Visão na estrada
Aconteceu quando eu tinha uns oito anos.
Naquela época, minha mãe freqüentava um terreiro na antiga cidade em que
morávamos. Como nos mudamos de lá, sempre tínhamos que fazer uma pequena viagem
de uma hora até nosso destino e sempre viajávamos à noite porque era mais
tranqüilo (pelo menos era o que ela dizia pra mim). Como não tinha carro, ela
sempre pedia que alguém nos levasse (sim, nós, pois ela nunca gostou de me
deixar sozinha mesmo que fosse com meus avós e eu também nunca gostei e como ela
havia se divorciado do meu pai há dois anos...).
Daquela vez foi um amigo dela quem se prestou ao "serviço". Fomos de madrugada,
lá pela uma hora da manhã (era esse o horário que começavam os trabalhos).
Chegamos bem, como de costume. Eu adorava. Depois dos trabalhos, sempre tinha
uma festa (era assim que eu chamava). Comemos, bebemos e cantamos. Na hora de
voltar, lembro-me vagamente ter visto minha mãe conversando com a dona do lugar.
Nada ouvi. Era uma criança e estava com muito sono. Voltamos pela mesma estrada,
mas não no horário de sempre. Por algum motivo mamãe quis voltar quando ainda
estava escuro e não de manhã cedo como de costume. A noite estava calma,
tipicamente de cidades interioranas, e não havia uma pessoa sequer nas ruas. Eu
dormia encostada em minha mãe ouvindo vez ou outra a conversa que ela mantinha
com seu amigo para não pegar no sono. Acordei de repente quando chegamos à
entrada da cidade e vi a estrada totalmente escura; somente a luz dos faróis
iluminando o chão, então falei algo com mamãe, que não me lembro agora, e voltei
a olhar para a estrada. Como que por encanto, mamãe, o amigo dela e eu vimos
dezenas de bois brancos, dezenas mesmo, que apareceram do nada e cobriam toda a
pista e estavam a poucos metros de nós! Não deu nem tempo de frear a enorme
Pick-up em que estávamos, então tio Zé (esse é o nome dele) jogou o carro que
quase capotou para o meio do mato e batemos em uma árvore. Por bem, não nos
ferimos, mas quando olhamos não havia nada lá, nada. Nunca mais voltamos ao
terreiro, pois ali, naquela noite, descobrimos que não precisávamos mais voltar
lá.
Larissa