a ele a alternativa de matá-los ou morrer.
Essa história é relatada
em duas fontes, inclusive Santo Agostinho, por isso deve ser real. Um rapaz foi
capturado por um grupo de gordos circunceliões. Já explicamos a razão de sua
gordura. Eles lhe deram uma espada, com uma alternativa: ou os matava, ou eles o
matariam. O rapaz respondeu que temia que, quando tivesse matado alguns deles,
os outros mudassem de idéia e quisessem vingar seus companheiros mortos. Exigiu
que eles se amarrassem para que isso não acontecesse. Eles se amarraram. O
rapaz com suas mãos deu-lhes umas pancadas de castigo, foi embora e não matou
ninguém.
Previsivelmente os próprios
bispos donatistas passaram a temer os circunceliões e chamaram a repressão,
que foi terrível. Durante anos eles foram venerados como mártires. Que, creio,
é o que queriam.
Os donatistas chegaram a ter
quatrocentos bispos e superioridade numérica em algumas regiões da África.
Foram enfraquecidos por divisões internas. A seita dos Rogacianos afirmava que
quando Cristo voltasse à terra só encontraria sua verdadeira religião em
algumas vilas sem nome da Mauritânia Cesaréia. Só terminou com a virtual
extinção do cristianismo naquele região com a invasão sarracena.
Pouco depois começou um
conflito muito mais importante, a heresia ariana, nos patriarcados do hoje
chamado Oriente Médio. Houve contato entre os dois grupos dissidentes mas os
Donatistas não aderiram ao arianismo. Considerando-se o trabalho que cada um
desses grupos deu isoladamente, pode-se especular que no que poderia ter
acontecido se tivessem juntado suas forças.
Teologicamente o cisma
donatista levantou a questão de se um sacramento, no caso o batismo, depende do
valor de quem o ministra. Pois os donatistas negavam a validade do batismo dado
pelos outros, pois seriam indignos. O catolicismo a partir daí adotou a posição
de que o sacramento independe do valor individual de quem o ministra.

Santo Agostinho combateu os Donatistas
Notas e leituras adicionais:
GIBBON,
Edward. Decline and fall of the Roman Empire. 29a reimpressão. Chicago:
The Encyclopaedia Britannica, 1987. Coleção “Great Books of the Western
World”. Pgs. 305-307, 766-767. 900p.
“Donatists”.
The Catholic Encyclopaedia. http://www.newadvent.org/cathen/05121a.htm.
(03 dez 2003).
“Agonistici”.
The Catholic Encyclopaedia. http://www.newadvent.org/cathen/01223a.htm.
(03 dez 2003).