Será que era o chupa-cabra?
O ano era 1969, e eu era uma garota de 10 anos contente em ir visitar a minha
família com a minha tia favorita (Tia Rute) no interior de Minas Gerais. Era a
minha primeira viajem para longe de casa e só de pensar em estar em um avião já
me deixava empolgada. Nós íamos visitar muitos parentes e eu mal podia esperar.
A viajem de avião foi ótima, e eu fiquei com o assento da janela. Nós pousamos e
fomos recebidos pelos meus tios, tias e primos. Nós íamos ficar na casa da minha
tia Lúcia, que morava no campo. Eu me lembro de pensar como tudo era lindo da
janela do carro. Estava quente, o sol estava radiante, tudo estava muito
colorido. Muitas árvores e muitas flores. O ar era fresco, as pessoas na rua
estavam sorrindo e eu estava feliz.
Depois de cerca de uma hora e meia no carro, chegamos na casa da minha tia
Lúcia. O carro parou e eu fiquei um pouco confusa, por que eu não estava vendo
casa nenhuma. Nós saímos do carro, a minha tia Rute estava segurando a minha mão
e nós estávamos andando. Então ela parou e eu vi onde estava a casa. Eu senti
aquele medo e uma certa apreensão tomar conta de mim. Cada célula do meu corpo
começou a reagir e parecia querer sair dali e a voz dentro da minha cabeça só
ficava repetindo "ai meu Deus, por favor não!" Não sei como, mas eu sentia que
alguma coisa maléfica espreitando por aquele lugar.
A casa da minha tia Lúcia ficava em um desnível no chão. Ela literalmente ficava
dentro de um buraco!!! Você tinha que descer uma escada para chegar nela. A
parte da frente e um dos lados era uma encosta, enquanto que a parte de trás
tinha um pequeno quintal e logo após o quintal, havia uma floresta escura, mesmo
sob a luz do dia. O que da casa não estava cercada pelas paredes da encosta,
estava cercada por aquela floresta escura! Era algo bem diferente do que eu
esperava. Eu achava que ia ver uma casa numa colina com o sol ao fundo, ou uma
casa perto de um riacho com uma cachoeira por perto, ou do lado de um pasto
cheio de vacas e cavalos. Eu não estava preparada para o que eu tinha visto, e
eu sentia o meu coração apertar quando a minha tia Rute começou a andar na
direção da casa e a me puxar para ir junto dela.
Apesar do lado de fora da casa ter me aterrorizado, o interior dela era bem
aconchegante. Enquanto a minha tia Rute se instalava e botava a conversa em dia
com o resto da família, eu fiz amizade com o meu primo, Ernano. Ele parecia não
se importar em brincar com uma garota, então ficamos junto o tempo todo. Depois
de um tempo todos foram para as suas próprias casas. O tempo todo que eu estava
lá dentro da casa, eu não conseguia me distrair daquela sensação de incômodo, e
apesar do dia estar quente, estava frio naquela vala onde ficava a casa.
A noite começou a cair, e com ela todos os tipos de sons que se ouve no campo.
