Sabes
Sabes, é um desespero isto de escrever, uma dor que remói, uma cárie
de um dente a extinguir-se na boca, (falo na boca porque a boca
instrumento para entabular conversas que tenho, umas fiadas, outras
existenciais, algumas polémicas
não haver deus é um deus também)
e por isso não escrever como se fosse um abcesso, uma ferida aberta,
ou aquela dor que nos fatiga a cabeça quando queremos ver televisão ou
ler um livro, e o pensamento longe, nada entendemos do programa, não
sabemos o que lemos, o pensamento desviado e queixando-se
- Dói-me a cabeça
ou não uma dor de cabeça, uma dor de velhos
- Dói-me os ossos
de modo que podes acreditar, não só como Pessoa dizia pensar é como
andar à chuva, escrever é não saber o destino que o comboio onde
entramos nos vai levar; aquela velocidade a que passam as árvores, os
postes de iluminação, as casas, os automóveis parados na barulheira da
campainha à passagem da composição – assim se me apresentam as
palavras compostas, escritas que não querem obedecer, o cigarro
- Dá-me um cigarro, Rosa
aceso porque o papel morto na sua brancura. Há quem defenda que a
brancura é sinal de pureza, mas a pureza do papel é a morte das
palavras abortadas na cancela esconsa do meu pensamento, e a cancela
fechada, o comboio passando, levando na velocidade as árvores, os
postes de iluminação, as casas, os automóveis parados na barulheira da
campainha, rugindo, como rugem animais feros, acutilados pela dor que
um caçador lhes inflige com a sua certeira e letal arma de trazer ao
tiracolo, embrulhada em panos que se querem limpos; eu para a Rosa,
- Dá-me um cigarro
e o cigarro não afugenta as feras, o cigarro não embrulhado em panos
que se querem limpos, apenas composto na boca de onde a dor
- Dói-me um dente
não
- Dói-me a cabeça
não
a dor dos velhos, dor de reumatismo, dor senil, é isso, dor senil,
senil como a senilidade com que as palavras se me apresentam na
cancela esconsa do meu pensamento.
Não é poesia, tão pouco um conto, de longe será romance que um dia
escreverei e entalado na garganta como a espinha de peixe que se
espeta na laringe e já depois de engolida ainda a sensação
- Tenho uma espinha atravessada na garganta
e não há espinha alguma, apenas a sensação, a sensação de que as
palavras ficam entaladas, espetadas como espinhos de um cato torto
abandonado nos confins de uma varanda só visitada nos dias de verão;
olho para baixo e vejo a linha escura, os carris cansados, o comboio
ao longe, apitando, assomando, rugindo como animal acutilado pela dor
que o caçador lhe inflige, e o cigarro que me dás apenas uma mortalha
de folhas secas dentro que não exorciza de modo algum esta dor de
cabeça
de dentes
de velhos
- Dói-me os ossos
o cigarro não exorciza, o cigarro não é a arma que traria ao tiracolo
para acutilar as palavras teimosas,
ou melhor,
as palavras já mortas, abortadas na cancela esconsa do pensamento, e
por isso para quê uma arma, para quê um cigarro, porquê
- Dói-me a cabeça
se já não é a cabeça que me dói?,
nem os dentes
apenas
- Dói-me os ossos
um saco de água quente nos pés ao deitar porque a velhice
(senilidade das palavras)
assim obriga, queremo-nos quentes e confortáveis, assistindo à
televisão ou lendo um livro de que nada entendemos porque longe o
pensamento, à espera que o comboio abrande a velocidade das árvores,
dos postes de iluminação, das casas, dos automóveis rugindo à espera
para assaltar o outro lado da estrada, convulsos
- Deixai-me passar
quando no mesmo momento atravessa convicta e distraída essa pessoa
idosa, por sinal, a palavra que precisava para começar aquela poesia,
não, o conto,
não, não, o romance
que não consigo escrever, e o rugido de um automóvel onde viaja um
caçador que acutila as feras com a sua arma letal, embrulhada em panos
que se querem limpos, leva em reviravoltas dignas de estrela de circo
esta velha, esta dor de cabeça,
perdão,
esta dor de ossos, ou para ser mais simples, esta dor de dentes, esta
cárie de um dente destruído que é querer escrever algo conciso não me
ser possível, e por isso
- Dá-me um cigarro, Rosa
mas o cigarro não exorciza, muito menos ressuscitará o corpo que jaz
sob uma poça de sangue, o automóvel sem rugir, amolgado como se
- Dói-me os ossos
nada poderá remediar o facto de ter perdido atropelada a palavra que
me iniciaria num discurso mais longo, de modo que, sabes, escrever
dói. Dói, mais do que pensar seja andar à chuva como diria Pessoa.
José Alexandre Ramos
22 Dezembro 2003