Para um Santo Natal
Ligaram a televisão num daqueles programas ridículos de variedades, em
o que varia são os nomes dos artistas
- Vanessa, Xuxas e Picadelas, Maria Cândida, Os Anfitrões, o Grande
Mágico Godofredo, e o conceituado humorista Ferdinando
e aquilo que fazem é sempre a mesma coisa, cantando melodias melosas
de amores traídos ou sucedâneos de amor à mãe e ao pai e aos filhos, e
às estrelas que há no céu, o mágico atrapalhadíssimo com o monte de
lenços que lhe sai da algibeira mais o comediante com piadas soltas
sobre personagens da política e da tv, enquanto eu, e outros como eu,
estendidos sobre camas articuladas, entubados pelas veias e pelo
nariz, com um olhar como que pedindo
- Alguém desliga a televisão?
e no entanto,
- Senhoras e senhores convosco a cantora Vanessa
e salta para o palco inundado de cor e luz uma rapariga com as coxas
quase nuas, um enorme decote ao peito, e nisto uma máquina apita, há
um corrupio de batas brancas e amarelas, ordens para aqui e acolá, as
enfermeiras tontas
- O doente da cama trinta e um
correndo na vã intenção de salvar o velho que agoniza com a cantora
Vanessa; e momentos depois um lençol sobre o rosto do velho, as
enfermeiras abandonando o burburinho e sossegando os outros doentes
- Vá calma, sosseguem, nada se passou
e nós a vermos passar a maca para cá vazia, para lá com o corpo ainda
quente do velho que fez a máquina apitar; de modo que eu, que nunca
acreditei em magias, agonizo num impaciência implorativa
- Alguém desliga a televisão?
e no entanto,
- E agora o momento de magia com o Grande Ilusionista Godofredo, o
vosso aplauso
eu com tubos enfiados nas veias e no nariz, e uma máquina ajudando-me
à respiração, outra calculando a sua vez de apitar, ouvem-se as
enfermeiras comentando
- Quase na hora da visita, vejam lá que espectáculo não ia ser
por isso, já não
- Alguém desliga a televisão
mas
- Alguém desliga estas máquinas, e me retira os tubos?
Chega a hora das visitas e lá vêm aos pares os meus familiares,
primeiro a minha esposa com uns olhos de quem já não dorme há dias,
com o meu filho mais novo a querer sorrir para mim, mas no seu sorriso
murcho eu ouço
- Vais morrer, pai?
eu ouço
- Não quero que morras, pai
e a minha mulher especulando as esperanças
- Qual morrer, ninguém vai morrer, que ideia é essa?
apesar de ela também um sorriso apagado, esforçado demais, deixando
escapar
- Não morras Manuel
eu ouvindo
- Ainda precisamos de ti Manuel.
É Dezembro, a alguns dias do Natal, alguns doentes cochicham com as
enfermeiras qual de nós os cinco da enfermaria poderá ainda passá-lo
em casa, atitude misericordiosa no regulamento hospital para quem está
na fase terminal, apesar de se não poder tocar no bacalhau, no
bolo-rei, numa rabanada, nem um figo seco sequer
(afinal porquê adiar o termo disto tudo com tais prescrições?),
a televisão
- Não perca a seguir a segunda parte, estão cá as Xuxas e Picadelas,
fique na nossa companhia
e eu
- Alguém desliga a televisão
a minha mulher mostrando-se animadíssima
- Hoje vocês têm cá televisão, já viste Manuel, que rico programa
e eu
- Alguém desliga a televisão
ou seja
- Alguém desliga estas máquinas, e me retira os tubos?
a minha mulher sem entender patavina do que eu digo, debruçando-se
sobre os meus lábios para ouvir melhor,
- Desligar o quê?
e eu farto, ficai sabendo, eu farto de estar aqui estendido entubado
só porque alguém segreda como que fazendo apostas
- Será que o Manuel pode ainda passar o Natal a casa?
rematando
- Será o último que passa, coitado
de modo que eu farto das tubagens enfiadas no nariz, incomodando-me,
farto do tubinho que pinga soro e drogas minuto a minuto, hora a hora,
teimando com a televisão ligada
- Cá estamos de novo para a segunda parte
e eu fartinho, fartinho de tudo, farto de ver os olhos do meu filho
mais novo implorando
- Não morras pai
das visitas de duas horas que ajudam a prolongar este sofrimento
pateta, só porque ligado a uma televisão,
perdão,
a uma máquina que espera a sua vez de soar um piii contínuo, alertando
as enfermeiras
- O doente da cama vinte e nove, depressa.
