A Noite do Cão
Foi no final da década de setenta, durante uma madrugada gélida (fato comum
aqui no Rio Grande do Sul), que esse fato ocorreu comigo.
Na época eu era funcionário do Estado e algumas vezes permanecia trabalhando
durante a noite inteira. Numa dessas noites, um colega que havia terminado sua
jornada solicitou uma carona até em casa. Ele residia num bairro distante do
local onde ficava localizada a repartição. Quando retornei já era madrugada
alta, fui colocar o veículo num estacionamento onde os lugares eram demarcados.
O tal estacionamento ficava localizado num vasto terreno circundado por uma
cerca de zinco. Internamente ele possuía como divisor físico um tapume de
madeira, separando assim duas áreas, o estacionamento( onde eu estava) e uma
outra utilizada para serviços diversos. O tapume de madeira não cobria todo o
espaço, ficando a uns trinta centímetros do solo, assim, quem estivesse no
estacionamento poderia ver os pés de quem estava no outro lado e vice e versa.
Desliguei o motor do carro e desci. Tão logo iniciei o meu caminho até a saída,
senti nitidamente que estava sendo observado. Na parte que eu havia deixado o
carro a lâmpada do poste estava queimada, seria preciso avançar mais trinta
metros para atingir uma outra parte iluminada do terreno. Instintivamente olhei
para o tapume divisório, percebendo que alguém caminhava no mesmo sentido, porém
do lado oposto. Estranhei a "companhia" , pelo certo não deveria ter ninguém na
área desativada pelo horário tardio. Intrigado e já ficando nervoso, diminui a
minha passada, esperando que o visitante cruzasse pelo poste iluminado antes de
mim, para que eu pudesse saber "de quem se tratava". Quando estanquei a passada
"ele" estancou também do outro lado. Reiniciei a andar, mas confesso que agora
já estava ficando perturbado pelo acompanhamento anônimo. Na parte central do
estacionamento o tapume sofria uma solução de continuidade. Casualmente nesse
vão existente, a iluminação era razoavelmente boa, ali certamente eu veria o
intruso de corpo inteiro. Conforme fomos "nos" aproximando na luz, percebi de
soslaio (eu não voltava a cabeça diretamente, apenas espiava, pois "ele" tinha o
cuidado de caminhar dois passos atrás, ou seja, nunca ficamos lado a lado,
parecia me espreitar) que não eram pés humanos e sim patas de um animal canino.
Estranhei o comportamento daquele bicho, parecia racional demais, não se
apresentava em minha frente nunca, caminhava silenciosamente, se ocultando nas
sombras e quase no mesmo ritmo do meu passo. Finalmente cheguei no ponto mais
iluminado onde existia o vão no tapume Virei o pescoço e fiquei aguardando "ele"
surgir... A primeira coisa que vi realmente foram dois olhos faiscantes em minha
direção. Sei que os olhos dos caninos e felinos brilham na noite, mas "aqueles"
brilhavam com uma intensidade perturbadora. Senti um frio correr pela espinha e
uma sensação desconfortável de medo. Era um cão incrivelmente negro, grande sem
ser descomunal, os olhos faiscantes ficavam "colados" em mim o tempo inteiro,
parecia adivinhar meu pensamento. Ficou me acompanhando pelo outro lado do
tapume (uns cinco metros) e mesmo com o vão existente que possibilitava a
entrada dele no estacionamento ele não o fez, continuou "me escoltando", sempre
alguns passos atrás, quando eu olhava em sua direção ficava ofuscado pelo
intenso brilho daqueles olhos impressionantes. Mesmo quando saí do
estacionamento e atravessei uma rua em direção do meu local de trabalho não tive
coragem de olhar para trás, pois "sentia" ainda seus olhos sobre mim. Depois
daquela noite, fiquei pensando sobre o caso, naquelas cercanias não havia
residência alguma e tantas vezes eu já estivera naquele local sem ver nada, de
onde teria surgido aquele cão negro de comportamento tão intrigante?
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Newton Nascimento - RS - Porto Alegre