CRÔNICAS
José Alexandre Ramos


A(s) Vontade(s) de Deus
José Alexandre Ramos

Custa-me entender os desígnios da Igreja Católica. Embora seja um leigo, e de poucas bases me sirva para escrever o que pretendo, há coisas dentro do catolicismo que realmente não encaixam numa filosofia tal qual eles (os católicos) dizem ser ensinamento de Jesus Cristo. E para isso basta pegar no exemplo do casamento versus divórcio, não esquecendo que na moral e nos dogmas católicos existem outros imensos exemplos, uns mais graves que outros com diferentes graus de consequências para o indivíduo que crê.

Duas pessoas, homem e mulher, conhecem-se, enamoram-se, querem juntar os seus trapinhos porque chegaram a uma altura em que isso parece tornar-se irreversível no seu desejo (embora por detrás já espreitam os perigos e os riscos de tal decisão). Eu diria, e penso que muitos também o dirão, foi a vontade do casal: vamos casar. Opta-se por celebrar o matrimónio católico: há casos em que para um dos noivos tanto lhe faz, mas porque a outra parte até é crente e praticante o suficiente, respeita-se a sua posição e faz-se esse agrado, embora não descure que essa decisão de agradar a(o) noiva(o) traz-lhe também responsabilidades, no mínimo, sociais, já que não olha a vertente religiosa com toda a seriedade. E este tipo de pacto pode ser feito não só entre agnósticos e/ou ateus com católicos, mas entre pessoas de fé diferentes – trata-se de chegar a um consenso. Até aqui tudo muito bem.

Os passos do ritual romano, no que concerne ao matrimónio, já são algo batido: fomos a casamentos de familiares e amigos, e as séries de televisão e os filmes estão repletos deles… A cerimónia e as palavras do padre que casa já todos sabem mais ou menos de cor, com algumas diferenças regionais… Eu diria que se tornou banal. Em instantes finais da cerimónia algo se diz que se enleva de muita importância para os crentes: “Não separe o homem o que Deus uniu”. Comecemos por aqui.

O homem quis e Deus veio a unir – veio, através do seu ministro sacerdotal, abençoar a vontade do casal que quer constituir família. Então, foi também a vontade de Deus… já que é omnipresente, omnipotente e nos dita a todos nós. Sim, o livre arbítrio do homem sobre o seu destino… não me esquece disso… O casal cumpre o que prometeu diante do altar de Deus e este sorrir-lhe-à sempre (este, ou seja, o deus católico), até que a morte os separe, que é como quem diz, até Deus, dono da vida e da morte, o decidir. No entanto eu quero ir mais longe: não será este Deus responsável pela união deste casal desde o primeiro olhar? Se concordamos que Ele é senhor do universo e de todas as coisas vivas, é senhor também de todos os destinos, de toda a história do homem, direi mesmo… ou não será assim?

Na minha modesta opinião, é. Se é Deus, é Deus em tudo. Pois então, este casal, ao fim de alguns anos, não vive feliz, é atormentado com factores externos, não encontra um consenso para se manterem juntos, talvez tenham amadurecido entretanto e chegado à conclusão que afinal o casamento foi um erro, e não se gostam o suficiente para cumprirem uma vida inteira juntos, consoante o conceito de família da Santa Igreja Católica. Separam-se, e depois de uma bem ponderada decisão, divorciam-se. Esta já não será a vontade de Deus, porque assume-se que foi o homem que interrompeu a união abençoada. Pergunto eu, argumentado com a sabedoria popular: não escreve Deus por linhas tortas? O que interessa a Deus, pelo menos ao Deus de amor que Jesus ensinou e vem nos evangelhos: interessa-lhe que o seu rebanho seja feliz ou infeliz? No exemplo dado tanto ele como ela não viviam felizes, e se permanecessem juntos, tudo indicaria que o casamento deixaria de existir, surgiria o adultério talvez de ambas as partes, ou, consoante a educação, ficaria um a sofrer os recalcamentos enquanto o outro se virava. Isto acontece, infelizmente, na nossa sociedade, e na segunda hipótese dada, muitas vezes por imperativos morais advindos da educação católica.

Assim como a sociedade tenta encontrar soluções para casais com problemas, através de terapias, em grupo ou individualizadas, a própria Igreja devia accionar, através dos seus próprios meios, mecanismos próprios para ajudar casais em risco de separação e divórcio. Em vez disso, ergue o dedinho secular acusatório e faz penar psicologicamente os crentes, que em alguns casos alimentam um complexo de culpa tal que resulta numa subestima, já para não falar nos casos extremos – depressão, suicídio, etc. O único apoio que poderão encontrar é no seio da comunidade paroquial e do padre responsável que sabemos nem sempre tem qualificações técnicas e, muitas das vezes, humanas.

A vontade de Deus na separação do casal é tão legítima quanto quando se diz que é a Sua vontade se morre alguém. Se realmente Deus permite e faz, o divórcio não é excepção. Deus quis unir um casal a dado momento e abençoou a união, mas se o casal não vive de amor e não é feliz, é aberrante pensar que Deus não quer a sua separação, penando-o até ao fim. Não sei se é Deus que o faz, mas a Igreja Católica, sem dúvida! Se o crente se divorciou, nada lhe adianta, aos olhos da Igreja continua casado com a pessoa com quem era infeliz; se quer voltar a casar, pode fazê-lo no civil, mas jamais pela Igreja (trazendo desilusão ao futuro cônjuge que, sendo também crente e não resistindo à natureza da paixão e do amor, deixa para trás o concretizar de mais um sacramento porque o outro é divorciado, ou melhor, já casado pela Igreja, o que coloca a ele ou ela na posição de amante!). Pior ainda: se este casal tem filhos, a Igreja considera-os como filhos bastardos, ilegítimos. E ficam proibidos de apadrinhar em baptismos, porque já não são puros. Isto para mim é autêntica anedota e é rumar no sentido contrário dos ensinamentos de Jesus. Ele que chamou a si uma prostituta, defendendo-a da hipocrisia apedrejadora. Esta mesma hipocrisia, velha e podre, vive ainda no seio desta Igreja Católica.

Se não fosse agnóstico, diria que a vontade de Deus seria aniquilar esta Igreja que ao longo de tantos séculos da história da civilização ocidental só lhe tem denegrido a imagem… E o velhinho vestido de branco, irradiando na alvura das vestes e na expressão de santo acenos de paz ao mundo, se fosse assim tão beato já teria instruído os seus espalhados rebanhos a tomarem novas posições mais humanas, porque o catolicismo cada vez mais perde fieis, e a maioria que se diz católica, não pratica. Enfim, se calhar é coisa de mentalidade dentro do próprio Vaticano, ou de um conformismo de ficar sentado confortavelmente num trono de um poder cuja ocupação é indiscutível…

(02 de Novembro de 2002)

 

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