As visitas revezam-se, entra a minha filha, mais velha, acompanhada
pelo meu genro que julga que eu nunca fui com a cara dele, eu que
nunca o tratei mal, eu que sempre o recebi bem lá em casa, eu que
nunca coloquei qualquer entrave aos namoros da minha filha, nem ao seu
casamento, nem ao aborto que fez antes de casar, mesmo que tivesse
algo contra a dizer, que me importa agora isso, para quê o olhar dele
desconfiado a pensar
- Ainda não morreste tu?
eu apenas quero a televisão desligada, e a minha mulher
- Vais passar o Natal a casa, Manuel.
Passar o Natal a casa para quê, se eu todo tubos, querem lá ver que me
vão enfiar o bacalhau, o bolo-rei, a rabanada, o figo seco pelo tubo
dentro, sem necessidade de passar pelo esófago, pelo estômago, tudo
pelo tubo que me alimenta de soro e drogas, eu à mesa olhando com as
órbitas a saltarem do rosto para o pinheirinho de luzes tresloucadas,
com uma melodia pateta, enquanto a máquina não se chega à frente de
todos os sons e melodias com o seu piiii constante, deixando toda
gente apavorada
- Não entubem mais bacalhau
sem enfermeiras para acudir
- O doente da cama vinte e nove
a minha mulher intrigada
- Desligou-se o quê?
Por isso, livrai-me lá do Natal, deixai-me morrer do cancro que me
consome o corpo, do cancro que não dá descanso a estes tubos e a estas
máquinas que se tornam orgânicas com cada doente que sustentam,
assistindo igualmente ao espectáculo ridículo onde
- E agora palmas para a fadista Maria Cândida
os tubos e as máquinas pedindo
- Alguém desliga a televisão
ou
- Alguém nos desliga deste cancro?
Mas não, eu fartinho, e eles, a minha mulher, o meu filho mais novo, a
minha filha mais velha com o meu genro desconfiadíssimo
- Ainda não morreste tu?
(e eu que nunca lhe fiz mal algum)
a insistirem que as máquinas ligadas, que enquanto há vida há
esperança, que vamos ter um Santo Natal, depois da missa do galo a
televisão ainda vai passar Música no Coração, e o meu coração sem
música qualquer, esperando apenas o monocórdico tom piiii constante da
máquina teimosa quanto a televisão que ninguém desliga, como se o
espectáculo
- Convosco os famosos Anfitriões
fosse o soro com as drogas que me vão agarrando a uma vida que, se
nunca teve sentido, qual o sentido dela agora, senhores, vá lá,
peço-vos
- Alguém desliga a televisão?
não me olhem com a vossa piedade e o vosso egoísmo, com o vosso medo
de perder o marido, o pai, o sogro,
(- Medo eu de perder o meu sogro? Não!)
com o vosso medo de sofrer, abram-me esses olhos e queiram ver,
senhores familiares, senhoras enfermeiras, quem sofre sou eu, porquê
prolongar-me a vida com estes tubos e estas drogas?, para evitar a
vossa dor, querida família?, para evitar a vossa frustração
profissional e a falta do vosso código ético, cara equipa médica?,
para quê tudo isto, para quê uma televisão ligada, quando eu, e outros
como eu, implorando
- Alguém desliga a televisão?
E no entanto,
- Para terminar, senhores telespectadores, é momento de rir com
Ferdinando, o rei das anedotas.
Não. Estou farto. Cansei-me. Não quero mais. Os tubos incomodam-me no
nariz, mal posso mexer-me, que miséria esta de querer urinar e chamar
uma enfermeira para nos enfiar debaixo do cu a aparadeira, ainda bem
que os intestinos só gases, ou uma aguadilha que se confunde com a
urina, senão que miséria maior, senhores, vá, alguém desligue a merda
da televisão e aproveite o jeito para retirar-me os tubos, deixar com
que a máquina enfim suspire o seu piii constante, já vão para o
telejornal, pode ser que o apresentador
- O doente da cama vinte e nove
Peçam desculpa à minha mulher, digam-lhe que afinal foi tudo
desligado, peçam perdão ao meu filho mais novo porque isto toca a
todos e agora toca-me a mim, peçam desculpa à minha filha mais velha
por não lhe ter dado mais atenção e descansem o meu genro que acha que
eu nunca fui com a cara dele, apesar de eu sempre de braços abertos,
peçam desculpa aos médicos por não aguentar mais o código ético, e por
favor
- Alguém desliga a televisão, me tira esta tubagem e me desliga das
máquinas?
Assim, ficamos todos bem, sofre quem tem ainda saúde e forças para
sofrer, que eu cá me arranjo, com o lençol tapando-me o rosto, sempre
menos incomodativo que os tubos no nariz. Vá lá, façam-me esse favor e
não me chamem a mim egoísta. Apenas quero descansar, por isso, uma vez
mais imploro, deixai-me morrer e tenhamos todos um Santo Natal.
© José Alexandre Ramos