Grilos, corujas, sapos, etc. Sendo uma garota da cidade, eu nunca tinha ouvido
algo como aquilo, e isso tudo só ajudava a aumentar a minha inquietação e o medo
que eu sentia por aquele lugar. Eu sentia como se alguma coisa se aproximasse,
enquanto a escuridão nos envolvia aos poucos. O meu primo Ernano me falou sobre
uma antiga casinha que tinha no fundo da casa, na floresta, no meio do mato e
das árvores, onde era escuro. Ele falou que estava lá a muito tempo, que era
muito antiga (depois eu descobri que estava lá desde antes de 1850!). Parece que
aquele terreno sempre pertenceu à minha família. Ele falou que a minha tia Lúcia
tinha proibido ele de chegar perto daquela casinha. Ele falou que sempre quis
saber o que tinha demais ir para lá, ele sempre teve curiosidade de ver o que
tinha de tão proibido lá. Então ele me mostrou uma lanterna e me implorou que
fosse com ele até o matagal onde começava a floresta. Eu estava aterrorizada com
a idéia de ir lá fora, mas não queria parecer uma garotinha assustada, então eu
concordei com ele. Nós seguramos as mãos uns dos outros e fomos na direção do
fundo da casa. Estava tão escuro e as minhas pernas estavam literalmente
tremendo. Nós andamos bastante e então o Ernano iluminou a floresta à nossa
direita com a lanterna e falou que a casinha estava perto. Eu mal conseguia ver
ela. Era um bloco cinza de cimento com uma abertura na frente. Parecia um
túmulo. Foi então que eu ouvi uma risada rouca sinistra à nossa esquerda. O
Ernano iluminou a área de onde o som veio, e lá estava a coisa mais grotesca e
horrenda que eu já tinha visto na minha vida. Era uma coisa pequena, não tinha
mais que um metro. Tinha uma pele marrom esverdeada parecendo estar meio
ressecada, com grandes olhos vermelhos, e uma boca enorme com caninos feitos os
de um cachorro. Tinham dois montes na cabeça que lembravam chifres um pouco, mas
estavam mais para dois galos enormes, como se ele tivesse batido a cabeça. Ele
ficou ali parado, com a mão esquerda agarrando uma árvore, enquanto a mão
direita nos chamava para chegar mais perto. Então ele pulou para a escuridão e
sumiu rindo. Eu estava em estado de choque e não conseguia me mover, e então nós
ouvimos outra risada igual, vindo de outra direção. Então vimos outra criatura
igual àquela na porta da casinha, também fazendo movimentos com a mão para que
chegássemos mais perto, enquanto soltava aquela risada debochada. O Ernano
soltou um grito, apertou firme a minha mão e saiu correndo, me puxando junto
pelo caminho de onde viemos. Então eu comecei a gritar também, o mais alto que
eu podia.
A minha tia Lúcia nos encontrou na metade do caminho, segurando uma lâmpada de
querosene. Ele gritou para nós irmos para dentro de casa e não dar um pio. Nós
quase quebramos a porta enquanto entrávamos em casa. Eu estava chorando
histericamente, enquanto o Ernano não parava de gritar. A tia Lúcia entrou um
pouco depois de nós, e nos deu uma bronca por termos ido lá fora. Enquanto isso
a tia Rute fechava nervosamente as janelas e as cortinas. Então a tia Lúcia
pegou um frasco com água benta e começou a jogar pela casa. Ela falou para nós
ficarmos sentados na sala e quietos, que tudo ficaria bem. Essa foi a noite mais
longa e aterrorizante da minha vida toda. Por toda a noite nós ouvimos aquela
gargalhada rouca e sinistra vindo do lado de fora da casa, de todos os lados. As
janelas eram arranhadas e havia batinas na porta da frente constantemente. As
minhas tias rezaram a noite toda.
Na manhã seguinte a minha tia Rute me levou para a casa de outro parente e foi
lá que nós ficamos as duas semanas seguintes. Eu nunca mais voltei para a casa
da tia Lúcia, e ninguém nunca me explicou nada sobre o que aconteceu.
Agora eu já sou uma mulher crescida e a alguns anos atrás, algumas histórias
apareceram na mídia sobre uma criatura que estava ligada à morte de alguns
animais que amanheciam completamente sem sangue nenhum no corpo e com furos no
pescoço. Eles deram o nome dessa criatura de chupa-cabras. O meu sangue gelou
quando eu vi um desenho da criatura. A minha memória me levou de volta àquela
noite na casa da minha tia Lúcia. Eu sei o que eu vi, e as semelhanças não eram
coincidências. Será que naquele noite eu tinha visto o chupa-cabras?
Marlene - SP - São Paulo